Belo Horizonte tem sua qualidade de vida na mira da mineração

Toda região de Belo Horizonte está ameaçada pela mineração na Serra do Curral (Getty Images)
Toda região de Belo Horizonte está ameaçada pela mineração na Serra do Curral (Getty Images)

Do arraial Del Rey a Belo Horizonte (MG), a Serra do Curral sempre foi protagonista na história da Região Metropolitana da capital mineira. Com os recursos hídricos que abastecem grande parte do entorno e exuberância visual que pode ser contemplada de diferentes ângulos do município, não sendo em vão o título de símbolo da cidade, tombado como patrimônio federal e municipal.

Mas a autorização da atividade de mineração da Taquaril Mineração S.A (Tamisa), licenciada no último dia 31 de abril com o projeto de extrair 31 milhões de toneladas de minério de ferro, ultrapassa em muito as questões históricas e patrimoniais da Serra e afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores de BH e quase metade da população da Região Metropolitana de BH, que comporta cerca de 6 milhões de habitantes.

Segundo o urbanista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais Roberto Andrés, as atividades de mineração na Serra do Curral devem ser tratadas como danos por terem um caráter irreversível. "É uma extração grande que traz muitos impactos de poeira, ruído, trânsito e uma descaracterização muito grande do patrimônio que é a Serra", aponta.

Apesar da afirmação da Tamisa e do Governo de Minas Gerais de que a mineração não afetará a serra nem o seu ponto mais, o Pico Belo Horizonte - que está próximo de onde as extrações acontecerão, o receio é que ocorra uma descaracterização do perfil topográfico da Serra do Curral. "A gente não sabe o que pode acontecer com a silhueta ao ampliar tanto a mineração ali atrás", comenta Andrés. A extração de minério no local, iniciada na década de 1950, já trouxe grandes mudanças no contorno da serra.

O comprometimento da fauna e flora nativa, marcadas pela transição do Cerrado com a Mata Atlântica, também é uma das graves consequências que a mineração no local pode trazer. Além da extinção de espécies e o desmatamento de uma área de 41,27 hectares, há o risco de migração de animais para a área urbana, o que pode desencadear não só o desequilíbrio na biodiversidade, mas também surtos de doenças.

Jeanine Oliveira, do Projeto Manuelzão e integrante do movimento "Mexeu com a Serra, Mexeu Comigo", aponta a saúde pública como um dos pontos graves que será comprometida pelos poluentes provenientes da mineração. “Tem uma interferência grande na umidade do ar, mas também tem a questão das partículas do solo, que no nosso caso tem a característica de ser muito fino, facilmente jogado para todo mundo que mora do lado”.

Ela explica que, em algumas das camadas de minério que serão exploradas, também há presença de quartzo, que ao ser quebrado, libera sílica, composto que causa problemas respiratórios ao ser inalado. “A sílica não é algo que a gente dá conta de respirar, e além dela, tem vários outros poluentes. Temos um aumento de problemas respiratórios. É uma atividade de alto impacto com potencial poluidor e danoso. Vão retirar uma área verde, que traz indicadores de qualidade de vida para a cidade de Belo Horizonte, o que já é prejudicial, e ainda vai ter a emissão de mais poluentes”.

A questão hídrica também traz preocupação para toda a população que é abastecida pelo reservatório de Bela Fama, responsável por fornecer água para 70% de Belo Horizonte e 40% da Região Metropolitana e está inserido no mesmo território onde a mineração vai atuar. "A gente já vive uma situação de estresse hídrico muito alto na Região Metropolitana de Belo Horizonte desde 2015", diz Oliveira.

O quadro se agrava quando é considerado que as construções do empreendimento comprometem nascentes que passam pela Serra, além de alterar uma grande parte do aquífero que abastece o Rio das Velhas. “A Bacia de Aguinhas está em lugar muito alto e sem interferência direta da poluição”, comenta a ambientalista. “Estamos falando de perder rios, córregos, porque o complexo vai usar toda essa bacia”, finaliza.

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