Banda 'As bahias e a cozinha mineira' estreita relações com o pop e lança EP inteiramente produzido na quarentena

Eduardo Vanini
As Bahias e a Cozinha Mineira - Raquel Virgínia, Rafael Acerbi e Assucena Assucena

Raquel Virgínia queria ser cantora de axé. Assucena Assucena começou a cantar no coral do cursinho de inglês. Rafael Acerbi tocava em bandas de rock. Os três marcaram a opção “História” no vestibular da USP, quando chegou a hora de escolher uma faculdade. Estudaram juntos, foram jubilados juntos e criaram juntos uma das bandas de maior projeção no circuito musical alternativo brasileiro: As Bahias e a Cozinha Mineira. Nem mesmo a quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus nos últimos meses impediu o trio de produzir coletivamente. Embora cada integrante more num endereço diferente de São Paulo, o grupo acaba de lançar um EP de cinco músicas, produzido remotamente ao longo de 15 dias.

“Enquanto estamos distantes”, cujas músicas serão mostradas numa live às 17h deste domingo no Instagram da Revista ELA (@elaoglobo), foi concebido sob a premissa da sutileza, com a intenção de levar um alento à vida das pessoas num momento tão inconstante como este. “É um repertório sobre delicadeza. Você liga a TV e vê muita tragédia e violência. Precisamos de mais carinho e arte. Tem dia que, se eu não botar uma Bethânia ou uma Alcione para tocar, não dou conta do isolamento”, comenta Raquel, ao passo que Assucena completa: “As músicas trazem uma reflexão sobre pequenas coisas do cotidiano das quais estamos afastados. Não podemos encontrar um crush, um amigo...”

O single “Éramos chuva” traduz bem esse espírito. No clipe, vê-se nomes como Taís Araujo, Lea T. e Thelma Assis mostrando seus cotidianos enquanto leem livros, rodopiam pela sala ou fazem ioga. Numa das cenas mais simbólicas, a escritora Djamila Ribeiro sente a chuva cair sobre o seu rosto através da janela de casa. Tudo gravado por cada participante.Mais sintonizada com o rock até então, a banda chega aos ouvidos do público numa roupagem pop, costurada com guitarra, violão, teclado e samples de Rafael. Ele assina a produção e fez todos os arranjos sozinho, no estúdio montado em sua casa. “Esse trabalho acessa um lugar inédito para nós, que é o da reinvenção”, resume o músico, enquanto Raquel ilustra como foram os bastidores: “Cheguei a ensaiar dentro do banheiro por causa da acústica”.

Sucesso em festivais no Brasil inteiro e fazendo shows que sacolejam casas como o Circo Voador, o trio formado por duas mulheres trans nos vocais e um homem cis na guitarra terminou o ano que passou com uma indicação ao Grammy Latino e se prepara para ganhar um público cada vez maior. Além do EP, o quarto disco de estúdio, “Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”, já está gravado, mas teve o lançamento adiado por tempo indeterminado em função da pandemia.

Planejado na forma de um álbum visual, o disco mergulha em águas mais profundas do universo pop e leva a assinatura estética de Gringo Cardia, acostumado a trabalhar com nomes como Ivete Sangalo e Maria Bethânia. Os clipes seriam gravados em março, mas foram suspensos diante da impossibilidade de se reunir uma equipe de filmagem neste período. “Vamos fazer uma coisa visualmente transgressora. Em cada música, as Bahias vão aparecer com um visual específico, mostrando como há um ecletismo ali”, adianta Gringo.

Este será o segundo trabalho do grupo pela gravadora Universal, e a produção musical ficou a cargo de Daniel Ganjaman, outro nome quente do cenário artístico. Já o título traz uma citação ao poema “Todas as cartas de amor são ridículas”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. “É uma forma de nos posicionarmos frente ao que chamamos de romantismo. Sempre apresentamos uma diversidade temática, que vai dos problemas sociais do Brasil a um cotidiano banal. No meio disso, existe esse romantismo, algo muito latino e brasileiro, que nos faz querer conversar mais com as massas. As músicas que havíamos lançado dentro desse perfil em trabalhos anteriores já são as que as pessoas mais cantam nos shows”, descreve Assucena, prometendo, ainda, faixas dançantes. “O amor também dança. Dançar junto é uma delícia...”

O trio se conheceu em 2011 e formou a banda, com este nome, em 2015. Logo, a chegada ao quarto álbum é também o triunfo de uma parceria entre três pessoas bem diversas ao longo de todos esses anos. “A gente se conheceu na universidade, mas cada um tem uma história muito particular”, salienta Raquel. “Eu sou negra, da periferia de São Paulo, a Assucena é do Sertão da Bahia e judia e o Rafa é mineiro de Poços de Caldas (nascido em família evangélica). Tudo isso acaba numa conformação que, de alguma maneira, simboliza um Brasil que tenta ser harmônico.”

Fã de Ivete, a paulistana sonhava, na adolescência, em fazer carreira em cima do trio elétrico. Pediu tanto à mãe, que conseguiu se mudar para a capital baiana aos 17 anos. O projeto, porém, não aconteceu como fora sonhado, mas a vivência por lá serviu para que os laços com a sua negritude fossem estreitados e lhe rendessem uma baianidade suficiente para justificar o nome da banda. Ela e Assucena, que é nascida em Vitória da Conquista, ganharam o apelido de “Bahia” na faculdade.

A trinca fechada com a cozinha mineira de Rafael já rendeu seus “quebra-paus”, como admitem os três sem qualquer ressentimento. “A nossa união acaba produzindo contradições o tempo inteiro. Antes, quando não tínhamos muita experiência nesse mundo artístico, era difícil de lidar. Mas, hoje em dia, conseguimos ser mais francos e resolver as coisas na hora”, afirma o guitarrista.

O comentário diz respeito a situações como fotos em que uma das cantoras foi cortada na hora da publicação e entrevistas para a TV nas quais as palavras de Rafael foram sobrepostas às das companheiras, pelo fato de ser um homem hétero e branco. “Certa vez, fomos a um programa em que elas falaram durante quase quarenta minutos, e ninguém se manifestou. Eu falei por um minuto e vinte segundos, e o apresentador puxou palmas da plateia.”

Num momento em que escolheram falar tanto de amor em suas canções, é bom salientar que cada um dos integrantes também tem um jeito todo próprio de lidar com o tema na vida pessoal. “Sou amorzinho, choro de paixão”, conta Rafael, acostumado a relacionamentos longos, ao passo que Raquel demonstra um comportamento distinto: “Gosto de aventura. Não quero me apaixonar por alguém. Acho que os homens me assustam um pouco, no sentido de atrapalharem a minha vida. Aprecio um romance, mas de um jeito mais fragmentado, não uma história longa.”

Já Assucena traz uma terceira visão sobre o tema. Embora sinta vontade de se casar futuramente, ela chegou a comentar, numa entrevista recente, que não se apaixona mais. “(Relacionar-se) é um trauma, quando você é atravessada por uma série de questões fundamentadas na transfobia. A pessoa curte você, sente uma atração, mas te invisibiliza como possibilidade”, desabafa, ao citar uma experiência pessoal vivenciada com um homem cis heterossexual, que conheceu na faculdade, há dez anos. “A mensagem que se atribui a você como alguém que não é passível de ser amada é um assassinato da sua dignidade quanto ser humano. Parei de gostar dele há uns quatro anos. Passar por isso foi traumatizante. Posso flertar, fazer brincadeirinhas, mas não sei se sou capaz de me apaixonar novamente.”

O debate levantado por Assucena traz à tona questões que tangenciam tanto a sua existência quanto a de Raquel como mulheres transexuais. As duas não se furtam a comentar o tema e reconhecem a importância disso. Por outro lado, também sugerem uma reflexão sobre o que está por trás de uma expectativa de que artistas como elas sempre assumam o papel de militante. “É como se a gente não pudesse se divertir e estar no lugar do entretenimento puramente. Como nossa existência em muitos lugares ainda é rara, somos necessariamente levadas à militância quando chegamos até esses espaços”, pondera Raquel. “Quando pedem para falarmos sobre o assunto, é claro que precisamos falar. Mas é importante que a gente vá ao programa da Ana Maria Braga, faça um omelete, cante uma música e vá embora. Isso também vai salvar muitas vidas.”

É preciso estar atento e pop.