Inflação em 2021 foi fenômeno global e BC tem tomado providências, diz Campos Neto

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Por Bernardo Caram

BRASÍLIA (Reuters) -Em carta aberta apresentada nesta terça-feira para justificar o descumprimento da meta de inflação em 2021, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que o movimento de alta nos preços foi um fenômeno global que atingiu a maioria dos países avançados e emergentes, ressaltando que a autoridade monetária tem "tomado as devidas providências" para que as metas sejam atingidas.

No documento, Campos Neto disse que o resultado do ano foi motivado por forte elevação nos preços de bens, cobrança de tarifa adicional de energia elétrica e desequilíbrios entre oferta e demanda com gargalos nas cadeias produtivas.

De acordo com o presidente do BC, o dólar encerrou 2021 em patamar 9,83% acima do observado no fim de 2020, motivado por ruídos fiscais.

"A tendência de depreciação na segunda metade de 2021 refletiu principalmente questionamentos em relação ao futuro do arcabouço fiscal vigente e o aumento dos prêmios de risco associados aos ativos brasileiros, diante da maior incerteza em torno da trajetória futura do endividamento soberano", disse.

Esta é a sexta vez que um presidente do Banco Central brasileiro apresenta carta aberta ao ministro da Economia (ou da Fazenda), que preside o Conselho Monetário Nacional, para justificar o descumprimento da meta de inflação do ano anterior.

As explicações já foram dadas nas aberturas de 2002, 2003, 2004, 2016 e 2018. Na mais recente, o então presidente do BC, Ilan Goldfajn, apresentou justificativas ao fato de a inflação ter ficado ligeiramente abaixo do piso da margem de tolerância para a meta.

A regra determina que o presidente do BC divulgue a carta sempre que a inflação encerrar o ano fora dos intervalos de tolerância para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

No regime de metas para a inflação, em vigor desde 1999, o Conselho Monetário Nacional (CMN) define um alvo para o IPCA de cada ano, além de um intervalo de tolerância. Em 2021, a meta foi de 3,75%, com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Segundo dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira, o IPCA encerrou 2021 com alta de 10,06%, muito acima do limite máximo de 5,25%.

O ano foi marcado por alta nos preços de alimentos, combustíveis e energia elétrica. Contribuíram negativamente para esse processo a elevação nos preços internacionais de commodities, a aceleração da inflação mundial e a desvalorização do real frente ao dólar.

GARGALOS

Na análise das razões que motivaram o desvio da inflação, modelo do BC apresentado na carta mostra que o principal fator foi a chamada inflação importada (combinação de variação da taxa de câmbio e dos preços de commodities --incluindo petróleo). Esse fator contribuiu com 4,38 pontos percentuais do total de 6,31 pontos percentuais de desvio do IPCA em relação à meta.

A inércia da inflação do ano anterior, segundo o BC, foi responsável por 1,21 ponto percentual no dado de 2021, enquanto as expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus contribuíram com 0,25 ponto percentual para a discrepância.

De acordo com o presidente do BC, cadeias produtivas globais apresentaram importantes gargalos ao longo de 2021, com esgotamentos de estoques de insumos, escassez de semicondutores e aumentos de prazos de entrega e de preços dos fretes.

Campos Neto afirmou que a inflação de preços administrados, que incluem energia elétrica e combustíveis, atingiu 16,90%, contribuindo com 4,34 pontos percentuais para a variação do IPCA --menor apenas do que a variação observada em 1999 e 2015.

Ressaltando o impacto da alta das commodities, o chefe do Bacen disse que os preços de bens industriais e de alimentação no domicílio subiram, respectivamente, 12,00% e 8,23% (contribuições de 2,75 pontos percentuais e 1,25 ponto percentual para o IPCA).

Ele pontuou que os valores do setor de serviços aumentaram 4,75% (contribuição de 1,72 ponto percentual), após movimento de recuperação de preços que estavam deprimidos em decorrência de impactos da crise sanitária.

"O ano de 2021 foi marcado pelo avanço da campanha de vacinação e o processo de normalização da atividade econômica", disse, ressaltando que os números do mercado de trabalho mostram evolução favorável.

PROVIDÊNCIAS

Na carta, Campos Neto, afirmou que o BC tem tomado providências para que o IPCA atinja as metas estabelecidas para 2022, 2023 e 2024.

Apesar de as projeções de mercado para este ano apontarem estouro do limite superior estabelecido, ele reforçou que o cumprimento da meta em 2022 segue no foco da autoridade monetária.

"O BC tem tomado as devidas providências para que a inflação atinja as metas para a inflação estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3,50% para 2022, 3,25% para 2023 e 3,00% para 2024", disse.

Campos Neto reforçou que o BC vem calibrando a taxa básica de juros e continuará a fazê-lo com o objetivo de cumprir as metas estabelecidas pelo CMN.

Para 2022, a meta de inflação é de 3,50%, com limite máximo de 5,00%. De acordo com o boletim Focus divulgado pelo BC, o mercado espera que a inflação ao consumidor medida pelo IPCA fique em 5,03% neste ano, ligeiramente acima do teto do intervalo de tolerância.

O presidente do Bacen replicou avaliação do Comitê de Política Monetária (Copom) de que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista.

"O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", disse, ao reafirmar que o Copom antevê uma nova alta de 1,50 ponto percentual na Selic em fevereiro.

De acordo com o presidente do BC, o crescimento da trajetória nominal da Selic foi mais acentuado do que o aumento das expectativas de inflação. Ele destacou que a elevação da taxa real de juros no atual ciclo é a maior ocorrida desde o início do regime de metas.

Na tentativa de debelar a inflação e ancorar as expectativas futuras, o BC vem promovendo um agressivo ciclo de aperto monetário. A taxa Selic, que começou 2021 na mínima histórica de 2,00% ao ano, sofreu elevações ao longo do ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) até atingir 9,25% em dezembro.

Na carta, Campos Neto voltou a dizer que questionamentos em relação ao futuro do arcabouço fiscal resultam em aumento dos prêmios de risco e elevam o risco de desancoragem das expectativas, ressaltando que isso implica atribuir maior probabilidade a cenários alternativos que considerem taxas neutras de juros mais elevadas.

"Eventual esmorecimento no esforço de reformas estruturais e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural", afirmou.

(Edição de José de Castro e Maria Pia Palermo)

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