Beija-Flor reivindica seu lugar de fala para celebrar o pensamento do povo preto na Avenida

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A Beija-Flor, que tem em seu DNA como escola de samba a tradição de exaltação ao povo preto, voltará a pisar forte na Avenida com a temática que é tão cara à história da azul e branca de Nilópolis. Mas "Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor", o enredo para o desfile desta sexta-feira, será diferente de todas as demais apresentações da agremiação abordando a cultura afro-brasileira, inclusive na estética apresentada. O carnavalesco Alexandre Louzada diz que, ao exaltar a intelectualidade negra através do tempo, o visual em quase nada lembrará, por exemplo, o "Áfricas", desfile histórico campeão de 2007. As palhas e a forma mais rústica e artesanal dão lugar a novas propostas estéticas. O abre-alas, por exemplo, promete impacto: preto, com luzes azuladas e uma grande escultura de Sankofa (pássaro que voa para frente, mas cabeça voltada para trás), num simbolismo para representar a inteligência dos grandes impérios do Norte da África.

— O enredo foi proposto pelo jornalista e pesquisador João Gustavo Mello, em meados de 2020, quando o mundo se mobilizava para manifestar contra a morte de George Floyd (sufocado até a morte por um policial branco nos Estados Unidos). E se tornou uma construção coletiva da escola. Na primeira audição dos sambas da escola, lembro que eu chorei. Foram tantas descobertas que hoje eu acho que um enredo só é pouco para contá-las. Foi preciso um poder de síntese grande — afirma Louzada, que assina o desfile junto com André Rodrigues, único carnavalesco negro do Grupo Especial.

As homenagens ao pensamento negro incluem personalidades contemporâneas, como a escritora Conceição Evaristo e o compositor e escritor Nei Lopes, que será homenageado na bateria. Já a artista e educadora Rosana Paulino é celebrada na ala das baianas. Figuras históricas também são exaltadas, como os engenheiros Irmãos Rebouças e o escultor Aleijadinho, assim como escritores como Machado de Assis e Cruz e Souza.

No fim, será debatida a escola de samba como espaço de produção de intelectualidade, com homenagens a nomes essenciais à história da Beija-Flor com seus saberes, como o compositor Cabana (fundador da azul e branca), o intérprete Neguinho da Beija-Flor, a passista Pinah e o diretor de carnaval Laíla, que morreu durante a pandemia da Covid-19.

O carnavalesco André Rodrigues resume o sentimento de integrar a equipe que desenvolve esse enredo:

— É fazer diferença na vida das pessoas. Usar o poder de comunicação das escolas de samba para empoderá-las. Mas mostrar o que elas já são e o que podem ser. É contribuir para que não se vejam notícias como as da Fundação Palmares (órgão federal envolvido em polêmicas recentes) e achá-las normais. Para que essas notícias não sejam enxergadas como corriqueiras. Que se entenda sobre o sistema racista que a gente vive — diz ele.

A Beija-Flor é a sexta e última escola a desfilar nesta sexta-feira.

Autores: J. Velloso, Léo do Piso, Beto Nega, Júlio Assis, Manolo e Diego Rosa

Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

A nobreza da corte é de ébano
Tem o mesmo sangue que o seu
Ergue o punho, exige igualdade
Traz de volta o que a história escondeu
Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu
Mas você não reconhece
O que o negro construiu
Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu
E o meu povo ainda chora
Pelas balas de fuzil
Quem é sempre revistado
É refém da acusação
O racismo mascarado pela falsa abolição
Por um novo nascimento, um levante
Um compromisso
Retirando o pensamento
Da entrada de serviço

Versos para cruz, Conceição no altar
Canindé, Jesus, ô, Clara!!
Nossa gente preta tem feitiço na palavra
Do Brasil acorrentado, ao Brasil que não se cala

Versos para cruz, Conceição no altar
Canindé, Jesus, Ô, Clara!!
Nossa gente preta tem feitiço na palavra
Sou o Brasil que não se cala!!

Meu Pai Ogum ao lado de Xangô
A espada e a lei por onde a fé luziu
Sob a tradição Nagô
O grêmio do gueto resistiu
Nada menos que respeito
Não me venha sufocar
Quantas dores, quantas vidas
Nós teremos que pagar?
Cada corpo um orixá! Cada pele um atabaque
Arte negra em contra-ataque
Canta Beija-Flor! Meu lugar de fala
Chega de aceitar o argumento
Sem senhor e nem senzala, vive um povo soberano
De sangue azul nilopolitano

Mocambo de crioulo: Sou eu! Sou eu!
Tenho a raça que a mordaça não calou
Ergui o meu castelo dos pilares de Cabana
Dinastia Beija-Flor!

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