Nota de Barra Torres amplia lista de desafetos militares de Bolsonaro

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Brazil's President Jair Bolsonaro talks with Antonio Barra Torres, President of the National Health Surveillance Agency, during a graduation ceremony for The Order of Rio Branco at the Itamaraty Palace in Brasilia, Brazil October 22, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro com o diretor-presidente da Anvisa, o contra almirante Antonio Barra Torre. Foto: Adriano Machado/Reuters

No grupo de amigos jornalistas no WhastApp, o print da carta-resposta a Jair Bolsonaro assinada pelo médico e contra-almirante Antonio Barra Torres, diretor presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), foi compartilhada em tom de desconfiança. “É verdade esse ‘bilete’?”, perguntou um dos integrantes, fazendo referência ao meme em que uma criança forja a mensagem da professora para a mãe e atesta a veracidade do comunicado de modo, digamos, pouco convencional.

A desconfiança é um dos muitos sintomas da degradação institucional em curso.

Órgão responsável por promover a proteção da saúde da população, a Anvisa se tornou alvo de uma ofensiva ideológica que coloca em dúvida decisões técnicas relacionadas a temas-chave como a aprovação de vacinas. As bicas na credibilidade da instituição têm sido patrocinadas pelo próprio presidente da República, que em entrevista na semana passada perguntou o que estava por trás e qual era o “interesse” da agência e das pessoas “taradas por vacina” em querer imunizar crianças de 5 a 11 anos.

Antes disso, ombreado pelos sabujos de sempre, o governo iniciou uma sórdida campanha para expor à turba formada por ignorantes e negacionistas de toda ordem os nomes dos técnicos responsáveis por autorizar a imunização dos jovens no país, contrariando a vontade do presidente –em campanha contra a vacina antes mesmo da primeira oferta do primeiro fabricante.

A nota do contra-almirante, indicado ao cargo por Bolsonaro em 2020, expôs uma metralhadora cheia de mágoas contra o capitão, de quem se dizia amigo até pouco tempo. É também uma aula de personalismo incrustrado num órgão técnico, o que evidencia o abalo institucional promovido pela turma. Daí a dúvida sobre se a carta-resposta era real ou não. Era.

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Irritado com a declaração de Bolsonaro, Barra Torres levou para o levou pessoal e praticamente intimou o presidente a provar o que dizia. “Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa, aliás sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa”, instigou.

À maneira do ex-aliado, Torres tomou o Santo Nome em vão para pedir que o presidente “exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate”.

Até agora, nada.

Ao peitar o presidente em nota aberta, o contra-almirante jogou mais combustível no processo de desmoralização do capitão. Na nota, ele fez questão de dizer que atuou como oficial general da Marinha por 32 anos, como se fizesse questão de lembrar que o presidente deixou as Forças Armadas pelas portas dos fundos –o que ocorreu após responder a um processo de indisciplina sob risco de expulsão.

O tom da fala coloca Barra Torres em uma prateleira de desafetos militares do presidente em companhia de nomes como o ex-ministro e general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, o ex-chefe de assuntos estratégicos Maynard Santa Rosa, o ex-porta voz Rêgo Barros e o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva, demitido por recusar o alinhamento automático às ideias golpistas do chefe. A lista é maior e o viés é de alta.

A nota é publicada no momento em que Bolsonaro enfrenta outro princípio de desgaste. Ele mal disfarça o desconforto com a recomendação do Exército para a vacinação de militares.

Apesar do que diz o senso comum, Bolsonaro não é unanimidade entre militares, apesar de ter nos quartéis uma base de apoio considerável. Para muitos ele é apenas tolerado. Uma espécie de mal necessário. Para outros, um cavalo de Tróia para retomar o protagonismo de outros tempos na gestão pública.

A série de patadas em quem entrou no barco como aliado e saiu como desafeto agora se volta ao capitão. A diferença é que, com Barra Torres, o mandato é fixo, garantido até 2024, e Bolsonaro nada pode fazer a não ser engolir a bronca ou espernear.

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