Bandeirantes falavam tupi: história indígena de São Paulo

Lucas Reginato
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Tuane Fernandes /Agência Plano
Tuane Fernandes /Agência Plano

Por Lucas Reginato /Agência Plano

Às margens dos rios Anhangabaú e Tamanduateí nasceu São Paulo de Piratininga, onde chegaram os jesuítas pela trilha dos tupiniquins, que subia do mar à Serra de Paranabiacaba, em direção a Guarapiranga, Aricanduva. Cresceu para depois do Anhembi, do Butantã, do Ipiranga, cercou o Jaraguá, avançou o Vale do Paraíba. Habituou-se a comer mandioca, goiaba, paçoca, abacaxi, a tomar guaraná, suco de caju, catuaba. As palavras em tupi descrevem história e geografia dessa cidade porque assim ela nasceu, de europeus a seguir pegadas dos índios.

Em 9 de julho de 1562 o líder tupiniquim Tibiriçá, cuja taba ocupava exatamente onde ergueu-se o colégio, salvou a pele de padre Anchieta e demais missionários quando a vila foi atacada por povos guarulhos, carijós e rebeldes tupiniquins, tendo colocado uma flecha, inclusive, na barriga do próprio irmão, Jaguaranho. Os primeiros paulistas falavam a língua da terra, materna, porque eram filhos de homens brancos com mulheres indígenas. Tibiriçá casou sua filha, Bartira, com João Ramalho, náufrago português que desde 1515 vivia na terra, fundador da vila de Santo André e da dinastia dos mamelucos.

Porque a metrópole vingou ao avançar o sertão, descer para dentro com o Tietê e a ineficácia do Tratado de Tordesilhas. Isso nos lembram a todo instante os monumentos aos bandeirantes que se espalham na cidade, as rodovias que levam Anhanguera, Raposo Tavares, Fernão Dias para o cotidiano dos paulistas. Se as estátuas falassem, contudo, rejeitariam o fardamento, as calças (motivo de zombaria contra os emboabas, novos portugueses que mantinham as plumas da terrinha), e o fariam tudo em tupi, ou, no que os linguistas viriam a classificar como Língua Geral Paulista (LGP).

“Essa foi a língua de São Paulo até o século XVIII”, diz o professor Wilmar D’Angelis, do Departamento de Linguística do IEL – Unicamp. “O tupi paulista existiu porque os degredados portugueses se juntaram aos tupi, casaram com índias, tiveram filhos de pai português, mas a mãe e a comunidade era tupi. Aprenderam a língua materna, e quando entraram pelo interior perderam o contato com a origem europeia. Esses nomes da toponímia brasileira, Jundiaí, Piracicaba, Cuiabá, não foram dados por índios locais, mas pelos bandeirantes na língua que eles falavam”.

O padre José de Anchieta registrou em muitos momentos essa confusão linguística. “Estes índios, entre quem estamos agora, nos dão seus filhos para que os doutrinemos”, escreve em carta de 1555, “aprendem orações em português e em sua própria língua”. O fundador de São Paulo aprendeu o tupi para se comunicar com quem ele queria catequizar. Tupã era Deus, tupãóka a igreja, pai-guaçu era o bispo e os anjos karaibebés. Em “Auto de São Lourenço”, que ele escreveu em 1583, os demônios Guaixará, Aimbirê e Saravaia tentam perverter a aldeia. A peça “Na Aldeia de Guaraparim”, encenada pouco depois, foi feita toda em tupi pelo padre que dois anos antes de morrer, em 1597, ainda publicou “Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil” em Portugal, primeira gramática tupi da história.

Fernão Dias cresceu no sertão de São Paulo no começo dos anos 1600, foi casado com uma sobrinha de Tibiriçá. Sua primeira bandeira foi com Raposo Tavares em direção ao sul do país em 1638. Ficou rico durante a vida com os milhares de escravos indígenas que trazia para São Paulo, e com parte da fortuna financiou o Mosteiro de São Bento, onde hoje está enterrado. Bartolomeu Bueno da Silva foi o bandeirante que chegou até Goiás e com tamanha crueldade tratava os índios pelo caminho que ficou conhecido como o “diabo velho”: Anhanguera.

Em texto do clássico “Raízes do Brasil”, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda enumera registros da prevalência de tupi na sociedade paulista e nota que: “Se procedermos a um rigoroso exame das alcunhas tão frequentes na antiga São Paulo verificaremos que, justamente, por essa época (séc. XVII), quase todas são de procedência indígena. Assim é que Manuel Dias da Silva era conhecido por ‘Bixira’; Domingos Leme da Silva era o ‘Botuca’; Gaspar de Godói Moreira, o ‘Tavaimana’; Francisco Dias da Siqueira, o ‘Apuçá’; Gaspar Vaz da Cunha, o ‘Jaguaretê’; Francisco Ramalho, o ‘Tamarutaca’; Antônio Rodrigues de Góis, o ‘Tripoí’’.

Destaca, o historiador, que “o processo de integração efetiva da gente paulista no mundo da língua portuguesa pode dizer-se ocorreu, com todas as probabilidades, durante a primeira metade do século XVIII”, e conclui que “os portugueses precisaram anular-se durante longo tempo para afinal vencerem”. Nota-se que os bandeirantes adentraram o sertão para escravizar indígenas, sendo índios eles mesmos. É um traço marcante do comportamento desse povo. Na Guerra dos Emboabas, no começo do século XVIII, os primeiros paulistas expulsaram portugueses recém-chegados e brasileiros de outras regiões. O paulista muitas vezes destaca si mesmo do Brasil – no movimento constitucionalista de 1932, por exemplo. Mas nenhuma cidade é mais brasileira que São Paulo, onde há brasileiros de toda espécie desde que existe Brasil. É como o ouvir hoje em dia o discurso xenófobo numa cidade que se transformou no século XX com ondas imigratórias de todos os cantos do mundo.

Desde os tempos em que se falava tupi, foram 250 anos de progresso, de civilização moderna, e hoje a língua está tão viva entre nós quanto os rios da maior cidade da América do Sul. Um passageiro no metrô Anhangabaú nem desconfia que ali há um rio, como alguém no Parque do Ibirapuera é capaz de achar que tupi é coisa da floresta amazônica. Está invisível aos olhos, mas as palavras são ditas. Que paulistano nunca cantou a “Saudosa Maloca”? Não comeu pipoca, cutucou no Face, ficou jururu, chorou as pitangas? Chamou migrante de paraíba, caipira, caiçara – mas xará, na pindaíba ou no Iguatemi, we are tupi.