Ben Harper não tem receio de misturar música e política: ‘Não gostou? Então, vá ouvir outro artista!’

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

A sonoridade de “Bloodline maintenance”, 16º álbum de estúdio do cantor e compositor americano Ben Harper, lançado no último dia 22, pode lembrar a de discos de mais de 50 anos atrás, clássicos do soul, blues e funk. Mas a indignação nas letras das canções, esta se refere a episódios bem mais recentes.

Crítica: Em 'Renaissance', Beyoncé faz a festa de um verão que demorou a chegar

Spotify: Ed Sheeran é primeiro artista com 100 milhões de seguidores; Marília Mendonça é única brasileira no Top 50

Ao citar o movimento Black Lives Matter (“Eu digo que vidas negras importam / porque a história diz que nós não importamos / ou você é cristão ou é racista”, canta em “We need to talk about it”) e a tomada do Capitólio por seguidores do ex-presidente Donald Trump em janeiro de 2021 (“Eles invadiram o castelo /mas o rei acabou sendo um peão”, fuzila em “Where did we go wrong”), Ben cumpre o seu papel de cronista. E, dados os tempos loucos em que se vive, também dá munição para quem reclama dos artistas que misturam música e política. Mas ele não está nem aí.

— Não gostou? Então, vá ouvir outro artista! — encerra a questão o californiano de 54 anos, que compôs muitas das canções de “Bloodline maintenance” no calor dos acontecimentos. — Para mim, isso foi vital. Durante boa parte da minha vida adulta, não tive tempo de ficar parado, e acho que essa quietude coletiva (dos americanos sobre os episódios que sacudiriam o país) teve um papel fundamental na vivacidade desse disco. Na sua melhor forma, a música é um filtro para o que está acontecendo, para o que estamos vivendo. E há discos que conseguem refletir, em tempo real, o ambiente cultural. Espero que o meu seja um desses.

A situação política atual trouxe para Ben Harper a memória do pai, Leonard, falecido em 1998. Alguém que, segundo ele, foi “cultural, política e espiritualmente conectado com o seu tempo” e que, por isso mesmo, foi parar na capa do disco em uma antiga foto com o filho.

— Para mim, essa é uma memória maravilhosa, foi uma das poucas férias que pude passar com o meu pai, e a foto reflete exatamente como eu me lembro dele. Ele era um cara muito cool, um verdadeiro excêntrico. Aquela foto fala por si só, e reflete o que o disco é, tanto nas letras quanto na música — diz. — Para o meu pai, não havia separação entre protesto e progresso. Quando o Dr. Martin Luther King Jr. foi assassinado (em 1968), ele pegou um ônibus do Sul da Califórnia até a Georgia para ir ao funeral. Essa experiência dele está no disco, porque eu perguntei muito sobre essa viagem e uma das coisas que ele me contou é que quando via os campos no Sul (onde os negros escravizados colhiam algodão) da janela do ônibus, isso sempre o fazia chorar.

Anos 80: ‘Era um casal que passou 15 anos fazendo amor o dia inteiro’, diz compositor Michael Sullivan sobre parceria com Paulo Massadas

O som intencionalmente retrô de “Bloodline maintenance” foi, para Ben Harper, a tentativa de chegar a “uma nova forma de ser tradicional”, com referências a Sly Stone, Marvin Gaye e Curtis Mayfield, astros negros que, meio século atrás, lançaram discos políticos e desafiadores (respectivamente, “There’s a riot goin’ on”, “What’s going on” e “Superfly”).

— Sly, Marvin e Curtis são os meus ídolos, os precursores do soul. E sei que eu tenho o direito, por causa da carreira que tive, de fazer justiça à influência que eles exerceram sobre o meu trabalho. Não há nenhum outro álbum meu em que a presença da obra deles possa ser sentida de forma tão forte — assegura o cantor. — Vejo todos os discos que você tem (aponta para a estante de LPs do repórter, vista através do Zoom) e tenho a certeza de que ele se encaixaria bem aí.

Uma particularidade do novo disco é que Ben Harper tocou sozinho a maior parte dos instrumentos:

— O problema com os músicos contratados é que eles trabalham contra o relógio... e sempre querem que seu instrumento soe mais alto do que o do colega. Eu sabia que só poderia chegar ao melhor resultado se mergulhasse sozinho nele, tocando o que eu ouvia na minha cabeça — conta ele.

Uma outra razão para Ben Harper ter resolvido gravar “Bloodline maintenance” quase que como uma banda-de-um-homem-só foi a morte, aos 62 anos, em junho do ano passado, de Juan Nelson — baixista, há 27 anos, da sua banda, os Innocent Criminals.

— Foi trágico e dramático, levei muito tempo até me recuperar. Outro dia fui jantar com o baterista dos Innocent Criminals, Oliver Charles. Ele me olhou nos olhos e disse: “Ben, acho que agora estou pronto para deixar de chorar e finalmente celebrar a vida de Juan. Mas só agora, um ano depois”. Comigo aconteceu o mesmo: só agora me sinto apto a levar a banda adiante — admite.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos