De Barcelona, Jean Wyllys fala sobre os 2 anos fora do país, de amor e dos desenhos que cria: ‘A beleza serve para desarmar’

Carol Marques
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Era no quintal de terra batida, de uma casa simples em Alagoinhas, interior da Bahia, que o então garoto Jean Wyllys começava a esboçar algo que lá no futuro faria todo sentido. Ele pegava gravetos e desenhava no chão. Levava jeito. Se transportava para um mundo longe dali, o que significava sonhar com um destino melhor. Para ele e sua família. Ao dizer para a mãe Inalva, lavadeira e responsável pelo sustento de muitas bocas, que queria ser desenhista ou algo do tipo, o pragmatismo falou mais alto. Ali não havia lugar para devaneios criativos. Tinha que ter trabalho duro.

Jean trabalhou. Estudou tanto, que passou para a universidade pública, o primeiro dos seus. Jornalista, escritor, pesquisador e em breve doutor, por muito tempo ele guardou o dom da infância na gaveta das memórias. Até voltar a desenhar. Justamente no exílio, a que foi forçado há dois anos, após inúmeras ameaças de morte, ele volta a “brincar”.

“Digo que minha pintura tem a estética da precariedade. Até no material, que não é nada extraordinário. Uso papel, lápis, aquarela, carvão, colagens sobre material reciclado... Não tenho a menor pretensão de ser um artista plástico. Mas dialogar através da pintura. A beleza serve para desarmar”, observa, antes de fazer uma reflexão: “Acho que, sim, o desenho me devolveu a sensação de pertencimento. Foi onde reencontrei sentimentos adormecidos, intocados. Uma maneira de me conectar com o que tive que deixar para trás”.

Desde janeiro de 2019 longe do Brasil, Jean já viveu na Alemanha, nos Estados Unidos (onde lecionou em Harvard) e está agora na Espanha, morando em Barcelona. Jean cumpre mais uma etapa de seu doutorado sobre “a articulação das fake news com discursos de ódio e os impactos desses discursos nos processos eleitorais e modo de vida das minorias”. As contas são pagas com seu trabalho como professor, conferencista e pesquisador, além de ser bolsista da Open Society Foundation, de George Soros. O tempo que sobra é destinado aos desenhos.

“Fui e sou vítima da glamourização do ódio. O autoritarismo é muito sedutor. Minhas redes sociais sempre foram atacadas. Mas com a pintura percebi algo diferente. Ali está uma crítica, são coisas que penso traduzidas em forma de arte, mas com legendas contundentes e uma forma. Já teve detrator meu que comentou ‘até que para isso serve’. Ou seja, meu intento de dialogar, nem que seja de pouco a pouco, pode funcionar”, observa.

Jean nem sempre foi odiado, ameaçado e agredido. Há 16 anos, ele foi parar nos braços do povo, que deu a um professor, homossexual e nordestino o prêmio do “BBB 5”. “As pessoas acham que eu tenho vergonha ou algum problema com o programa. Nunca tive. O ‘Big Brother’ me proporcionou muitas coisas. Me deu voz. Mas eu nunca quis ser uma celebridade. Não me interessa ser um rosto. Eu entrei pela experiência, pela pesquisa, pela desconstrução”, justifica.

Da casa mais vigiada do Brasil, um dos slogans do reality, Jean foi parar em outra casa ao ser eleito deputado federal pela primeira vez, em 2010. Cinco anos depois de ter vencido o “BBB”, ele estava de volta aos olhos do povo, que já não o amava tanto assim. Nem vigiava seus representantes. O que veio depois faz parte da história de Jean e do que ele narra em suas palestras sobre a história do país.

Longe de tudo e de todos, não é arriscado dizer que ele sofre intimamente com a solidão. “É inegável a falta que me fazem a família, os amigos, a minha terra. Vou resignificando esse sentimento quando falo com as pessoas nas chamadas de vídeo, telefone, quando escrevo e ouço música brasileira”, enumera ele, que pouco antes de dar essa entrevista por telefone estava com uma panela no fogo, mantendo a tradição de cozinhar.

Discreto, Jean prefere não comentar como vive na terra de Gaudí. O medo ainda é uma realidade. A mágoa e o rancor já nem tanto. Nem a tristeza latente. Aos poucos, desenha de novo o futuro como se estivesse no antigo quintal. Não sonha com amores ou grandes arroubos de paixão, e deixa para o tempo embrulhar o destino. “Meus amores e afetos estão nos amigos que se tornaram uma família e deles recebo muito. Não espero um grande amor. Até isso está sendo repensado, de forma mais livre, longe dos moldes tradicionais de relacionamento. Talvez, lá na frente, eu venha a ter uma relação aberta. Mas, acredite, sou bem tímido e autocrítico. Então, muita coisa passa por aí também”.