Belarus tem muitos amigos e não aceita interferência do Ocidente, diz novo embaixador

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Novo embaixador da Belarus no Brasil, o diplomata Serguei Lukashevich, 44, rejeita que seu país, governado há 27 anos pelo ditador Aleksandr Lukachenko, seja um pária internacional.

"O mundo é um lugar grande, temos muitos amigos e parceiros", diz ele, em entrevista à Folha por email.

Nomeado no final de setembro para o cargo, Lukashevich diz que seu país está aberto a ter relações com o mundo, mas que não aceitará pressão internacional. "Estamos prontos para cooperar, mas não para nos submetermos. Não permitimos que os Estados ocidentais determinem nossa política interna", afirma.

A pressão sobre a Belarus, considerada a última ditadura da Europa, intensificou-se desde o ano passado, quando Lukachenko venceu eleições consideradas fraudulentas por grande parte da comunidade internacional. Seguiram-se então manifestações da oposição, duramente reprimidas pelo regime.

Sobre a relação com o Brasil, o novo embaixador diz que vai muito bem, sobretudo no campo econômico. "O Brasil mantém a posição de principal parceiro econômico da Belarus na América Latina. Estamos muito interessados na consolidação dessa tendência", afirma.

Ele afirma ainda que Lukachenko e o presidente Jair Bolsonaro "são parecidos na sua preocupação com o bem-estar dos seus povos e a prosperidade dos países".



Folha - Como o sr. analisa as relações atuais entre a Belarus e o Brasil?

Serguei Lukashevich - Nossos países mantêm relações amigáveis e trabalham para o bem-estar dos povos brasileiro e belarusso por meio do desenvolvimento do comércio bilateral, bem como da cooperação em política, educação, ciência, esporte e cultura.

O Brasil mantém a posição de principal parceiro econômico da Belarus na América Latina. Os fertilizantes de potássio belarussos apoiam o crescimento da agricultura brasileira há muitos anos, em culturas como soja, milho, café e cana. Em 2021, Belarus também comprou dois aviões Embraer brasileiros. A compra de mais dois está sendo considerada para o próximo ano. Nos primeiros oito meses de 2021, o volume de negócios entre Belarus e o Brasil cresceu 129,4% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Folha - As sanções contra a Belarus podem atrapalhar a relação com o Brasil?

Serguei Lukashevich - A pressão das sanções impostas por União Europeia e EUA cria dificuldades no desenvolvimento das relações econômicas entre nossos países. As empresas belarussas estão fazendo tudo o que é necessário para cumprir suas obrigações contratuais. A principal "vítima" das sanções na esfera do comércio de fertilizantes não será a Belarus, mas a segurança alimentar mundial, assim como a agricultura brasileira. A dura e ilógica política de sanções está relacionada a interesses comerciais: as falhas nas colheitas devido ao subabastecimento de fertilizantes de potássio da Belarus em vários países facilitarão as vendas de produtos agrícolas caros de europeus e americanos nesses mercados.

Folha - Como o sr. vê a relação de Aleksandr Lukachenko com Jair Bolsonaro?

Serguei Lukashevich - Como, infelizmente, não houve contatos pessoais entre os presidentes Lukachenko e Bolsonaro, neste momento é bastante difícil falar sobre a relação entre eles. Entretanto, os dois presidentes são parecidos na sua preocupação o com bem-estar dos seus povos e a prosperidade dos países.

Folha - O sr. considera que a maneira como a Belarus é retratada pela imprensa brasileira é correta?

Serguei Lukashevich - Muitas mídias brasileiras apresentam geralmente informação sobre a Belarus de forma unilateral, utilizando e às vezes simplesmente reimprimindo reportagens de agências de notícias europeias. Neste contexto, infelizmente, muitos jornalistas brasileiros esqueceram o princípio básico: a diversidade de opiniões é desejável, com base na qual o leitor pode fazer sua própria avaliação dos eventos. Neste sentido, sou grato à Folha por esta oportunidade de conversar.

A propósito, o correspondente da Folha mais próximo, que cobre eventos no nosso país, está em Bruxelas, a cerca de 2.000 km da Belarus. Se um correspondente da Belarus começar a cobrir o desmatamento na Amazônia em seu escritório na China, o relato estará bem longe da realidade. Mas estamos felizes em ajudar a fornecer informação confiável: nossas portas e endereços de e-mail estão abertos, assim como nossas mídias sociais no Facebook e no Twitter [a Folha enviou sua correspondente em Bruxelas à Belarus em agosto de 2020 para reportar do país os protestos contra a ditadura de Lukachenko.]

Folha - A eleição de Lukachenko em 2020 não foi reconhecida pela União Europeia, EUA e diversos países, por ter sido considerada fraudulenta e conduzida em um ambiente de intimidação à oposição. Como o sr. vê esse fato?

Serguei Lukashevich - A Belarus convidou observadores da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), da União da Rússia e Belarus, da Organização de Cooperação de Xangai e da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva).

Não nos desviamos um único passo de nossas garantias e compromissos, incluindo os da OSCE. A decisão do Odihr [órgão de direitos humanos da OSCE] de não enviar uma missão de observação foi decepcionante para nós. Talvez não tenham vindo precisamente para negar as ações violentas da oposição contra o governo atual? Entretanto, todos os outros observadores não viram nenhuma violação no processo eleitoral, e é por isso que o presidente Lukachenko foi parabenizado pelos líderes de Rússia, China, Turquia, Vietnã, Venezuela etc. Na Belarus, as eleições são realizadas para o povo da Belarus, não para obter aprovação dos EUA ou da UE ou de qualquer outra parte.

Folha - A Belarus é, em diversos sentidos, considerada um pária internacional, por prender opositores, censurar meios de comunicação e reprimir manifestações. O que tem a dizer sobre isso?

Serguei Lukashevich - A Belarus é um membro responsável da comunidade internacional. Somos o único país da ex-União Soviética que não tem reivindicações territoriais com os seus vizinhos, nenhum conflito militar latente ou evidente, fome entre a população ou corrupção. Temos uma taxa de alfabetização de 100%. Nossas resoluções na ONU são apoiadas pela maioria dos países. Portanto, não devemos copiar os clichês da UE e dos EUA, que escrevem muitas coisas negativas e infundadas não só sobre meu país, mas também sobre outros Estados, incluindo o Brasil. Os políticos da UE e dos EUA têm uma memória curta: todos esqueceram que, graças à plataforma de negociação em Minsk, a escalada do conflito militar em Donbass, na Ucrânia, foi evitada. O mundo é um lugar grande, temos muitos amigos e parceiros.

Folha - Lukachenko está no poder há 27 anos. Não seria saudável haver alternância de poder?

Serguei Lukashevich - Você sabe qual é a beleza da vida na Terra? Sua diversidade. Cada sistema político tem seus estágios de formação, desenvolvimento e crescimento. O povo de nosso país nunca foi a favor de mudanças revolucionárias; somos a favor de evolução e crescimento. É preciso lembrar que nossa independência começou em 1991, quase ontem nos padrões históricos. Mas os processos de reforma já estão em andamento na Belarus.

A Constituição está sendo emendada, está em progresso a separação mais profunda de competências entre os Poderes. O presidente Lukachenko afirmou repetidamente que não está agarrado ao poder. Outra questão é se alguém de fora quer nos impor suas opiniões, para nos dizer o que devemos fazer. A história conhece muitos exemplos de tal imposição e como isso termina: o exemplo mais recente é o Afeganistão. Onde estão esses "professores da vida certa" agora? Se estamos falando de longevidade política, há muitos exemplos: Angela Merkel governa a Alemanha há 16 anos, o pai do modelo de desenvolvimento sueco, o primeiro-ministro Tage Erlander, governou por 23 anos [entre 1946 e 1969].

Folha - Em maio, a Belarus forçou um voo da companhia Ryanair a pousar em Minsk, para que o opositor Roman Protasevich e sua namorada fossem presos. O ato foi classificado como terrorismo de Estado por diversos países. Como o sr. explica isso?

Serguei Lukashevich - Qual órgão internacional responsável pela segurança da aviação fez essa definição? Qual é a base para essas alegações? A Icao [Organização da Aviação Civil Internacional] ainda está investigando a situação. Você não acha estranho que os políticos da UE e dos EUA tenham assumido o papel do Conselho de Segurança da ONU e estejam "pendurando etiquetas"?

Apenas algumas horas depois de o comandante do avião tomar a decisão independente de pousar em Minsk, devido ao relato de um dispositivo explosivo a bordo, a UE e os EUA designaram a Belarus como culpada e impuseram um embargo aos voos e sanções contra a companhia aérea nacional belarussa Belavia, não envolvida no caso, violando a Convenção de Chicago sobre Transporte Aéreo. Se sua versão fosse verdadeira, a Icao já a teria confirmado há muito tempo.

Folha - Qual a sua opinião sobre o fato de colegas seus embaixadores terem deixado os cargos em protesto ao autoritarismo do governo, caso do ex-representante na Argentina, Vladzimir Astapenka?

Serguei Lukashevich - Um embaixador é um representante do presidente em outro país. Existe pluralismo de opiniões na Belarus, mas existem órgãos públicos nos quais é preciso seguir a linha oficial. Se o embaixador não concorda com a política do presidente, tem que renunciar. Esta atitude funciona no mundo da diplomacia em todos os países.

Folha - Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), a Belarus intimida e persegue meios de comunicação. Diversos sites e jornais tiveram de fechar. Por que há esse tipo de repressão?

Serguei Lukashevich - Na Belarus não é proibido estar em oposição ao governo. Mas é necessário distinguir o desacordo com a política oficial do apelo para derrotar a ordem constitucional. Aqueles que pedem sanções contra Belarus ou golpe de Estado são responsáveis de acordo com a lei. Os eventos na Belarus em agosto de 2020 não foram típicos para nosso país pacífico e calmo, principalmente porque os protestos nas ruas eram controlados do exterior pela mídia de oposição, redes sociais e canais no Telegram. Nenhum país toleraria uma situação em que os manifestantes fossem dirigidos por organizações de países vizinhos ou distantes. Penso que a liderança brasileira também não ficaria de braços cruzados em tal situação.

Folha - A Belarus tem a intenção de um dia se integrar à UE? Ou entende que seu interesse é uma relação cada vez mais próxima com a Rússia?

Serguei Lukashevich - A Belarus não tem inimigos, nós temos amigos e parceiros. Se alguém se permite interferir nos assuntos internos da Belarus, não nos mantemos em silêncio e reagimos imediatamente. Atualmente, isso está acontecendo com as relações belarusso-europeias e belarusso-americanas. Estamos prontos para cooperar, mas não para nos submetermos. Não permitimos que os Estados ocidentais determinem nossa política interna.

Cada país deve determinar qual das alianças tem melhores vantagens para seus cidadãos. Somos vizinhos da UE e temos interesse em relações estáveis com este bloco. Hoje, o nível de integração com nosso parceiro estratégico e aliado Rússia é muito alto. É um mercado para os nossos produtos (US$ 13,5 bilhões por ano). A Belarus tem preços preferenciais de energia em razão da integração com a Rússia. Temos um mercado de trabalho comum e livre circulação e residência de cidadãos dos dois países. Sempre tivemos uma parceria especial com a Rússia.

Raio-x

Serguei Lukashevich, 44 Nascido em Kuntsevshchina, na Belarus, é graduado em relações internacionais pela Universidade Estatal da Belarus com especialização em economia mundial e relações econômicas internacionais. Diplomata desde 2000, trabalhou nas embaixadas da Belarus no Uzbequistão e na Argentina. Atuou como conselheiro da embaixada no Brasil de 2014 a 2016 e foi encarregado de negócios na Espanha em 2020. Desde setembro, é embaixador da Belarus no Brasil.

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