Banda Bala Desejo e Céu se retiram de festival após críticas por ausência de artistas negros

A banda Bala Desejo — formada por Zé Ibarra, Julia Mestre, Dora Morelenbaum e Lucas Nunes — e a cantora Céu anunciaram, na manhã desta quinta-feira (24), que deixarão de participar do festival Nômade, em São Paulo, em janeiro de 2023. A decisão vem à tona após a repercussão de críticas contra o evento, que não escalou artistas negros para o show de abertura da americana Erykah Badu, referência do r&b, do soul e da black music.

Gordofobia: Companhia do Catar não chega a acordo com embaixada e exige que brasileira compre passagens extras 'por ser gorda demais'

Copa do Catar: 'Dreamers', de Jungkook, estreia bem no streaming, mas tem um longo caminho até 'Waka Waka'

"Esperamos ser substituídos por muitos dos talentos da música preta brasileira, alguém que dialogue diretamente com o legado de Badu. Há muitos artistas com mais propriedade para ocupar esse lugar do que nós", ressalta a banda Bala Desejo, por meio de comunicado publicado nas redes sociais.

No mesmo comunicado, os músicos dizem que esperam "que todos os festivais do Brasil se conscientizem da necessidade mais que urgente de construir line ups que contemplem as questões de representatividade e que respeitem a história e os contextos no qual cada manifestação artística se dá". A banda reforça que "existem inúmeras opções de artistas brilhantes para compor as programações e não concordamos com a ausência deles".

A cantora Céu justificou a saída do line-up do festival também por meio de uma publicação no Instagram. "Da minha parte, deixo aqui registrado que durante a apresentação do nosso show, o palco teria mulheres pretas preferencialmente, artistas pretos majoritariamente, tendo sido essa uma condição imposta por mim mesma", ela afirmou.

O festival Nômade se manifestou sobre os cancelamentos e frisou que agora está reformulando a programação do evento. "Ontem foi um dia de muita reflexão e troca de ideias com parceiros, amigos, e colegas, mas, principalmente, um dia de muita escuta! Estivemos atentes a todos os posicionamentos de vocês", afirmou a página do festival.

Entenda o caso

Na última quarta-feira (23), a cantora Erykah Badu anunciou que fará dois shows no Brasil em 2023. Uma das apresentações acontecerá no Memorial da América Latina, em São Paulo, num evento organizado pelos festivais Nômade e Wehoo. A abertura do show da americana seria feita pelas bandas Gilsons e Bala Desejo e pela cantora Céu, como divulgado também na última quarta-feira.

'Um passo de cada vez': Roberto Carlos diz que ainda não sabe como homenagear Erasmo no especial da TV Globo

Assim que o a informação foi revelada pela organização do evento, o público reagiu de forma negativa com a escolha dos artistas que abririam a apresentação, alegando que "não faria sentido com o som e legado de Erykah para o mundo musical e para a cultura preta", como frisou um internauta.

Em publicação que foi compartilhada por outros artistas nas redes, a cantora Xênia França fez um desabafo e lamentou o fato de "pouca gente estar interessada genuinamente em mudar alguma coisa", no que se refere à luta antirracista dentro da indústria da música.

"Surpreendendo um total de zero pessoas, o line-up de abertura do show está totalmente desconectado do momento presente, dado que essa artista (Erykah Badu) é uma instituição da cultura preta mundial", disse. "O que observo é o mercado viciado e fazendo as mesmas escolhas de sempre: ignorar pra não apagar artistas negros do Brasil , sobretudo as mulheres", ressaltou Xênia, em post nas redes sociais.