Bares abertos e bode no zoológico: como uma cidade alemã se prepara para a volta de um domingo de futebol

Estéfane Padilha, especial para O GLOBO
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Entrada do RheinEnergieStadion, em Colônia

COLÔNIA — De volta após 66 dias, o campeonato alemão foi a primeira entre as grandes competições a retornar em meio à pandemia do coronavírus, com seis jogos disputados neste sábado. Todos forma com portões fechados, sem maiores incidentes, ao menos os vistos a olho nu, após a aplicação de um rígido protocolo sanitário nos treinamentos e um minucioso plano de ação nas partidas. O esperado “novo normal” do futebol – com jogadores sem poder se abraçarem na comemoração, gandulas passando álcool em gel nas bolas e cuspes proibidos no gramado não por uma questão de etiqueta – segue no domingo com mais duas partidas. Uma delas em Colônia, onde o time que leva o nome da cidade, o FC Koln – enfrenta o Mainz, às 10h30.

Respirar o futebol – mesmo que ainda com uso de máscara obrigatória em locais fechados – ao invés dos ares nebulosos da pandemia é algo importante para Colônia, uma cidade que gosta um pouco mais do esporte do que a média alemã. Os 36 mil casos de doença na região, segundo maior número do país, atrás apenas da Baviera, foram vividos com uma apreensão que não foi embora com a notícia de que o futebol iria voltar – quando a DFL (que organiza a Bundesliga) testou 1700 pessoas nos 36 clubes das duas principais divisões, 10 resultados foram positivos: três no time do Colônia.

O número foi considerado baixo e não impediu a autorização do governo alemão para a volta do futebol após mais de um mês do pico da Covid-19 no país. Tampouco, porém, evitou a preocupação da torcida, que mesmo sem estar presente, se preocupa com a saúde dos jogadores que colocaram o time até aqui na 10ª colocação da tabela, não muito longe de uma vaga na Europa League, nem tão distante da zona de rebaixamento.

— Por um lado, os jogadores precisam voltar a trabalhar como todos. Mas como isso deve funcionar? Essas mudanças feitas... — desconfia Julia Kramer, torcedora do Colônia. — O FC é uma equipe em que os torcedores precisam carregar o time nas costas e será realmente difícil sem público. Se não houvesse essa pausa, acho que poderíamos ir mais longe.

Outra ausência será a do clássico mascote Hennes XIII, um bode de verdade presente em todos os jogos da equipe desde 1950. Hennes, oitava geração do primeiro mascote, não poderá sair do zoológico da cidade e ir ao estádio devido ao protocolo que só permite 322 pessoas no estádio por partida – e nenhum animal. Os jogadores, porém, não estão completamente sozinhos. Uma ação foi feita e um setor da arquibancada do Estádio RheinEnergie será preenchido com objetos pessoais de diversos fãs, para dar sorte e incentivar o Colônia. Entre os mil itens já enviados, muitas camisas e algumas peculiaridades, como almofadas repletas de broches.

Modelo a ser seguido?

A volta da Bundesliga com tantas regras sanitárias tem, claro, motivação econômica, e foi alvo de críticas. Há, porém, uma outra perspectiva a ser analisada, como explica Christoph Bertling, jornalista e professor na Universidade Alemã de Esporte (DSHS):

— Se você joga, pode transmitir os jogos, mesmo sem público nos estádios. Isso significa que os parceiros de mídia e publicidade da Bundesliga devem pagar suas contas. Se você cancela, os contratos podem ser interrompidos. Não se deve esquecer que alguns clubes estão no abismo financeiro e os direitos da transmissão representam a maior parte das rendas.

O desafio é seguir com as nove rodadas sob o risco de novas contaminações e a DFL estuda alternativas para o caso de o campeonato ser interrompido novamente. Até a última quinta-feira, contudo, os clubes que disputam a primeira e a segunda divisão não chegaram a um consenso, principalmente no que diz respeito a rebaixamento e acesso. Para Bertling, o andamento dos jogos pode ir além do futebol e ser um exemplo para a retomada após a pandemia.

— A grande questão é se isso pode ser mantido. As regras de higiene devem ser seguidas quase servilmente. Não é o gandula, mas os próprios jogadores que precisam pegar a bola. Mídia, refeições... tudo deve trabalhar sob condições estritaa. A DFL se vê como um motor para a economia alemã. Se tudo correr bem, o know-how pode ser repassado para outras empresas — explica Bertling.

Mas pelo menos em Colônia, o alinhamento entre a Bundesliga e outros setores já está forte. Desde segunda-feira o governo do estado liberou a reabertura de bares e restaurantes, antes limitados a serviços de delivery ou take away. Gerente de um estabelecimento em Colônia, Sarra Khamassi comemora a reabertura e procura daqueles que já não temem sair. Ao mesmo tempo, foram estabelecidas novas regras:

— Essa volta foi perfeita, já temos reservas e vamos passar todas as partidas, mas estamos funcionando com 50% do número de mesas e não vamos fazer nenhuma programação especial porque não queremos que muita gente venha e se junte.

A procura por mesas – os bares só receberão pessoas com reservas — mostra que a cidade de pouco mais de 1 milhão de habitantes parece estar superando o medo pelos mais de 2.400 casos de coronavírus. Parques também estão voltando a receber mais pessoas e, algo peculiar para o jogo de hoje: o estádio é cercado por um enorme área verde, com parte da floresta da cidade. A sugestão das autoridades é, contudo, que ninguém apareça na hora do jogo, como informou a assessoria da polícia local:

— Teremos uma quantidade suficiente de profissionais. Caso grupos se reúnam, agiremos para que sejam retirados do entorno. Desde já, a nossa recomendação é: fiquem em casa. Os restaurantes podem ser frequentados, mas há um número limite.

Com ponderações e incertezas, a Bundesliga e a Alemanha tentam voltar ao normal. Na cidade, um fato que não pode ser ignorado é que as bandeiras do Colônia nunca saíram das varandas de alguns apartamentos e das portas de bares, mesmo durante os períodos mais duros da pandemia e do isolamento social e enorme pausa do futebol. Como se nada tivesse sido afetado, os fãs pareciam estar só esperando pela próxima rodada. E entre críticas e elogios, a verdade é que muitos exibem novamente suas camisas e bonés do time, e poucos querem perder a estreia do clube — assim como a torcedora Cremer:

— Mesmo com menos restrições, continuarei em casa a maior parte do tempo. Vou assistir ao jogo no sofá. Provavelmente, estarei com uma cerveja gelada, a camisa do time na frente da TV e com os dedos cruzados pelos meninos!