Barceloneses e madrilenses se dizem igualmente fartos da crise catalã

Por Marie GIFFARD, con Riwan MARHIC en Madrid
Jornalistas na parte externa da sede da Generalitat, em Barcelona no dia 19 de outubro de 2017

Cansados, saturados e ansiosos. Muitos barceloneses, separatistas ou não, e também muitos madrilenses manifestavam nesta quinta-feira (19) o seu cansaço diante da saga em que se transformou a crise entre os independentistas catalães e o governo central.

O Executivo de Mariano Rajoy anunciou nesta quinta-feira que prosseguirá no processo de suspensão do autogoverno catalão, após receber uma carta do presidente regional, Carles Puigdemont, que ameaçou declarar unilateralmente a independência se não aceitarem a sua oferta de diálogo e continuarem a repressão.

"Estou saturado de toda essa história. Todos os dias é 'um prazo importante, uma data muito importante'", contou à AFP Albert Puig, um analista de sistemas barcelonês de 35 anos, referindo-se ao prazo até esta quinta-feira que o governo central deu a Puigdemont para voltar "à ordem constitucional".

Albert Puig fuma um cigarro na entrada da empresa onde trabalha, debaixo da chuva predominante em Barcelona depois de dias de verão. "Eu me informo, mas não vejo que (a situação) tenha avançado muito", diz com desânimo.

Nos últimos dias, a evolução dos acontecimentos foi vertiginosa.

O governo de Rajoy colocou sobre a mesa o Artigo 155 da Constituição, dois importantes líderes separatistas foram presos, os independentistas assinaram uma declaração unilateral de independência, mas que teve seus efeitos suspensos pelo principal signatário, Carles Puigdemont. Um turbilhão que tem desorientado Albert, reduzido ao papel de "espectador do que pode acontecer".

Ele diz que simpatizava com os separatistas, embora agora não tanto. "Se tivesse me perguntado há um mês, estaria entusiasmado, agora já não é tão claro".

Ariadna Galán também parece desanimada. Esta estudante de 22 anos, que distribui panfletos em frente a uma loja do FC Barcelona, se diz "desiludida" e "estressada".

"Vemos a televisão todos os dias e há muita insegurança. Estamos na expectativa", assegura.

Ariadna é separatista, embora insista em seu "respeito aos espanhóis". Diz que tem a impressão de viver "em uma ditadura outra vez, com pessoas presas porque são organizadoras de manifestações pacíficas", referindo-se aos líderes Jordi Cuixart e Jordi Sánchez, que na segunda-feira foram presos acusados de sedição.

Tudo a separa ideologicamente de Mari Carmen Fernández, uma ex-professora de 71 anos muito crítica ao governo separatista catalão. Mas ambas concordam que este panorama de confronto político as deixa tristes.

"Somos catalãs, como eles (os separatistas)". "Falam e falam de diálogo, mas a palavra é convivência. Eu quero a igualdade de todos os catalães e a convivência, enquanto eles querem impor a sua vontade", lamenta.

A 600 quilômetros dali, a angústia também se sente em Madri.

"Precisamos de mais diálogo e não de repressão. O Artigo 155 (que permitiria a Madri intervir no autogoverno catalão) não me parece uma solução", declara Lola Méndez, professora de Espanhol na capital.

Segundo ela, a solução passa por uma reforma da Constituição, aprovada em 1978. Em uma livraria do centro da capital, Alfons Fernández, de 67 anos, opina que, ao contrário, o que falta é firmeza.

"Se alguém quer dialogar, mas não respeita a lei, não se pode dialogar", assinala.

Cecilia Molano, uma designer gráfica que viveu em Mallorca, onde o catalão é a língua co-oficial, critica que tanto o governo espanhol quanto o de Barcelona "ativaram um sentimento nacionalista" de ambos os lados, o que desperta nela um medo real.