Batman Zavareze, o artista visual que é homem de confiança de Janja e Marisa Monte

Uma paixão inveterada pelos quadrinhos e uma camiseta de um certo herói que ele admirava usada em um primeiro dia de aula na adolescência transformaram Marcelo Felipe em Batman ainda na década de 1980. Não sem uma certa relutância dele — achava que poderia não ser levado a sério pelo apelido. Mas foi com muito orgulho que o artista visual, designer e diretor de arte se apresentou ao presidente Lula como Batman Zavareze. O encontro foi nos bastidores do Festival do Futuro, evento de celebração da posse com mais de 140 artistas e 18 horas de duração, que ele dirigiu ao lado de Warley Alves, a convite da primeira-dama, Janja.

Prestes a completar 80 anos: Jards Macalé finaliza álbum e conta histórias de suas músicas no Teatro Prudential

Cultura de graça: Casa Museu Eva Klabin terá concertos de piano e visitas guiadas gratuitas

— Na época em que ganhei o apelido, eu me projetei aos 60 anos e achei que ficaria desconfortável. Mas, virei “seu” Batman na portaria do prédio, Batman na reunião da escola dos meus filhos, naturalizei isso. Apertar a mão do presidente Lula pela primeira vez como Batman Zavareze fez passar um filme na minha cabeça. Uma coisa de fábula, de mergulhar num personagem, se abraçar nele e jamais largar — conta o morador da Lagoa, que fez 50 anos em novembro.

Do alto do seu currículo, que inclui as concepções visuais da cerimônia de encerramento da Olimpíada do Rio, de espetáculos de artistas como Marisa Monte e Capital Inicial e de um restaurante de Claude Troisgros, diz que o Festival do Futuro foi o maior desafio dos seus 28 anos de carreira.

Com uma equipe de 500 pessoas, em meio a problemas técnicos, orquestrou 150 drones que, juntos, formaram imagens como corações, estrelas e a bandeira do Brasil, ao som de Duda Beat, BaianaSystem e da ministra da Cultura, Margareth Menezes.

— Chorei copiosamente quando conseguimos contornar os problemas e vi os drones lá no alto. Era uma transição jamais imaginada numa civilização moderna. Uma coisa muito odiosa respondida com gestos amorosos, manchados de maneira absurda no último domingo. Quero deixar para os meus filhos (Luca, de 15 anos; e Ugo, de 12) uma mensagem muito distante daquilo — diz Batman sobre os ataques às sedes dos Três Poderes por militantes bolsonaristas.

E ele vai continuar fazendo coro contra a barbárie e a opressão: foi convidado para criar com o grupo a concepção visual da turnê de “Jardineiros”, disco de inéditas que o Planet Hemp lançou em outubro, após um hiato de 22 anos, fruto da necessidade de seus integrantes de se pronunciarem diante do cenário político do país. Os primeiros testes foram feitos ontem, no show da banda no Universo Spanta, na Marina da Glória.

— Todo esse movimento do Brasil, de se recompor do que foi emocionalmente traumático, depois do período de trevas, tem a ver com as letras, com a história e as batalhas dos integrantes. A primeira fita cassete do Planet que chegou na MTV fui eu que ouvi. Era estagiário, filtrava tudo o que acontecia na cena underground e mandava para o Fabio Massari (que apresentava programas como o “Lado B”). Ver a banda ganhar essas proporções tem uma carga emocional grande para mim — diz ele.

Superação: Morador de rua, cantor e compositor sonha lançar suas músicas; veja vídeos

Foi nos tempos de MTV, inclusive, que ele assistiu, aos 24 anos, pela primeira vez, a um show de Marisa Monte, no Canecão. Em 2001, viu nove vezes o show da turnê “Memórias, crônicas e declarações de amor”:

— Fiquei muito comovido. Encantado por ela, pelo show e por ver que aquele cenário do (artista plástico) Ernesto Neto, tão grandioso, cabia dentro de uma mala.

Mal sabia ele que, dez anos depois, em 19 de janeiro de 2011, receberia uma ligação de Marisa quando passava uma temporada de estudos na Alemanha. Na época, o Multiplicidade, um dos principais eventos de artes visuais do país, idealizado por ele e que, em setembro, chega à 18ª edição (homenageando as mulheres), crescia internacionalmente.

— Não conhecia o número, fiquei na dúvida se atendia e pagava o roaming internacional — diverte-se. — Na terceira tentativa, atendi. E não acreditei quando ela falou que era Marisa Monte. A ligação estava ruim, pedi três vezes para ela repetir.

De lá para cá, fez com ela a turnê “Verdade, uma ilusão”, quando, pela primeira vez, um corpo em movimento (o dela!) foi mapeado e projetado; a dos Tribalistas; e a do disco “Portas”. Desta última, além da concepção visual, foi responsável pela direção, ao lado de Marisa e Cláudio Torres.

— A ideia dela era fazer uma caixinha mostrando o mundo intimista que ela teve que viver na pandemia — conta Batman. — Admiro muito a forma diferenciada com que ela toca a carreira, acolhe a equipe, lida com a fama, se relaciona com a arte. É uma figura ímpar.

Com obras de Hermeto Pascoal: mostra ‘Música é invenção’, entra em cartaz na UFF

Marisa diz que Batman “é um artista sensível, interessado e talentoso que tem uma grande capacidade de escuta”. E que “se tornou um parceiro visual fértil” em suas últimas turnês:

— Ele tem uma cultura ampla, repleta de referências, e também a habilidade para fazer as interfaces necessárias entre o campo criativo e artístico e a vanguarda tecnológica. Tem personalidade generosa, gentil e é um grande amigo. É uma alegria contar com a contribuição de um criador virtuoso como ele para potencializar a comunicação com o público e o sentido das canções através de imagens

Dinho Ouro Preto faz coro: diz que o DVD e a turnê “Capital Inicial 4.0”, dos 40 anos da banda, foram “engrandecidos graças à participação e à inspiração de Batman”:

— Ele é um visionário. Não conheço ninguém que consiga capturar e representar o espírito, a alma de um evento como ele. Traz elegância e sofisticação a uma linguagem brasileira. O bom gosto cenográfico, expressado nas imagens e nas cores que ele escolhe, me remetem aos grandes pintores e arquitetos do país.

Batman afirma que fazer a turnê de 40 anos do Capital Inicial foi uma celebração à sua juventude.

— Foi um convite muito especial. A estreia dessa tour no Rock in Rio para uma plateia com 200 mil fãs foi emocionante — diz.

Parceria com Claude Troisgros

Coisa de um ano e meio atrás, o chef Claude Troisgros buscava um destino para uma espécie de anexo ao Chez Claude, no Leblon. Pensou em transformá-lo num estúdio para gravar lives ou num centro de pesquisa gastronômica. Mas, com 50 anos de profissão, queria mesmo era pôr em prática uma epifania: um restaurante que fosse um espaço sensorial. E encontrou em Batman o parceiro perfeito para materializar o Mesa do Lado, casa aberta em agosto que, através de projeções que unem história, música e gastronomia, transporta 12 “passageiros” para uma viagem de duas horas e 20 minutos ao fantástico mundo de Claude.

— Percebi que o sabor não vem só dos temperos, do ato de comer; vem da emoção de cada um. Mas não sabia bem como traduzir isso, e minha mulher, Clarisse, que o conhecia há muito tempo, sugeriu que conversasse com ele. Essa troca com Batman gerou um resultado impressionante, uma experiência de vida, um lugar muito especial. Tem um mês que não o vejo e me deu uma saudade dele. É um amor de um ano e meio que só está evoluindo — diz Claude.

Para Batman, que assina a direção-geral do projeto ao lado do amigo, este foi um dos melhores trabalhos que fez nos últimos tempos:

— Ele é um francês que soube entender o Brasil, que sabe misturar o foie gras com a rapadura, o biscoito de polvilho com a trufa, e tem a grandeza de valorizar nossa cultura que poucos brasileiros têm.

A parceria com Claude deu liga. Tanto que Batman foi convidado pelo arquiteto Thiago Bernardes, à frente do projeto do restaurante Elena, para ser o responsável pelas experiências imersivas do local. A casa com pegada oriental do empresário Alexandre Leite, pilotada pelo chef Itamar Araújo e com drinques do mixologista Alex Mesquita, abrirá em março no Horto.

— O Elena terá programação artística, como se fosse um centro cultural dentro de um centro gastronômico. E projeções no chão e nas paredes do corredor do banheiro e na entrada da casa. O segundo andar, um rooftop, terá um telão que exibirá filmes e videoarte — adianta Batman.

Outra empreitada do artista, que acaba de estrear no Oi Futuro, no Flamengo, é a curadoria de experiências audiovisuais da peça “Julius Caesar — Vidas paralelas”, dirigida por Gustavo Gasparani, que celebra os 35 anos do grupo Cia. dos Atores. Nesta releitura da obra de William Shakespeare, uma companhia teatral se prepara para a montagem de um espetáculo sobre o famoso imperador romano.

— Chamou muita a minha atenção o tema do poder político instituído que a peça traz, questões que são as mesmas que vivemos hoje no Brasil. Queria que as imagens mostrassem as sensações por trás dos acontecimentos no palco, fossem quase que um inconsciente. Batman traz uma modernidade através da linguagem audiovisual que colabora muito para a dramaticidade da narrativa — afirma Gasparani.

Batman destaca que o diretor “foi o primeiro que mostrou que o teatro poderia ser híbrido e multimídia”

—A companhia dele é referência na forma de enxergar as artes cênicas.

Vencedora do Leão de Ouro da Bienal de Veneza pelo conjunto de sua obra no ano passado, a dramaturga, diretora e cineasta Christiane Jatahy também faz parte do time que quer Batman por perto: ela o recrutou como diretor audiovisual da sua versão da ópera “Nabucco”, de Giuseppe Verdi, que estreia em junho no Grand Théâtre de Genebra.

— “Nabucco” fala sobre a ocupação dos babilônios nas terras judaicas, no momento em que a Itália estava sendo ocupada pela Áustria. Fala sobre libertação, remete ao pesadelo que vivemos nos últimos quatro anos e no último domingo. Acho Batman um criador, a imagem explode do trabalho dele. E acredito que ele pode trazer esse olhar de provocação para a ópera — diz Christiane.

A admiração é mútua:

— Chris entra em campos pouco explorados, faz um circuito europeu potente, levando a arte brasileira para o mundo. É um mérito inacreditável.