BBB 21: do racismo a bifobia, relembre discussões trazidas durante a maior edição do reality

O Globo
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Não dá pra negar. A cada nova edição, impulsionado pelo que a acontece na casa e pelas redes sociais, o "Big Brother Brasil" se fortalece como um catalisador de discussões sobre temas contemporâneos e relevantes. A partir dos conflitos e interações dos participantes confinados e vigiados 24 horas, um público fiel e assíduo encampa debates que extrapolam a torcida por quem deve ser o novo líder ou ganhar R$ 1,5 milhão.

Nem poderia ser diferente. Afinal, o BBB é um jogo de relações. E quando vinte pessoas completamente diferentes são confinadas numa casa, levam consigo sua história e bagagem cultural. Nessa mistura, surgem trocas afetivas, memes, mas também conflitos e preconceitos — que às vezes até passam batido pelos participantes, imersos na adrenalina, mas são apontados pelo público.

Os erros e acertos dos confinados viram combustível para debates que, para o bem e para o mal, ganham proporções continentais e se espalham pelo Brasil, seja no Twitter, que comenta o programa 24h por dia, seja no público do sofá, que aguarda todos os dias o boa noite de Tiago Leifert. Na hostilidade cada vez mais usual às redes, os debate muitas vezes não escapam dos discursos de ódio, é verdade. Mas em outras tantas ocasiões, geram uma conversa ampla e ganham um potencial educativo sobre temas muitas vezes invisíveis à maioria.

A maior, mais longa e mais diversa edição do BBB, que chega ao fim hoje (4), foi marcada por esse fenômeno. Desde o primeiro dia de confinamento, diversos temas extremamente atuais foram pautados pelo que aconteceu no “Big dos Bigs”. Relembre alguns destes momentos:

Transfobia

Talvez esse tenha sido o primeiro tema trazido por esse BBB, já no terceiro dia de confinamento. Ao participarem de uma ação da Avon, alguns dos participantes se maquiaram e desfilaram assumindo “personas” femininas. A participante Lumena apontou o quanto o ato, aparentemente inocente, podia ser violento para mulheres trans e travestis.

"Pessoas se maquiam para serem reconhecidas, é algo muito sério, não é apenas uma brincadeira, é identitário. Sua brincadeira, em mim, tocou em um lugar muito violento. Eu sei que você não sabe, porque eu sei que você não tem amiga trans ou travesti, então você nunca ouviu o que eu ouvi. O que você brincou hoje, para outras pessoas e outros grupos, o nome é violência", explicou Lumena.

O assunto repercutiu aqui fora e muitas ativistas trans reforçaram o que a participante explicou: "O problema não foi e nunca vai ser o fato de todos eles terem passado maquiagem. Maquiagem não tem gênero e usa quem quer, é um produto. O problema é ter que forçar um personagem afeminado como se isso fosse motivo de riso. Não, não é", explicou a youtuber Rebecca Gaia.

Colorismo

Na edição com o maior número de participantes negros, o debate sobre negritude e cor apareceu logo nas primeiras semanas. O semifinalista Gilberto Nogueira se declara negro. Mas, para Nego Di e outros participantes da casa naquele momento, sua pele era "clara demais" para que ele se afirmasse como tal. O assunto foi comentado em rodinhas dentro do reality e virou assunto mais comentado nas redes sociais trazendo à tona os conceitos de colorismo e autodeclaração.

No Brasil, o que determina a cor e raça de uma pessoa é a autodeclaração. Esse é o critério utilizado pelo IBGE para pesquisar a cor da população brasileira e defendido pelo movimento negro. A classificação “negro” diz respeito à população que se autodeclara preta ou parda para o IBGE. Ao colocar pretos e pardos como negros, foi possível perceber que a maioria da população brasileira é negra.

Mas o termo é mais que um instrumento estatístico usado para nortear políticas públicas. Em um país altamente miscigenado e racista, assumir-se negro era (e ainda é) um desafio e, por muito tempo, pessoas de pele mais clara costumavam usar outros termos para definir a cor da sua pele. Isso é explicado em parte pelo colorismo, termo utilizado para explicar que, quanto mais escura for a pele de uma pessoa, mais preconceito e exclusão ela sofrerá.

Muitas vezes, o conceito é distorcido e utilizado para causar diferenciação ou exclusão dentro da própria população negra, como aconteceu dentro do BBB. Na época, diante da repercussão, a família de Gilberto disse que o brother “se declara, se considera e se reconhece como negro”. A mãe dele chegou a contar que Gil foi agredido pelo pai na infância por ter o tom de pele mais claro. Ninguém pode questionar ou determinar se Gilberto — ou qualquer outra pessoa — é negro, apenas ele mesmo.

Xenofobia

Karol Conká foi acusada de xenofobia ao insinuar que Juliette, que é paraibana, não era tão educada quando ela, que nasceu em Curitiba, porque vinha do Nordeste: "Eu sou de Curitiba, é uma cidade muito reservadinha. Por mais que eu sou artista e rodo o mundo, eu tenho meus costumes. Eu tenho muita educação para falar com as pessoas, eu tenho meu jeito brincalhão, mas reparem que eu não invado [o espaço do outro], não desrespeito, não falo pegando nas pessoas. Eu acho estranho, mas essa pessoa [Juliette] falou que não faz por mal.” Também nas primeiras semanas de confinamento, Juliette foi alvo de piadas e deboche por seu sotaque, trejeitos e maneira de falar.

A fala e as “brincadeiras” direcionadas à Juliette foram criticadas nas redes sociais e a palavra xenofobia foi parar nos tópicos mais comentados do Twitter. Xenofobia é o termo utilizado para definir a aversão, hostilidade ou ódio contra pessoas que são estrangeiras ou são vistas como forasteiras. Embora ambas sejam brasileiras, o conceito pode ser utilizado já que é comum que pessoas do Sul e Sudeste tenham comportamentos preconceituosos contra brasileiros do Norte e Nordeste do país.

Juliette e Gilberto, que é de Pernambuco, também compartilharam episódios de preconceito que vivenciaram por causa de sua origem. "Sou estudada, mas onde chego as pessoas me tratam como analfabeta", desabafou a sister.

Homofobia e bifobia

Além da diversidade racial, o elenco do BBB 21 foi o mais diverso no que diz respeito a orientação sexual dos participantes. Mas isso não evitou que os participantes LGBTs sofressem preconceito dentro e fora da casa.

O primeiro caso emblemático envolveu Lucas Penteado. Ao se revelar bissexual e beijar Gilberto na segunda festa da edição — o primeiro beijo entre dois homens da história do BBB —, o ator teve sua sexualidade questionada e foi acusado de estar usando o economista e a “pauta coletiva” para se promover no reality.

Lucas pediu acolhimento, por medo da rejeição que teria da família e de amigos quando saísse da casa por causa da sua sexualidade, mas não recebeu. Ao contrário, foi questionado. O fato marcou o desfecho da participação de Lucas no reality. Depois de uma semana sendo isolado e maltratado pela maioria dos participantes e claramente abalado emocionalmente, o ator decidiu deixar o programa.

Já Gilberto, que se define com orgulho como uma “bicha bichérrima”, revelou que sentia os olhares de reprovação de alguns participantes, em especial o sertanejo Rodolffo. Fora da casa, o cantor foi acusado de homofobia. Os dois se aproximaram e se tornaram aliados, mas em outro momento do jogo, Rodolffo fez um comentário sobre o fato de Fiuk estar usando vestido. Gilberto se incomodou, com razão, e colocou o cantor no paredão.

Racismo recreativo

O BBB 21 foi cheio de marcos. Talvez o maior deles seja que, pela primeira vez, houve um posicionamento oficial do programa em relação ao racismo de um dos participantes. Mais especificamente, Rodolffo. Ao se vestir para cumprir o castigo do “Monstro” com ajuda de João, o sertanejo disse que a peruca da fantasia de homem das cavernas era igual ao cabelo do professor. Constrangido, João afirmou que não era. Saiu do quarto e posteriormente desabafou com a influenciadora Camilla de Lucas sobre como tinha se sentindo mal com o comentário racista do sertanejo e o quanto já tinha escutado “brincadeiras” sobre seu cabelo crespo ao longo da vida.

Durante uma dinâmica ao vivo dois dias depois, João abriu o jogo para os outros participantes sobre a situação que vivenciou no fim de semana. Mas o sertanejo só demonstrou arrependimento após ouvir o discurso de Tiago Leifert que, na noite seguinte, quebrando o protocolo de não interferência no jogo, falou sobre a situação e explicou, de forma didática, porque o comentário tinha sido ofensivo. Pouco depois, anunciou que Rodolffo era o eliminado da semana.

Esse tipo de ofensa, feita por meio de piadas que usam estereótipos do cabelo afro, traços e outros fenótipos negros para produzir um humor hostil, é chamada de racismo recreativo. O tema foi discutido por dias nas redes sociais. Houve quem definiu como "mimimi" a reação de João, mas o professor também recebeu muito apoio e fez com que, pela primeira vez, o programa se posicionasse sobre o tema, que já apareceu em outras edições, mas até então não motivara uma interferência da produção.

Relacionamento tóxico

Não é a primeira vez que a relação de um casal no BBB gera preocupação do público. No BBB 17, a relação claramente abusiva de Marcos Harter com Emily Araújo culminou na expulsão do participante após uma agressão.

O relacionamento de Carla Diaz e Arthur Picoli não chegou a este extremo, mas incomodou as espectadoras do reality. Embora mais sutis, as condutas do crosfiteiro foram consideradas se não abusivas, ao menos tóxicas.

Arthur inúmeras vezes fez pressão psicológica para que a atriz se sentisse responsável por ele. Essa pressão poderia evoluir para uma forma de abuso mais grave: o gaslighting, quando a vítima passa a questionar a veracidade das suas ações e a própria sensatez. O crosffiteiro também questionou as relações da atriz dentro da casa, e em diversos momentos, a ignorou, evitou ou afastou, a tratando com frieza.

As condutas ligaram o sinal de alerta para muitas mulheres fora da casa, que viram no comportamento de Arthur sinais de que aquela relação, ao longo do tempo, poderia se tornar abusiva.