Bastidores de disco de Beth Carvalho são revelados em livro, que explica como a cantora se tornou a madrinha do samba

Quem é madrinha nunca perde a majestade! Este ditado até poderia estar com uma palavra errada, se não se referisse a uma certa Elizabeth. Beth Carvalho reinou como madrinha do samba por quase toda a sua carreira. Mas essa característica teve um início tão importante para ela quanto para a história do gênero musical. O álbum “De pé no chão”, de 1978, não só orientou uma nova forma de tocar, como marcou suas primeiras andanças pelo bloco Cacique de Ramos, de onde saíram vários de seus “afilhados”. Para dar conta dessa importância, o livro “Beth Carvalho: De pé no chão” (R$ 42,40), parte da coleção “O livro do disco”, da editora Cobogó, é lançado neste mês, escrito pelo jornalista e pesquisador Leonardo Bruno.

— É este disco que abre para ela o caminho de ser a madrinha do samba. A partir dali, ela toma isso como missão e vê que é o que quer fazer da carreira. Cai a ficha de que é por onde quer seguir até o fim — explica o autor, que no ano passado também publicou “Canto de rainhas”, que aborda a história de Beth, Alcione, Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Elza Soares.

A turma que Beth “descobre” ali participa do álbum, tocando em faixas e também colaborando com composições. Pouco depois, parte deles daria origem ao grupo Fundo de Quintal. E do Cacique ela lançou nomes como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila, entre outros. Na altura em que aquele disco era produzido, desde que o samba era samba, ele era tocado de uma maneira. No livro, Leonardo explica o que este álbum representou de mudança para o samba, em sua sonoridade.

— Até 1978, o samba tinha um forma de ser tocada ainda muito próxima dos anos 20: um som muito baseado no tamborim, cavaco e pandeiro. Instrumentos que estavam no samba desde o seu começo. A partir do “De pé no chão”, o samba ganha a sonoridade de outros três: repique de mão, tantã e banjo. Lança essa turma do Cacique. Esses caras estavam tocando desse jeito, e só eles tocavam assim. Com o disco, esse som vira o padrão das rodas — analisa Leonardo.

Mas o livro não aborda apenas os aspectos técnicos, entrando também em detalhes da escolha do repertório, nos bastidores das gravações e no movimento do “pagode carioca” inaugurado ali.

— “Vou festejar” (primeira faixa do álbum) ia ser lançada pela Elza Soares. Mas ela faz um arranjo de piano e bateria. Quando os compositores ouvem, eles dizem: “Não é nada disso, está tudo errado, virou outra música”. Depois, a Beth grava da forma deles. Porque ela ia nos lugares, e a Elza nunca tinha ido ao Cacique — adianta o autor sobre uma das histórias do livro.

O álbum ainda tem faixas como “Goiabada cascão” e “Agoniza mas não morre”. O sucesso da gravação desta última fez com que o compositor Nelson Sargento, que já tinha seu reconhecimento na música, fosse convidado para gravar o seu primeiro disco solo. Leonardo costuma dizer que este álbum é tão importante para o samba quanto “Chega de saudade” é para a bossa nova, e lembra de como Beth sabia disso:

— Ela tinha um orgulho dele... Um dos últimos shows da Beth, aquele em que ela canta deitada, por conta das dores, foi para celebrar os 40 anos deste disco, em 2018. Foi a última grande aparição dela.

História que também enche as telonas

Além do livro, que terá evento de lançamento no dia 26 de novembro, às 13h, na livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor 37, Centro), o autor Leonardo Bruno assina, com o diretor Pedro Bronz, o roteiro do documentário “Andança – Os encontros e as memórias de Beth Carvalho”.

— A Beth guardava tudo. Tinham 800 fitas VHS. E 400 k7. Não conseguimos ver tudo. É um documentário todo feito com essas fitas, não tem uma entrevista — conta ele sobre o filme que esteve no Festival do Rio e estreia oficialmente nos cinemas em 2023.

O documentário mostra cenas de como Beth escolhia o seu repertório, técnica explicada também no livro. Ela gravava cerca de 30 canções com poucos instrumentos e voz. Depois, distribuía fitas para diferentes pessoas, que davam notas para cada uma. Isso norteava a seleção das 12 que entrariam no álbum.

— Ela entregava para o presidente da gravadora e para o seu motorista . Ia de A a Z tentando pegar essa percepção popular — completa Leonardo.