BCE reforça arsenal contra crise do coronavírus

Por Jean-Philippe LACOUR, avec Coralie FEBVRE à Berlin
Bandeiras da União Europeia em frente à sede do BCE, em 12 de março de 2020, em Frankfurt (Alemanha)

O Banco Central Europeu (BCE) fortaleceu e ampliou nesta quinta-feira (4) seu arsenal de apoio à economia, uma vez que o impacto do novo coronavírus promete ser sentido por vários anos.

Forjado em março e inicialmente dotado de 750 bilhões de euros até o final do ano para comprar títulos públicos e privados, o programa PEPP foi inflado em 600 bilhões de euros, anunciou um porta-voz.

Também foi estendido para "pelo menos o final de junho de 2021", um sinal de que a resposta monetária ao choque sanitário levará mais tempo do que o inicialmente esperado.

O BCE também indicou que reinvestirá os títulos em seu vencimento até "pelo menos o final de 2022", o que lhe permite administrar esse estoque de ativos a longo prazo, como já faz desde 2015 para seu programa de recompra de ativos "QE".

Essa decisão "é importante", já que o instituto poderá usar a flexibilidade oferecida pelo PEPP "por mais tempo", por exemplo, concentrando suas compras nos países mais afetados, segundo o estrategista Frederik Ducrozet, da Pictet Wealth Management.

Finalmente, o instituto manteve suas taxas básicas de juros em seu mais baixo piso histórico, a fim de estimular a oferta de crédito na zona do euro destinada a famílias e empresas.

- Retomada -

A principal taxa de juros permanece em zero, enquanto os bancos aplicarão uma taxa de 0,5% sobre uma fração dos depósitos que confiam ao banco central, em vez de emprestá-los a seus clientes.

Para justificar essas decisões à imprensa, a presidente do BCE, Christine Lagarde, terá um novo conjunto de previsões macroeconômicas para até 2022, uma avaliação crucial da escala e da duração da crise.

A francesa já aposta em um declínio do Produto Interno Bruto (PIB) na zona do euro entre 8% e 12% este ano, antes de uma recuperação com contornos incertos.

Dificuldade adicional: se as medidas de confinamento para conter o coronavírus resultaram em um choque econômico "muito simétrico", que atingiu todos os países em meados de março, a recuperação promete ser "muito mais assimétrica", observa Carsten Brzeski, do banco ING.

De acordo com a virulência da pandemia, os setores afetados e as redes de segurança implantadas para proteger o emprego, "muitas economias periféricas correm o risco de uma recessão mais duradoura", acrescentou.

A inflação caiu para 0,1% em maio e pode chegar a zero, subindo timidamente para 0,7% em 2021, segundo a Capital Economics, muito longe da meta "próxima a 2%" adotada pelo BCE desde 2013.

- Ameaça judiciária -

Como os Estados da zona do euro estão se endividando exponencialmente, para não mencionar um possível empréstimo europeu futuro, o BCE pode debater a "chave de distribuição" das recompras de dívida soberana, planejada para refletir a participação de cada Estado membro, diz Fritzi Köhler-Geib, economista-chefe da KfW.

Desvios dessa regra foram observados no contexto do PEPP, mas "na maioria das vezes insignificantes e menos importantes do que o esperado para a Itália", um país duramente atingido pela crise da saúde, observa Chiara Cremonesi, estrategista da UniCredit.

Abrir este canteiro tão técnico quanto político envolve um grande risco, porém: em uma decisão no início de maio, o Tribunal Constitucional alemão ordenou que o BCE justificasse até agosto suas compras de dívida, fazendo das "chaves de distribuição" uma condição de sua validade.

É certo que Lagarde deve repetir que o BCE está sujeito apenas à Corte de Justiça da União Europeia, que endossou a recompra de títulos.

Mas essa ameaça legal pode reacender os temores de uma ruptura da zona do euro, especialmente "se o déficit econômico aumentar novamente" entre os países-membros, e o BCE for restringido em sua ação, adverte Carsten Brzeski.