Bar da Portuguesa, que ficou famoso graças a Pixinguinha, vira Patrimônio Cultural Carioca

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RIO — “Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso e o muito que te quero...”. Clássico dos clássicos, “Carinhoso” é a obra mais famosa de um saudoso morador de Ramos que, no final dos anos 1960, tinha o hábito de ir todas as manhãs a um bar para beber cerveja preta e saborear uma porção de tremoços (cereal mantido em conserva para ser servido como petisco). Vizinho do tal estabelecimento, o compositor, músico e maestro Pixinguinha (1897-1973), completamente despido de vaidade, ia para lá vestindo pijama na companhia da mulher e do cachorro. A presença ilustre do mestre do chorinho no boteco chamou a atenção da TV Globo, que fez uma reportagem enaltecendo os hábitos simples de um dos maiores nomes da música nacional. Foi assim que o boteco inaugurado em 1968, batizado de Bar São Jorge e informalmente apelidado de Bar da Viúva, ganhou fama e, em seguida, outro nome: Bar da Portuguesa. A tradição de 53 anos de existência, a honra de ter acomodado em suas mesas Pixinguinha e o violinista Baden Powell (1937-2000), outro ícone da canção, e os encantos da cozinha portuguesa (com certeza!) renderam ao espaço comandado por Donzilia Gomes um lugar no Circuito dos Botequins do Patrimônio Cultural Carioca, concedido pela Secretaria municipal de Cultura do Rio.

Localizado na Rua Custódio Nunes 155, o Bar da Portuguesa foi fundado por Alfredo Gomes, falecido marido de Donzilia. Já no início do namoro, Dondon, como é carinhosamente chamada, começou a trabalhar no estabelecimento para ajudar o amado. Não demorou e os dois se casaram. Na sequência, vieram os três filhos do casal. Poucos anos depois, aconteceu a partida precoce do comerciante, o que obrigou a viúva portuguesa a assumir o comando do negócio com mãos de fada.

— Quando o meu marido morreu, fiquei numa pior, com três filhos para criar. A caçula tinha só 2 anos. Foi aí que comecei a inventar pratos para chamar mais fregueses e aumentar o faturamento. Na época em que o bar foi aberto, não tinha cardápio. Era só cachaça, linguiça frita e ovo cozido rosa. Fui para a cozinha porque precisava tirar dali o meu sustento e o dos meus três filhos. Eu demorei muito para pegar o jeito certo de fazer bolinho de bacalhau, mas deu certo e virou o nosso carro-chefe. Outros petiscos e pratos também fazem sucesso, como as empadas de bacalhau e camarão, a punheta de bacalhau, a fritada de bacalhau e a salada de bacalhau com grãos-de-bico. Eu me orgulho da minha história, que é de lutas e vitórias. Os meus filhos foram criados dentro do bar, então sofreram muito, porque eu não tinha como dar a atenção que eles mereciam. Mas só tenho a agradecer pelo reconhecimento do meu trabalho —— diz a mãe de Andrea, de 43 anos; Paulo, de 41; e Cristiane, de 38.

Quando olha para trás e lembra o tempo em que Pixinguinha era frequentador do seu bar, Dondon tem a exata noção do seu crescimento profissional:

— Na época em que Pixinguinha estava no meu bar todos os dias, eu ainda não cozinhava. Eu me lembro perfeitamente dele aqui, de pijama, bebendo cerveja. O Baden Powell também vinha, mas não com tanta frequência. Foi Pixinguinha quem fez o Bar da Portuguesa ficar conhecido. Até rodaram parte do filme “Saravah” aqui e deixaram para a gente a estátua dele que fica na frente do bar.

Se na parte externa do estabelecimento Pixinguinha reina absoluto, na porta de entrada é uma placa que sinaliza a importância do Bar da Portuguesa para o Rio.

— Nunca imaginei que o meu bar um dia fosse receber o título de Patrimônio Cultural Carioca. Jamais sonhei chegar tão longe. Toda essa alegria é fruto de muito esforço. Trabalho o dia inteiro na cozinha ao lado dos meus funcionários queridos com o mesmo prazer do início. O Bar da Portuguesa é o meu amor, a minha vida — derrete-se.

Foi aos 14 anos que Donzilia, de 67, natural de Sanradela, Portugal, chegou ao Brasil para trabalhar “em casa de família”. Quis o destino que conhecesse Alfredo e fosse dar expediente no bar, de onde não sai para quase nada.

— Eu só folgo às segundas-feiras e quase não passeio. Há seis anos não vou a Portugal visitar a minha família. A verdade é que o lugar onde me sinto em casa é no bar, que virou tudo para mim. Não vejo a hora de retomar as nossas festas portuguesas, que aconteciam aos domingos, e também o Samba do Compasso, que era aos sábados. Com o avanço da vacinação contra a Covid-19, acredito que, em breve, teremos essa alegria de volta no Bar da Portuguesa. Eu amo o que faço. Só saio daqui quando Deus me chamar — frisa.

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