De bar em bar, morador lista 75 pés-sujos que resistiram à pandemia em Copacabana

Copacabana chegou aos 130 anos esta semana e, de presente, ganhou um compêndio da mais genuína boemia do bairro. Radicado no Rio só há cinco anos, o volta-redondense Eduardo Freitas aproveitou a pandemia para fazer um inventário de botecos onde mora. Antes que alguém pergunte se há um ranking dos melhores, o autor da lista faz questão de dizer que não. Nesse circuito ébrio-etnográfico, estão apenas as pequenas preciosidades importantes para que um dos pedaços mais plurais da cidade continue lindo. Frequentador inveterado de pés-sujos, ele explica que decidiu fazer o levantamento informal porque temia que esses estabelecimentos simplesmente sumissem do mapa, sem deixar qualquer registro, durante o isolamento social.

— A ideia foi registrar cada botequim, um a um, a partir de dois princípios: dizer que existe é o que evita o desaparecimento, e apontar e listar cada um, ainda que muitos pensem que são todos iguais — justificou Freitas, mais conhecido como Preá.

A régua para o corte preciso veio mesmo do coração e das memórias, afetivas ou geográficas, de Preá. A seleção chegou a 75 botecos distribuídos pelas ruas do bairro aniversariante, com divisões pessoais do autor por ruas, quadrantes e nomes. Todos faziam parte do roteiro entre a casa e o trabalho dele ou mesmo do trajeto entre um bar e outro. Mas o que define um botequim?

— Quem define é quem pertence a ele. Uma galera da camada popular. É o cara que se sente bem, que vai comer uma comida de verdade, que ele paga o preço que vale, que pode tomar o conhaque dele “dichavadinho“ no meio do expediente rápido. Não tem nada a ver com o fetiche do cliente pegar a cerveja na geladeira, que o senhorzinho anota no papel — define Preá. — Precisa muita coisa para ser botequim, por isso é tão difícil fundar um. Você abre um bar, ele pode virar um botequim ou não. Não é qualquer demérito com os outros bares, são apenas coisas diferentes mesmo.

O resultado da ampla pesquisa regada a algumas boas garrafas de cerveja e alguns poucos petiscos foi publicado numa série de tuítes na rede social do autor. O método usado na pesquisa foi um só.

— A minha onda é andar e descobrir bar. Não olho no Google Maps, nada disso. Até por isso, a publicação não tem o endereço de nenhum deles. Quem quiser ir procura ou tromba com ele na rua — diz Preá, que é técnico em assuntos educacionais e tem 40 anos, lembrando uma das histórias durante sua pesquisa de campo. — Estava sentado quando uma frequentadora pegou meu copo de cerveja, deu dois goles e perguntou se estava tudo bem. Respondi: “Claro”. Ia falar o quê? Tem que saber chegar e saber sair.

Como tudo foi apurado a pé, Preá ensina que cruzar o bairro de ponta a ponta leva, numa caminhada tranquila, 43 minutos: são 3,5 quilômetros do balcão do Café e Bar Trindade, na Rua Joaquim Nabuco, até o Bar Princesa Isabel, na outra ponta. O quarteirão com mais botecos é o da Ronald de Carvalho com Viveiros de Castro, Duvivier e Barata Ribeiro. São seis no total. Não à toa, o lugar é conhecido como Rota do Pinguim porque as pessoas costumam andar como a ave depois de passar em cada um deles.

Bares tradicionais do bairro, como Reall Chope, Galeto Sat’s e Pavão Azul, por exemplo, não estão na lista por uma simples questão de definição do autor sobre o que é botequim. Na própria publicação, ele explica: “O butiquim que escolhemos aqui não é barzinho, nem bar, nem bistrô, nem restaurante. Esses têm sua serventia, mas o interesse aqui é outro”.

— Teve gente que reclamou que o Caranguejo não estava na lista. Eu adoro o rissole de lá, mas não é botequim. O Bip Bip é tudo, poderia ter uma lista só dele, mas não é um botequim — explica ele.

A escolha de Copacabana foi óbvia pelo CEP de onde mora o autor e o apelo de um dos bairros mais famosos do Rio. Isso ajudou a publicação a viralizar. Quando compartilhou a lista, Preá tinha 180 seguidores no Twitter e ontem já passava de 1.300. Em 36 horas, ganhou mais de mil seguidores no Instagram.

— Quando você fala de Copacabana, você fala para muita gente. É cosmopolita, tem apelo. Coelho Neto tem um monte de botequim incrível, mas tem muito menos gente que versa sobre o bairro — conta. — Tive que colocar um deadline para não procrastinar mais. A lista inicial foi feita em outubro de 2021. Então, decidi por 6 de julho, aniversário de Copacabana.

Ao contrário do que Preá temia, a pandemia não tirou a cultura do pé-sujo do mapa de Copacabana. Mas a lista poderia até ter 77 estabelecimentos, não fosse o fechamento do Lanches Sniff e do Bar Polar. O presidente do Sindicato dos Bares e Restaurantes (SindRio), Fernando Blower, diz que a pandemia foi um divisor de água para o setor. Segundo ele, sobreviveu quem conseguiu fazer uma boa gestão das casas, independentemente do tamanho:

— A situação ainda não está tranquila. Mas a tendência é a melhora dos negócios. Temos mais gente circulando nas ruas, e os turistas voltaram.

Há mais de 20 anos à frente do Boteco 44 K, na Rua Sá Ferreira, Cláudio Simplicio diz que foi salvo por sua clientela da crise agravada pela pandemia.

— São pessoas que se sentem bem com o ambiente e que param aqui nem que seja para tomar uma cerveja em pé — explica.

Na Rua Anita Garibaldi, o Café é Bar Garibaldi passou três meses fechado em 2020, pois o modelo de negócio não possibilitava implantar o sistema de delivery.

— Muito freguês fiel, que vinha só para tomar cerveja gelada, ainda não voltou. O movimento está fraco ainda. Tivemos que incluir coisas que não tínhamos no cardápio para tentar atrair mais gente — diz Paulo Lopes, sobrinho do proprietário.

Autor do guia “Rio Botequins” e de “Boteco Tradição e Cultura”, Guilherme Studart diz que a lista de Preá tem “botecos em estado puro”.

— O que caracteriza um boteco não é necessariamente o tamanho. Mas todos têm pontos em comum: se o dono não está à frente do boteco com a barriga no balcão, o negócio é tocado pelo filho ou alguém da família — defende Studart.

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