Bandejão da UFF vê demanda por refeições crescer

Diariamente, por volta das 6h, carros chegam com os alimentos que serão preparados para o cardápio do dia para alunos e servidores da UFF, no Restaurante Universitário Central (RU), no Campus Gragoatá. Em Niterói, a universidade conta com cinco bandejões espalhados nos diversos campi. Todo o planejamento, como gastos com os itens alimentícios e o gás de cozinha, é orientado a partir da demanda baseada nas informações do semestre anterior ao início das aulas. Porém, a crise econômica que atinge o país está causando o aumento da procura pelas refeições, oferecidas pela universidade a R$ 0,70.

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No início de 2022, quando as aulas retornaram à modalidade presencial, Palmira Coca, coordenadora do RU, conta que a equipe responsável pelo serviço estimou a média de cinco mil refeições por dia. No entanto, logo após os primeiros meses, a demanda passou para 6.500/dia. E quando o segundo semestre letivo começou, esse número saltou para 7.500. Há cerca de três semanas, a produção chegou a 8.400 refeições. Isso tudo com uma equipe de dez nutricionistas e 130 funcionários.

— Está tudo mais caro, e o investimento federal não acompanhou essa mudança. Antes da pandemia, em 2019, nosso gasto mensal com o gás girava entorno de R$ 16 mil, e agora gastamos R$ 36 mil. Fora os outros insumos, como descartáveis e material de limpeza. As universidades, de maneira geral, estão sofrendo nesse momento. O foco do atual governo nunca foi a educação. Nossa demanda cresceu bastante. São filas enormes. Mas estamos aqui trabalhando para garantir toda assistência necessária a quem precisa desse serviço — detalha a nutricionista.

Ao ser aprovada para o curso de Geografia da UFF, no primeiro semestre de 2021, a estudante Gabriela Ferreira ainda morava em Nova Iguaçu. No entanto, a longa travessia e os gastos com transportes fizeram a artesã mudar de ideia e de cidade. Ela escolheu uma república para ficar mais perto da universidade, e um dos principais gastos apontados pela estudante é a alimentação.

— Tenho um gasto mensal de R$ 600. Se eu fosse me alimentar fora, gastaria em média R$ 15 por refeição. Seria insustentável. Com o bandejão, gasto quase uns R$ 30 almoçando e jantando por mês. Não tenho a experiência de antes da pandemia, mas desde que entrei as filas aumentaram — afirma.

O economista e professor da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar) Tiago Sayão aponta que a recuperação de fôlego apresentada pelos índices da taxa de inflação e oferta de empregos não representa melhora real na vida da população, que ainda sofre com a alta de preços. Somado a isso, existe a falta de investimento público na assistência estudantil. Ou seja, quem não tem garantia de alimentação em casa busca nos serviços públicos.

—O governo mostra que o desemprego diminuiu, mas não mostra que o salário médio está abaixo do registrado em períodos anteriores. Além da alta taxa de informalidade. As famílias perderam muito, e isso explica parte desta questão. Os restaurantes universitários se tornam para alguns alunos a única garantia de refeição diária. E isso a longo prazo é preocupante. A conta não vai fechar — explica Sayão.

Falta investimento

Em nota, a UFF destaca que o Restaurante Universitário atende todos os estudantes, tendo o orçamento para a sua manutenção derivado tanto do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) quanto de recursos discricionários da administração. Com isso, a universidade pode garantir o atendimento para uma alimentação acessível e de qualidade para toda a comunidade universitária.

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A UFF também afirma que desde 2015 as instituições federais de ensino superior têm sofrido severos cortes e bloqueios orçamentários, afetando todas as áreas da universidade, sobretudo no que se refere à assistência estudantil. Só este ano, a UFF foi impactada com uma redução de seu orçamento no valor de R$ 14 milhões. No entanto, diz em nota, reconhecendo a importância dos serviços de assistência estudantil, como alimentação e moradia, sobretudo em um contexto de crise econômica que atinge um grande número famílias da comunidade acadêmica, a instituição garante o suporte para os alunos permanecerem na universidade. Isso significa, entre outras coisas, manter um valor acessível na sua alimentação e desenvolver programas de assistência estudantil para a comunidade.

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