Bando de Rogério Andrade queria montar base no exterior

A quadrilha do bicheiro Rogério Andrade, principal alvo da Operação Calígula, deflagrada na semana passada, tinha o plano de montar uma base operacional no exterior para driblar a lei brasileira, que não permite jogos de azar no país. O projeto foi descoberto pelo Ministério Público num e-mail escrito por Alexandre Cysne Esteves — que, segundo o MP, atuava “no desenvolvimento de estratégias e proteção aos segmentos de tecnologia da organização criminosa” — e enviado a outros integrantes do núcleo tecnológico. Na mensagem, Cysne escreve que “o 01 (Andrade) já possui uma licença fora do Brasil para atuar com os jogos” e, por isso, sugere “montar todos os projetos funcionando legalmente no país que ele tem autorização”. Segundo Cysne, “quando ele tiver isso, nunca mais vamos correr o risco de a Justiça achar que estamos fazendo algo ilegal”.

O e-mail, enviado em março de 2020, foi encontrado pelo MP nos arquivos armazenados na nuvem por Michelle Cysne Esteves, irmã de Alexandre Cysne e também apontada como integrante do núcleo tecnológico do banco.

O texto tem um tom de alerta: logo no início da mensagem, o autor afirma que está escrevendo para expôr sua opinião sobre os “riscos tecnológicos graves que o 01 precisa saber caso ocorra problemas externos com o projeto”. A mensagem não detalha quais seriam os “problemas externos”, mas alega que havia o risco da “paralisação total por um tempo mínimo de 30 dias” das atividades do grupo. “Hoje, não temos contingência para os sistemas”, alertou Cysne.

Em seguida, ele aponta, como sugestão, a montagem de uma base fora do país, mas deixa claro que “qualquer brasileiro vai poder jogar no site” ou baixando um aplicativo no celular e dá o exemplo de sites estrangeiros de apostas com jogos de cartas que podem ser acessados do Brasil.

‘Nunca mais contraventor’

Com o projeto, segundo o autor, Andrade “nunca mais vai ser contraventor de jogos”. “Juntando a necessidade dele com essa ideia do aplicativo, ele vai tirar onda de verdade”, escreve Cysne. Em fevereiro deste ano, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que legaliza os jogos de azar no Brasil — incluindo o jogo do bicho e máquinas caça-níquel. Atualmente, o PL tramita no Senado.

No fim do texto, o desenvolvedor ainda faz uma observação: “Tanto as contingências quanto montar toda essa estrutura fora do Brasil já são de conhecimento e necessidade do 01, conforme conversas anteriores, e ir contra isso seria dar um tiro no pé”. A mensagem é enviada para cinco destinatários — todos integrantes da mesma família, que trabalham no núcleo tecnológico da quadrilha.

Ao todo, nove integrantes do núcleo tecnológico foram denunciados à Justiça. Seis deles são da família de Alexandre: além dele, seu pai, seu tio, seus dois irmãos e seu cunhado são apontados como integrantes do grupo.

O MP descobriu que o site do pai de Alexandre, Ilton Esteves, que oferece cursos voltados para “liderança” e “desenvolvimento pessoal”, é, na verdade, uma fachada para a operação do sistema da quadrilha: páginas internas e não acessíveis ao público escondem links relacionados à exploração do jogo. Segundo o MP, Ilton “é pessoa intimamente ligada às atividades ilícitas, exercendo o papel de chefe de parte do setor tecnológico”.

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