Berço de bambas, Lapa abre mais espaços embalados por música eletrônica

Gilberto Porcidônio
Roda de samba no Beco do Rato

Berço da boemia carioca, a Lapa tornou-se, na esteira da essência de sua própria história, o grande palco do samba na cidade, de onde saíram nomes como Teresa Cristina, Pedro Miranda, Alfredo Del-Penho e o grupo Casuarina. Mas aí, em 2017, o Bar Semente — uma referência no gênero musical — fechou as portas. No ano passado, foi a vez do Lapa 40 Graus... E o bairro foi dando mais espaço para outros ritmos (funk, pop, música eletrônica). E os bambas de carteirinha começaram a se perguntar: a Lapa estaria deixando o samba morrer?

Um dos sócios do Carioca da Gema, que vive de shows de samba há 20 anos no bairro, o empresário Thiago Cesário Alvim disse que a crise entre 2017 e 2018 chegou a atingir todos os estabelecimentos da região. Agora, com a retomada, ele afirma que a concorrência está bem maior, além do número de cantores e músicos, que aumentou bastante.

— Antes, eu reinava quase que sozinho, agora tem vários sambas só no mesmo metro quadrado, e temos uma expectativa positiva para este ano. Samba no Rio sempre dá certo, não tem como dar errado. Perdemos outras casas, mas não a noite. Essa é a retomada — disse Thiago, que também é presidente do Polo do Rio Antigo.

Mas será a que a música ‘‘mecânica’’, executada por DJs, estaria tomando o lugar do gênero genuinamente brasileiro? Para o DJ e produtor Júlio Trindade, que promove festas alternativas nas casas da Lapa, essa ideia é um tanto quanto exagerada.

— Se você andar na Lapa de noite, vai ver vários bares tocando samba e muitos espaços com funk, pop e afins. E eu te digo que a razão é quase 50/50. O samba perdeu espaço? Claro! Ele era praticamente dominante na Lapa no começo dos anos 2000 — afirma Júlio: — Mas o samba ‘‘perdeu’’ espaço como um todo na música brasileira. Hoje você tem o funk, o rap, o pop, o pagode...

Já o pesquisador cultural Leo Feijó, que foi subsecretário adjunto de Cultura e estudou a evolução cultural do bairro, tem uma visão diferente. De acordo com seu ponto de vista, o samba perdeu espaço assim como o choro, e a convivência entre os ritmos já foi mais harmônica:

— O produtor cultural Lefê Almeida (produtor musical morto em 2015, que batizou o Carioca da Gema) dizia que ‘‘a Lapa está qualquer nota’’. Lógico que ele era um purista, apaixonado por música brasileira, mas a convivência era mais saudável até pouco tempo. Rock, hip-hop e música eletrônica estão na Lapa desde os anos 1980, mas, nos últimos tempos, o funk e a música pop em geral passaram a dominar. Mais grave do que isso, a música ao vivo vem perdendo terreno. Nada contra o funk, mas o samba é fundamental — diz Leo Feijó.

Assim, apesar de ainda existirem, são poucas as casas do bairro que sobrevivem apenas se dedicando ao samba.

Ponto de resistência

O Beco do Rato é uma das exceções. Um ponto de resistência. A casa, que começou como um depósito de bebidas tocado pelo dono Márcio Pacheco, promove rodas de samba praticamente todos os dias, há 16 anos, e tem bombado muito entre novos e antigos fãs do samba. Filho de Márcio, Lúcio Pacheco investiu R$ 350 mil em reformas após a morte do pai, há cinco anos. Hoje, o espaço recebe até 400 pessoas nos dias mais cheios.

— A nossa identidade é essa, samba, e eu acho que a Lapa perdeu pelo desespero dos empreendedores em tentar resolver questões financeiras, colocando sertanejo, rock, forró — afirma Lúcio.

Apesar dos tamborins historicamente em baixa, há quem tenha investido mais no samba lapense. O restaurante Cortiço Carioca, por exemplo, existe desde 2010, quando restaurou um antigo cortiço de 1907 na Rua Joaquim Silva. O carro-chefe da programação é a roda de samba aos sábados.

— Sinto que o que diminuiu foi o público, com certeza, por causa da crise que se abateu sobre nós, mas os lugares tradicionais continuam — comenta o proprietário, Wallace Rosa.