Barack Obama: só uma eleição não é capaz de interromper 'decadência da verdade' nos EUA

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Obama
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Os Estados Unidos enfrentam uma enorme tarefa de reverter uma cultura de "teorias da conspiração malucas" que exacerbaram a polarização no país, afirmou Barack Obama.

Em entrevista à BBC, o ex-presidente dos EUA disse que o país está mais divididos do que estava há quatro anos, quando Donald Trump conquistou a Presidência. E Obama indica que a vitória de Joe Biden nas eleições de 2020 nos EUA é apenas o começo da reparação dessas divisões.

"Será preciso mais que uma eleição para reverter essas tendências", diz ele.

Lidar com uma nação polarizada, ele argumenta, não pode se basear apenas nas decisões dos políticos, mas também requer mudanças estruturais e pessoas ouvindo umas às outras — concordando com um "conjunto comum de fatos" antes de discutir o que fazer a respeito.

No entanto, o ex-presidente diz que vê "grande esperança" nas atitudes "sofisticadas" da próxima geração, estimulando os jovens a "cultivar aquele otimismo cauteloso de que o mundo pode mudar" e "fazer parte dessa mudança".

Como a divisão foi alimentada na América?

Raiva e ressentimento entre os EUA rural e urbano, imigração, injustiças como desigualdade e "os tipos de teorias da conspiração malucas — o que alguns chamam de decadência da verdade" foram amplificados por alguns meios de comunicação dos EUA e "turbinados pela rede social", disse Obama ao historiador David Olusoga, em entrevista à BBC Arts para promover seu novo livro de memórias.

"Estamos muito divididos agora, certamente mais do que quando me candidatei pela primeira vez, em 2007, e ganhei a Presidência, em 2008", disse o ex-presidente.

Ele indica que isso é, em parte, atribuível ao desejo de Trump pela divisão "porque era boa para a política dele".

Outra coisa que tem contribuído enormemente para a questão, diz Obama, é a disseminação de desinformação online, onde "os fatos não importam".

"Há milhões de pessoas que concordam com a ideia de que Joe Biden é um socialista, que concordam com a ideia de que Hillary Clinton fazia parte de uma conspiração do mal que estava envolvida em redes de pedófilos", diz ele.

O exemplo que Obama usa aqui com Clinton está relacionado a uma teoria falsa que alega que políticos democratas estavam administrando uma rede de pedofilia em uma pizzaria em Washington.

"Acho que em algum momento será necessária uma combinação de regulamentação e padrões dentro das indústrias para nos levar de volta ao ponto em que pelo menos reconhecemos um conjunto comum de fatos antes de começarmos a discutir o que devemos fazer em relação a esses fatos."

Barack Obama e Joe Biden
Obama disse que Joe Biden (que ele cumprimenta com o cotovelo nesta foto) tem 'todas as qualidades de que precisamos em um presidente agora'

Obama diz que, embora muitos meios de comunicação convencionais tenham adotado o fact-checking (verificação de fatos) nos últimos anos em um esforço para combater a disseminação de desinformação online, muitas vezes não é suficiente porque "informações falsas já haviam circulado o mundo quando a verdade saiu do portões".

Ele diz que a divisão também é resultado de fatores socioeconômicos, como o aumento da desigualdade e das disparidades entre os EUA rural e urbano.

Essas questões, acrescenta, têm "paralelos no Reino Unido e em todo o mundo" com "as pessoas se sentindo como se estivessem perdendo o controle da escada do avanço econômico". Assim, ele diz, elas "reagem e podem ser persuadidas de que a culpa é deste ou daquele grupo".

O problema da desinformação é que ela é popular

Por Marianna Spring, repórter especialista em desinformação

Teorias de conspiração virais são uma característica básica da eleição deste ano nos EUA — e uma escola de pensamento mais convencional durante o governo Trump.

Isso porque a desinformação online com conotações conspiratórias não está mais limitada aos cantos obscuros da Internet. É promovida por figuras proeminentes, com muitos seguidores — como líderes ​​em todo o mundo, inclusive na Casa Branca.

O mundo polarizado da internet — onde tudo é uma questão de opinião e não de fato, e onde nós escolhemos nossa tribo — criou um terreno fértil para conspirações e desinformação. Um número crescente de pessoas que usam redes sociais para fazer suas próprias pesquisas chega a conclusões enganosas — que podem ser exacerbadas pela cobertura unilateral de histórias pela mídia partidária.

Como Barack Obama aponta, essas informações falsas ou alegações enganosas — especialmente quando ampliadas pela mídia ou por figuras públicas — provam ser muito mais populares do que qualquer desmascaramento. A solução pode não residir apenas em apresentar os fatos — por mais importante que isso seja. É também sobre como entender por que as pessoas recorrem a conspirações online e como foram expostas a elas repetidamente.

Converso frequentemente com vítimas de teorias de conspiração online sobre os danos que elas causam e as divisões que causam. Isso revela como esse dano é difícil e complexo de desfazer.

Black Lives Matter e raça

Obama, que fez história como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, diz que a questão racial tem sido "uma das principais falhas na história americana — nosso pecado original".

Os eventos que se desenrolaram neste ano, incluindo a morte de George Floyd — um homem negro que morreu sob custódia policial — e a resposta à sua morte de comunidades não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, criaram momentos de desespero e otimismo, ele diz.

Pessoas se reúnem no local onde Floyd foi morto
A morte de George Floyd gerou uma onda de protestos no mundo todo

"Desespero porque o papel persistente e crônico de raça e preconceito em nosso sistema de justiça criminal continua de uma forma muito flagrante... enorme otimismo porque você viu uma onda de ativismo de protesto e interesse que excedeu em muito tudo o que tínhamos visto anteriormente — e foi pacífico."

Foi importante que os protestos foram multirraciais, diz ele, acrescentando que a resposta foi diferente daquela do assassinato em 2012 de Trayvon Martin, um adolescente desarmado que foi morto a tiros pelo voluntário de vigilância George Zimmerman.

Zimmerman foi posteriormente inocentado do assassinato do jovem de 17 anos.

Obama também menciona o tiroteio fatal em 2014 do homem negro desarmado Michael Brown, de 18 anos, que foi baleado seis vezes por um policial branco em Ferguson, Missouri.

Ele diz que embora esses incidentes inflamaram paixões em toda a América, provocando o debate sobre raça e justiça, ainda parecia haver "resistência entre grandes porções da comunidade branca para resistir à noção de que isso foi mais do que apenas um incidente ou um caso de maçãs podres".

"O que você viu neste verão foram algumas comunidades que tinham uma população negra muito pequena, gente indo lá e dizendo que a vida negra é importante e abraçando a noção de que uma mudança real está por vir."

Obama deu a entrevista às vésperas do lançamento de seu novo livro de memórias, Uma terra prometida, que mapeia sua ascensão ao Senado dos Estados Unidos e seu primeiro mandato como presidente. É o primeiro de dois livros sobre sua passagem pela Casa Branca. O lançamento está previsto para 17 de novembro.

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