Banqueiro de oposição é condenado a 14 anos pela ditadura da Belarus

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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - O mais popular político de oposição à ditadura da Belarus, Viktor Babariko, 57, foi condenado nesta terça (6) a 14 anos de prisão por corrupção. Segundo a entidade de direitos humanos Viasna, que acompanha os casos de presos políticos no país europeu, a decisão foi do Supremo Tribunal Federal, o que impede recursos.

Segundo Valiantsin Stefanovitch, membro da Viasna, houve "violações flagrantes dos princípios de um julgamento justo". "A essência desse caso é impedir Babariko de exercer o direito de governar seu país por meio da participação em eleições livres e democráticas realizadas regularmente", afirmou o ativista.

Quando foi preso pelo ditador Aleksandr Lukachenko, em junho do ano passado, Babariko já havia assegurado 435 mil assinaturas em apoio a sua candidatura a presidente, mais que o quádruplo do necessário. O patamar jamais havia sido alcançado por um opositor desde que Lukachenko assumiu o poder em 1994, na primeira eleição (e a única livre) pós-URSS.

Ex-presidente na Belarus do conselho do banco Belgazprombank, o milionário Babariko era conhecido em seu país por patrocinar entidades filantrópicas e instituições de apoio à cultura do país ---entre elas, uma galeria em que reuniu obras de alguns dos maiores artistas belarussos, como Mark Chagall, Faïbich-Schraga Zarfin e Chaim Soutine.

Foi Babariko quem comprou e trouxe para Belarus o quadro "Eva", de Soutine, única obra do artista belarusso no país. Arrematada por US$ 1,805 milhão (cerca de R$ 9,3 mi) num leilão da firma Christie's, em 2013, a tela era conhecida como "a pintura mais cara da Belarus".

Quando a ditadura confiscou as obras de arte do Belgazprombank, após a prisão de Barbariko, "Eva" virou um dos mais populares símbolos dos opositores de Lukachenko, estampando camisetas dos manifestantes que foram às ruas pedir sua renúncia ou aparecendo com o dedo médio em riste em contas de rede social.

Mesmo depois de preso, o ex-candidato manteve sua popularidade --pesquisas independentes são quase impossíveis na Belarus, mas um levantamento on-line feito em janeiro pela Chatham House o colocou na liderança do apoio popular, com 28,8% das citações.

A Promotoria havia pedido a pena de 15 anos em prisão de segurança máxima, a maior prevista para os crimes pelos quais Babariko foi julgado --aceitação de suborno em grande escala e lavagem de dinheiro. A Justiça mandou que a pena seja cumprida em prisão de segurança média.

Detido há mais de um ano, ele se recusou a depor e afirmou que as acusações são fantasiosas. Em seu último pronunciamento no tribunal antes da sentença, no final de junho, o ex-candidato reafirmou ser inocente, disse que não poderia confessar um crime que não cometeu apenas para reduzir sua pena e que tinha a consciência tranquila em relação a seus familiares e seus funcionários do Belgazprombank.

Babariko é uma das 534 pessoas atualmente encarceradas na Belarus por motivos políticos, segundo o monitoramento da Viasna. Outro ex-candidato de oposição muito popular, o blogueiro Serguei Tikhanovski, também está na cadeia desde antes das eleições de 2020.

Foi a ação da ditadura para impedir que Babariko e Tikhanovski concorressem que levou a então dona de casa Svetlana Tikhanovskaia, 38, a assumir a candidatura no lugar de seu marido e em nome de uma frente de oposição. Segundo analistas, Lukachenko permitiu que ela se lançasse porque não acreditava que uma mulher fosse capaz de atrair eleitores na Belarus.

A frente de oposição liderada por Tikhanovskaia, porém, levou dezenas de milhares de pessoas a comícios em todo o país e fez crescer a expectativa de uma mudança de poder na Belarus. O anúncio de que o ditador havia sido reeleito com 80% dos votos, na noite da eleição, em 9 de agosto de 2020, revoltou seus opositores e desencadeou uma onda de protestos por todo o país.

Desde então, a ditadura tenta sufocar seus críticos, enquanto opositores de Lukachenko procuram novas formas de suplantar o regime e angariam apoio internacional. No mais recente capítulo dessa luta, o ditador interceptou um voo comercial que ia da Grécia à Lituânia para prender um blogueiro de oposição, o jornalista Roman Protassevich.

O ato gerou forte condenação internacional e novas e mais pesadas sanções foram impostas ao regime belarusso pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela União Europeia. Lukachenko, porém, buscou apoio do presidente russo, Vladimir Putin, e contra-atacou facilitando a passagem por sua fronteira de imigrantes asiáticos em direção à Lituânia, que faz parte da UE.

Nos próximos dias, um novo julgamento deve levar aos bancos dos réus a chefe de campanha de Babariko, Maria Kalesnikava, 39.

Música, ela se recusou a deixar o país durante a repressão brutal imposta por Lukachenko após as eleições. Kalesnikava chegou a ser sequestrada em setembro do ano passado pela KGB (polícia secreta da ditadura). Ela conseguiu frustrar a tentativa de levá-la à força para a Ucrânia ao escapar pela janela do carro em que estava e rasgar seu passaporte.

Presa desde então, Kalesnikava e o advogado Maksim Znak, também do conselho de oposição, devem ser julgados por "apelar a ações destinadas a prejudicar a segurança nacional", "conspiração para tomar o poder do Estado de forma inconstitucional" e por "estabelecer e governar um grupo extremista". As penas são de até 12 anos de prisão.

No ano passado, Babariko e Kalesnikava anunciaram a formação de um novo partido, o Vmeste (juntos, em russo). A previsão era inscrever formalmente o partido em maio deste ano, mas a repressão política crescente por parte da ditadura frustrou os planos.

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