Bares que fazem sucesso no Rio abrem filiais em São Paulo

Ir de São Paulo para o Rio está mais rápido. Se nos anos 1980 os paulistanos invadiram as praias cariocas, agora o movimento é outro. O jeitinho de “botecar”, com bares emblemáticos e de tradição na capital fluminense, embarcou na ponte aérea.

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O primeiro a fincar a caldereta em São Paulo foi o Belmonte, em julho de 2021, com um bar de três ambientes na Vila Mariana. O motivo? Antônio Rodrigues, o homem à frente do negócio, que já tem 17 casas no Rio e três em Portugal, achou que era hora de expandir ainda mais a rede.

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— Decidi botar o pé em um novo lugar para ver como era o comportamento das pessoas em outro estado. E é diferente. O carioca é mais despojado, o paulistano é mais formal. Até os que frequentam o Belmonte no Rio, quando estão em São Paulo, ficam diferentes — diz Antônio. — Quando está por aqui, o paulistano se espalha. Lá é diferente, eles se vestem de outro jeito para ir ao bar.

Do cardápio, o que faz sucesso aqui também brilha por lá: generosas empadas abertas de camarão, carne seca ou frango com catupiry, capivodcas de frutas variadas em copos longos e o PF, com direito a feijão preto (lá, o de praxe é o carioquinha) e arroz de brócolis.

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— De verdade? Acho que os bares do São Paulo, em regra, não têm bons petiscos. É sempre aquela coisa com pão, carne, pão — provoca a recifense radicada em São Paulo há um ano Camila Maciel.

Homenagem a outros bares

Nesse pouco tempo em que abriu a casa lá, Antônio Rodrigues também reparou que a noite de São Paulo tem dias certos para acontecer.

— Lá é de quarta em diante, eles não gostam de beber no começo de semana. Não são profissionais como os cariocas — brinca Antônio, contando outra prática que só existe em terras paulistanas. — Eles fazem muita reserva. Aqui a gente não tem o hábito. O carioca sai com 40 pessoas para um aniversário, com caixinha de doce, bolo e balão. Se tiver mesa, bem. Se não tiver, ele se vira de qualquer jeito.

Em abril deste ano, foi a vez de Kadu Tomé ir de mala, chope e bolinhos para São Paulo, onde abriu a primeira filial do Bracarense, premiado bar sessentão do Leblon, no Itaim Bibi. O lugar é quase três vezes maior do que o irmão carioca, com capacidade para 120 pessoas.

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— O Bracarense é no lugar mais legal do Rio: é caminho da praia e da Lagoa, mas não é numa rua principal. Achar que faria outro igual poderia estragar tudo — explica Kadu, dizendo que ir para outro estado apenas como Braca deu mais liberdade à concepção do bar. — Levei os carros-chefes do Rio e pude homenagear alguns bares cariocas, com o bolinho de bacalhau à la Dondon de Ramos, do Bar da Portuguesa, e com o bolinho de feijoada à lá Katita, do Aconchego Carioca (que já teve filial por lá também).

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Mas o jeitinho carioca de “botecar” foi consagrado mesmo na parte etílica.

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— Os chopes do Rio e de São Paulo são diferentes. Lá eles prezam pela cremosidade. Para a gente, a temperatura é a maior preocupação. Então fizemos o seguinte: tiramos o mesmo chope do Rio, mas damos um acabamento final — conta Kadu, que só não abriu mão de uma coisa: — Ninguém pede garotinho. Meu sócio não queria botar no cardápio porque só a gente bebe garotinho. Falei que era por isso mesmo que tinha que ter. Se a gente bebe, tem que ter.

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Por outro lado, Kadu teve que se render a alguns hábitos locais para não fazer desfeita à clientela e incluiu, entre outros, o bolinho de carne, a coxinha e a feijoada de frutos do mar. Mas de que os clientes sentem falta?

— Falta, apenas do calor do Rio, mas mesmo assim ganha dos outros bares da região. É mais arrumadinho e tem um atendimento mais humano e divertido — garante um cliente do bar.

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Chope perfeito

Empreendedor nato, o chef Pedro de Artagão toca oito bares e restaurantes no Rio e está prestes a inaugurar mais um, uma pizzaria. Há menos de um mês abriu sua primeira casa em São Paulo, também no Itaim Bibi. O escolhido para representar o Grupo Irajá foi o Boteco Rainha, sucesso inquestionável desde que abriu as portas no Leblon, em 2020. Para realçar o DDD 21 original do bar, figuras-chave do Rio, como o gerente Chiquinho, agora ficam com um pé lá e outro cá.

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— O Rio criou essa forma de fazer botecagem. Existem botequins no país inteiro, mas a nossa forma é diferente. Está muito atrelada a um estilo de vida, a um pós-praia, um pós-trabalho despretensioso. E é isso que a gente quer levar — diz Pedro, falando sobre a escolha do lugar do bar. — O bairro tem a mesma vibração do Leblon, por isso escolhemos o ponto. Mas o Rainha é um bar brasileiro que poderia estar em qualquer lugar.

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Formado em chope bem tirado pelo Bracarense e pós-graduado no Adônis, em Benfica, como ele mesmo diz, Pedro acredita ter encontrado a fórmula do que, para ele, é o chope perfeito:

— Nosso chope sempre saiu na pressão, com dois, três dedos de colarinho, a não ser que o cliente peça sem, o que é um equívoco. E a gente tenta servir o mais gelado possível, desde que não congele a serpentina. Então, a gente tem a pressão do chope de São Paulo com o nível de gelo do Rio.

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Diferenças à parte, todos estão curtindo o desafio. Antônio Rodrigues, aliás, vai abrir uma segunda filial do Belmonte na Vila Olímpia, no segundo semestre. Artagão, que chegou com o Rainha, também não descarta a ida de outros novos negócios para lá. Se a maré não virar, outro botequim de renome, com 70 anos de tradição e bacalhau, o Velho Adônis, deve se juntar ao grupo em algum momento.

— É uma possibilidade muito forte, mas ainda é namoro — tenta despistar o dono, João Paulo Campos, entregando o jogo em seguida. — Só falta achar o ponto.

* Estagiária sob a supervisão de Maurício Xavier

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