Bando de Beira-Mar é suspeito de cobrar taxa para permitir vazamento de lixo clandestino

Marcos Nunes
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Carros abandonados no lixão clandestino em Jardim Gramacho. Foto Custodio Coimbra

Investigações da Polícia Civil apontam que Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, atualmente cumprindo pena numa penitenciária federal, é o chefe de uma quadrilha que comanda o tráfico de drogas no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. O bando controla as principais entradas que levam ao aterro sanitário do Jardim Gramacho,  desativado em 2012, e é suspeito de cobrar pedágio de caminhões que despejam lixo clandestino no local.

 

 O valor cobrado por traficantes não constam nas informações recebidas pela polícia. No último dia 8, uma equipe de reportagem de O Globo sobrevoou o antigo aterro  em companhia do biólogo Mário Moscatelli, e constatou que  a formação de inúmeros  lixões avançando em direção à Baia de Guanabara.Entre as montanhas de lixo estão até carcaças de carros roubados pela quadrilha.

 De acordo com Mário Moscatelli, uma área de manguezais  do tamanho de três campos de futebol já foi soterrada pelos detritos . Já na faixa de proteção ao Rio Sarapuí, que deságua na Baía de Guanabara, o estrago é quase sete vezes maior.

— Na verdade aquela situação do entorno do aterro metropolitano de Jardim Gramacho, tudo que você pode pensar de errado tem lá. Aquilo ali é um problema ambiental  porque os lixões estão aterrando os manguezais. Estão aterrando a faixa marginal  de proteção do Rio Sarapuí, e estão causando a supressão de ecossistemas que são protegidos por lei e do qual a biodiversidade depende. Além disso, por serem lixões, produzem chorumes. Chorume vai para esses ecossistemas e potencialmente vai para Baía de Guanabara. Não há controle algum do lixo jogado nas áreas do antigo aterro sanitário. Calculo uns três hectares já aterrados na área de manguezal e outros 20 na faixa de proteção do Sarapuí. Você tem um problema de natureza de saúde pública, porque joga-se de tudo e não há qualquer controle e você tem um problema de segurança aérea, porque salvo me engano, a área consta como perímetro de segurança do aeroporto internacional do Rio. E há uma grande quantidade de urubus, fruto da presença dos lixões, o que pode levar a um deles até ser sugado por uma turbina, e é claro um problema de segurança pública  —disse o biólogo.
 

De acordo com Moscatelli, o vazamento de chorume em direção à Baía de Guanabara afeta diretamente a pesca e a captura do caranguejo.

—O chorume é tudo de ruim, é o líquido da decomposição dos resíduos. Afeta a biodiversidade da área, reflete na captura de caranguejos, afeta à comunidade vegetal, na fauna do manguezal  e na pesca— disse.


Procurada, a Polícia Civil informou que há uma  investigação do tráfico de drogas ( 59ªDP - Caxias) no Aterro Sanitário de Gramacho  em curso. E que   há dois inquéritos em andamento na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), para apurar as responsabilidades pelo vazamento de lixo irregular.

Segundo a delegada Márcia Julião, da DPMA,  dois inquéritos apuram vazamento de lixo clandestino em diferentes áreas do antigo aterro sanitário.

Procurada para falar sobre o que a polícia vem fazendo para evitar a ação de traficantes no local, a Polícia Militar respondeu apenas que a Polícia Civil investiga o fato.

 Também procurada, a Prefeitura de Duque de Caxias esclareceu que as atividades do aterro de Jardim Gramacho tiveram início, em 1976 e que foram paralisadas em 2012. Segundo a prefeitura, o local recebia 7 mil toneladas de lixo por dia. Ainda de acordo com a prefeitura, uma empresa retira os gases provenientes dos detritos do antigo lixão, mas que o chorume não está sendo completamente tratado. E que a responsabilidade por essa fiscalização é do Instituto estadual do Ambiente (Inea).

Procurado, o Inea disse que, em 2019, fez 11 ações de fiscalizações no local onde funcionava o aterro sanitário e em em seu entorno. E que Nas três operações de combate a crimes ambientais que aconteceram neste período, com a participação das forças de segurança, foram detidas 7 pessoas, apreendidos 2 caminhões, 4 máquinas de grande porte, e demolidos 34 fornos de carvão. Por fim, esclareceu que irá oficiar a Polícia Civil e Polícia Militar para intensificar as operações de de segurança e coibir crimes ambientais.

Abaixo, a íntegra da nota.

"A Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade esclarece que atua em três frentes de trabalho distintas. Fiscalização, combate a crimes ambientais e ações de recuperação ambiental.
Em 2019 foram feitas 11 ações de fiscalização no bairro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no local onde funcionava o aterro sanitário e em seu entorno.
 

Nas três operações de combate a crimes ambientais que aconteceram neste período, com a participação das forças de segurança, foram detidas 7 pessoas, apreendidos 2 caminhões, 4 máquinas de grande porte, e demolidos 34 fornos de carvão. Estes fornos são construídos ali para transformar em carvão a madeira de obra despejada irregularmente junto com os entulhos.
 

Há um projeto básico de Recuperação e Proteção Ambiental do bairro Jardim Gramacho já concluído. Ele terá as fases de reurbanização, drenagem urbana, melhorias no saneamento básico e sistema viário, monitoramento por câmeras, construção de ciclovia, áreas de lazer e áreas esportivas, e um edifício para educação ambiental, além da recuperação vegetal do entorno, beneficiando diretamente 20 mil moradores do local e outros de bairros próximos, ao custo total de R$ 150 milhões.
 

A Seas informa ainda que oficiará a Polícia Civil e a Polícia Militar para intensificar as operações de segurança e coibir crimes ambientais."