Bento XVI, o papa ultraconservador que se atreveu a renunciar

Sepultado nesta quinta-feira (5) após um funeral solene presidido pelo papa Francisco, no Vaticano, Bento XVI, falecido no sábado (31) aos 95 anos, entra para a história da Igreja por sua renúncia ao trono de Pedro em 2013, após um pontificado marcado por escândalos e intrigas.

Primeiro papa alemão da era moderna, Joseph Ratzinger substituiu em 2005 o carismático João Paulo II, de quem havia sido braço direito por um quarto de século como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício da Inquisição.

No início dos anos 1960, foi conselheiro nos trabalhos do Concílio Vaticano II (1962-1965), que modernizou e renovou a Igreja. Logo se alinhou, porém, com os setores conservadores da Cúria e liderou, com vigor, a luta contra a “Teologia da Libertação” na América Latina.

Eleito após um conclave relâmpago em 19 de abril de 2005, chegou a ser chamado de "rottweiler de Deus", por sua inflexível posição ante a Teologia da Libertação, baseada na realidade social da América Latina. Do trono de Pedro, lançou uma ofensiva mundial contra o aborto, a eutanásia e a legalização das uniões homossexuais.

E não se cansou de denunciar as tentações do mundo moderno.

Condenou o uso de preservativos na África e, em viagem em 2007 à América do Sul, causou indignação ao afirmar que a Igreja havia purificado os índios e que voltar às suas religiões de origem seria um retrocesso.

Nesse mesmo ano, com um polêmico documento papal, reabilitou a antiga missa em latim, proibida anos depois por seu sucessor, o argentino Francisco, “o que partiu seu coração”, revelou esta semana seu secretário particular, bispo Georg Gänswein.

"O relativismo (...) faz da experiência algo de fundamental importância", mas as experiências sem distinção do bom e do ruim levam "à confusão intelectual, à diminuição dos padrões e à perda do respeito próprio", disse ele em 2008, durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) na Austrália.

- Escândalos de pedofilia -

Quando a Igreja enfrentou uma enxurrada de acusações de abusos sexuais de menores cometidos por religiosos católicos em vários países, tomou a decisão de pedir perdão, preconizou "tolerância zero" e se reuniu com as vítimas.

Em 2012, enfrentou o escândalo "Vatileaks", como ficou conhecido o vazamento de documentos confidenciais que revelaram as intrigas e as divisões na Cúria.

Em 28 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou sua renúncia, a primeira de um papa em seis séculos, dirigindo-se em latim a uma audiência de cardeais perplexos.

Segundo a imprensa italiana, um relatório secreto de três cardeais escolhidos pelo papa "doente e sem forças" para investigar os vazamentos acabou convencendo-o de que era preciso alguém mais jovem, forte e enérgico para fazer uma limpeza na milenar instituição.

O próprio Ratzinger alegou "falta de forças" e se referiu, em suas últimas mensagens, às "águas turbulentas", nas quais teve de manter o comando de uma congregação religiosa de 1,2 bilhão de fiéis. Ao mesmo tempo, disse estar convencido de que Deus nunca permitiria que o barco da Igreja "afundasse".

- Aposentado, mas não invisível -

Após renunciar, Bento XVI prometeu manter um retiro absoluto, sem fazer sombra a seu sucessor, papa Francisco.

Esteve, no entanto, envolvido — em alguns casos, involuntariamente, segundo observadores — nas campanhas dos setores ultraconservadores que veem com maus olhos as aberturas do pontífice argentino na esfera social.

E, no início de 2022, foi atingido por acusações de que teria acobertado quatro casos de pedofilia, quando era arcebispo de Munique, entre 1977 e 1981.

Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927 em Marktl am Inn, na Baviera, em uma família muito católica. Seu pai era um gendarme da polícia.

Em 1943, aos 16 anos, foi recrutado, assim como todos os demais seminaristas de sua classe, como auxiliar de defesa antiaérea nazista. Em setembro de 1944, quando atingiu a idade exigida, teve de ingressar no Exército.

Em várias ocasiões, como cardeal e como pontífice, denunciou a "desumanidade" do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, dissipando suspeitas de cumplicidade.

Apesar disso, outros acontecimentos geraram polêmica sobre este mesmo tema. Um desses episódios foi em 2009, quando suspendeu a excomunhão de quatro bispos integralistas. Um deles, o britânico Richard Williamson, negou, publicamente, o Holocausto nazista, o que provocou a indignação da comunidade judaica.

Ratzinger foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1951 e passou a maior parte de sua vida religiosa dentro dos palácios do Vaticano. Sua única experiência pastoral foi como arcebispo de Munique, de 1977 a 1981.

Após a morte de João Paulo II, foi eleito pontífice em 19 de abril de 2005, após um Conclave que durou menos de 24 horas.

Sua figura reservada contrastava, porém, com os imponentes trajes litúrgicos antigos resgatados dos museus do Vaticano e o espetacular anel do Pescador que adorava usar.

Entre 2007 e 2012, publicou três livros com reflexões sobre a figura de Jesus Cristo e que se tornaram um sucesso de vendas internacional.

O 265º papa na história da Igreja visitou 20 países durante seu pontificado, entre eles o Brasil.

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