BC interrompe aperto histórico com Selic em 13,75%, mas deixa porta aberta para retomar ajuste

Sede do Banco Central em Brasília

Por Bernardo Caram

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo às vésperas da eleição presidencial o mais agressivo ciclo de aperto monetário desde o início do regime de metas para a inflação em 1999, em decisão que dividiu o Comitê de Política Monetária (Copom), ponderando que não hesitará em retomar as altas nos juros se a redução da inflação não transcorrer como o esperado.

"O Comitê se manterá vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação", afirmou comunicado do Copom divulgado pela autarquia nesta quarta-feira.

A decisão de manter a taxa foi tomada com o voto favorável de sete dos nove membros do Copom. Dois diretores --Fernanda Guardado e Renato Gomes-- votaram por uma alta residual de 0,25 ponto percentual dos juros. Foi a primeira decisão não unânime do colegiado em seis anos e meio.

Ao reforçar que o Copom irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno das metas, o comunicado destacou que o BC poderá voltar a aumentar a Selic se necessário.

“O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”, acrescentou.

A decisão do Copom foi ao encontro da expectativa da maioria dos analistas de mercado, de acordo com pesquisa Reuters, segundo a qual 24 de 32 economistas consultados esperavam continuidade da taxa básica de juros no mesmo nível.

Com a decisão, o BC manteve a Selic a um patamar 11,75 pontos acima da mínima histórica de 2% ao ano, atingida em meio à pandemia de Covid-19 e que vigorou até março do ano passado. A pausa no aperto monetário ocorre após 12 elevações seguidas da taxa básica, que segue no nível mais alto desde janeiro de 2017, quando também estava em 13,75% ao ano.

Para o economista da Garde Asset Management Luis Menon, o BC não subiu juros nesta reunião “por pouco”.

"A gente esperava a manutenção, mas achamos que o tom veio mais 'hawkish', foi mais duro. O BC colocou que o próximo passo poderia ser aumento de juro. A gente esperava que fosse só parar, que não iria deixar tão claro isso”, disse, ressaltando a divergência entre os membros da diretoria.

ATIVIDADE AQUECIDA

Em relação ao comportamento da inflação no país, o Copom ressaltou que o índice continua elevado, apesar da queda recente em itens mais voláteis e dos efeitos dos cortes tributários implementados pelo governo.

Entre os fatores de risco de alta para a inflação, o BC incluiu no comunicado um hiato do produto mais estreito do que o utilizado em seu cenário de referência, em particular no mercado de trabalho --o que indicaria uma economia aquecida, com tendência a gerar pressão inflacionária.

"A divulgação do PIB apontou ritmo de crescimento acima do esperado no segundo trimestre, e o conjunto dos indicadores divulgado desde a última reunião do Copom seguiu sinalizando crescimento", afirmou.

O BC voltou a citar como outros elementos que podem impulsionar preços uma maior persistência das pressões da inflação global e incertezas sobre o arcabouço fiscal do país, já citados em comunicados anteriores.

Com relação aos riscos de baixa nos preços, o Copom mencionou queda adicional nos valores das commodities, desaceleração mais forte da atividade global e manutenção em 2023 dos cortes de impostos que inicialmente valeriam apenas neste ano.

Na reunião de agosto, o Copom havia elevado a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, a 13,75% ao ano, indicando que poderia encerrar o ciclo de aperto com um ajuste menor em setembro.

Após a decisão, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o país registrou deflação nos meses de julho e agosto. Em 12 meses, o IPCA acumula uma alta de 8,73% --a meta para o fechamento do ano é de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

O recuo da inflação nos meses recentes foi motivado principalmente pelo corte de tributos sobre combustíveis, medidas que o BC já havia incorporado em seus modelos na reunião de agosto.

IPCA MENOR EM 2022

No período entre as duas reuniões, as expectativas de mercado mantiveram tendência de melhora. A projeção para o IPCA em 2022 dos economistas ouvidos pelo BC, segundo o boletim Focus, passou de 7,11% em agosto para 6,00% nesta semana. Para 2023, a estimativa caiu de 5,36% para 5,01% --a meta no ano que vem é de 3,25%, também com tolerância de 1,5 ponto.

No comunicado, o BC informou que as projeções do cenário de referência do Copom apontam para uma inflação de 5,8% em 2022 (ante 6,8% na reunião anterior), 4,6% em 2023 (4,6% antes) e 2,8% em 2024 (2,7% antes).

O Comitê optou novamente por dar ênfase ao período de seis trimestres à frente, justificando que a estratégia reflete o horizonte relevante da política monetária e suaviza efeitos diretos das recentes desonerações tributárias. Para o primeiro trimestre de 2024, o BC prevê uma inflação acumulada em 12 meses de 3,5%.

Após avançar com o aperto monetário mais rapidamente e com maior intensidade que economias avançadas, a autoridade monetária brasileira pausou seu ciclo de alta nos juros enquanto outros países agora intensificam os ajustes.

A decisão do BC foi tomada no mesmo dia em que o Federal Reserve elevou a taxa básica de juros nos Estados Unidos em 0,75 ponto percentual pela terceira vez consecutiva, para um intervalo de 3,00% a 3,25%, e sinalizou mais aumentos grandes à frente na tentativa de debelar a inflação.

Na terça-feira, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse que a instituição pode precisar aumentar os juros para um nível que restrinja o crescimento econômico para reduzir a demanda e combater a inflação. Também há expectativa no mercado de uma alta expressiva pelo Banco da Inglaterra na quinta-feira.

No comunicado, o BC disse que o ambiente externo segue adverso, com contínuas revisões negativas de crescimento e ambiente inflacionário pressionado, enquanto a política monetária em países avançados segue em direção a taxas restritivas.

(Por Bernardo Caram, com reportagem adicional de José de Castro)