'BBB 23': confira depoimento exclusivo de Domitila Barros. 'Não sei se estaria viva no Brasil'

Ela é pernambucana, modelo, Miss Alemanha 2022, ativista e, a partir de segunda-feira, dia 16, participante do camarote do "BBB 23". Em março do ano passado, Domitila Barros, de 37 anos, deu um depoimento corajoso à Revista ELA, contando detalhes sobre sua vida. Leia abaixo:

"Nasci no Morro da Conceição e me criei na Linha do Tiro, periferia do Recife. O próprio nome revela o cenário: uma realidade muito violenta. Meus pais, Roberta e Ademilson, se conheceram na igreja. Eles seguiam a Teologia da Libertação e foram influenciados por Dom Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo do Recife e de Olinda. Apesar de todas as dificuldades, ingressaram na faculdade.

Minha mãe conseguiu uma bolsa para estudar Pedagogia e meu pai cursou Matemática numa universidade pública. Indignados com a injustiça social do lugar em que viviam, começaram a ensinar, dentro da própria casa, crianças da comunidade a ler e a escrever. Quando cheguei ao mundo, em 1984, o projeto já tinha virado uma ONG chamada Camm (Centro de Atendimento a Meninos e Meninas). Eu convivia com cerca de 50 crianças. Costumo dizer que não me tornei ativista, nasci ativista.

Cresci num ambiente em que a lealdade e o carinho prevaleciam. Na favela, não tem tempo ruim, todo o mundo se ajuda. Porém, o racismo e a truculência policial me marcaram muito: vários amigos foram baleados na minha frente, vi chacinas, pessoas assassinadas dentro de casa. Até hoje, eu tremo ao ver um policial.

Aos 13 anos, passei a ajudar os meus pais no projeto. Tem uma frase da minha mãe que ficou eternizada: ‘Domitila, rapaz, tu tá vendo aquele menino sem fazer nada e tu sabe ler e escrever. Vai ensinar o menino a ler, menina. Como fica vendo isso e não faz nada?’. Depois desse chamado, nunca mais consegui assistir a uma coisa injusta e ficar parada. Ela acionou isso no meu cérebro.

Naquela época, pela minha intuição, associei o teatro às aulas de alfabetização. Aos 15, ganhei o prêmio Sonhadores do Milênio da Unesco, direcionado a jovens que atuavam socialmente dentro da comunidade em que viviam. A partir daí, mudei minha identidade. Pensei: ‘Sou uma revolucionária que vai conquistar o mundo’. E parti para isso.

Aos 17, comecei a faculdade de Serviço Social no Recife, trabalhava de dia e estudava à noite. Depois, ganhei bolsa de mestrado em Ciências Políticas e Sociais em Berlim, onde moro desde 2006. Lembro-me do que falaram: ‘Domitila, uma bolsa dessas é muito difícil’. Respondi: ‘Difícil é sobreviver na favela’

Na capital da Alemanha, estudava e trabalhava como babá. Até ser convidada para fazer um teste como atriz. Deu certo. Trabalhei em novelas e atuei como modelo. Lá, enfrentei o preconceito racial e a xenofobia, mas tive oportunidades. Não sei se estaria viva se continuasse morando no Brasil.

Concorri com 12 mil candidatas ao posto de Miss Alemanha, cujo foco hoje é responsabilidade social, diversidade e empoderamento feminino. Pela primeira vez na Europa uma mulher negra e migrante ganhou o título de miss. Durante toda a noite, falei em alemão. Porém, ao saber que tinha vencido, gritei em português: ‘Mainha, eu te amo, a favela venceu’. Cumpri minha missão. Quero voltar ao meu país e ter oportunidades na área de entretenimento. Hoje, aos 37 anos, estou preparada para o Brasil.”