Bernardo de Assis celebra a leveza de seu Catatau, em ‘Salve-se quem puder’: ‘Cansado de ver os trans no lugar do sofrimento’

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No ar em “Salve-se quem puder”, única novela inédita no ar na Globo, Bernardo de Assis faz história logo em sua estreia na teledramaturgia. Como o EXTRA revelou há uma semana, com exclusividade, o ator vai protagonizar no antepenúltimo capítulo da trama das sete, previsto para ir ao ar no dia 14 de julho, o primeiro beijo na TV entre um homem trans e uma mulher cisgênero. A paixão entre o office boy Catatau (papel de Bernardo) e a secretária Renatinha (Juliana Alves) será assumida também por ela, que se redime na reta final com esse amor. O ator comemora o pioneirismo e conta que o convite para o personagem o encantou também por tratar a transexualidade com leveza.

— Quando me apareceu a novela, fiquei nervoso, receoso se eu ia dar conta. Por Catatau ser um personagem trans e pelo meu histórico de trabalhos do tipo em filmes e séries, a produção de “Salve-se” chegou até mim. Era importante que fosse um ator trans a interpretá-lo para que essa representatividade efetivamente acontecesse. Em um contexto leve, cômico, de uma novela das sete, foi de uma sensibilidade absurda a equipe pensar em chamar um transexual — reforça Bernardo, continuando: — É importante que nossos corpos sejam naturalizados. Estou cansado de colocarem os transgêneros sempre no lugar do sofrimento, da violência. Não! Você pode simplesmente ligar a sua TV e ver um cara desastrado, apaixonado e, olha só, além disso, ele é trans! A gente precisa contar outras histórias.

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O carioca de 26 anos, nascido em Madureira e criado em Inhaúma, na Zona Norte do Rio, deu início a seu processo de transição há cinco anos. Sem referências durante a adolescência, diz que se sentia perdido quanto a sua identidade de gênero. E que se tivesse visto na televisão um personagem em que pudesse se espelhar, talvez sua trajetória existencial tivesse sido menos dolorida.

— Pode parecer pouco, só um detalhe, mas não é. Muda tudo. Você olha o Catatau e vê a minha pessoa ali, não tem como falar que não é um homem trans. No Brasil, as primeiras referências que a gente tem vem da TV. O poder das novelas é absurdo! Na minha infância, se eu tivesse tido visto um personagem trans, talvez a minha história tivesse sido diferente — reflete Bernardo, recordando-se da primeira vez em que assistiu a um papel LGBTQIAP+ no audiovisual: — Minha primeira referência de trans no cinema foi interpretada por uma mulher cisgênera (Hilary Swank), que ganhou o Oscar por esse filme, “Meninos não choram” (1999). Nele, o personagem termina assassinado. Eu pensava: “Eita! Será que eu não tenho outra possibilidade se eu for trans?”. E tenho, sabe? Daí a importância de mostrar outras narrativas. Que as pessoas olhem, entendam, respeitem.

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No dia em que o EXTRA divulgou o final feliz de Catatau e Renatinha na novela de Daniel Ortiz, Bernardo diz ter sofrido uma onda de ataques de ódio em suas redes sociais. Ele conta que toda vez que sua biografia vem à tona na mídia, recebe muitas ameaças:

— Eu já sofri violências físicas, mas não por conta do meu trabalho. Já apanhei de desconhecidos na rua há alguns anos, por causa do ódio gratuito e do preconceito de acharem que eu não tinha o direito de estar ali, dividindo o espaço com aquela pessoa. Hoje, não leio mais muita coisa. Mas já recebi ameaças de morte de gente com o meu endereço. Ao mesmo tempo, recebo tanta mensagem de carinho, de amor... Fico até emocionado. São mães, pais, avós que estão percebendo que suas crianças e seus adolescentes são trans e só querem conversar, tirar dúvidas. Os ataques e ameaças são pequenos em meio a essa chuva de carinho e de troca dessas pessoas comigo.

O ator e diretor acredita que se não estiver incomodando, não está cumprindo o seu papel social:

— Minha intenção, neste momento é incomodar, fazer com que as pessoas repensem os seus conceitos para que no futuro esse assunto já esteja mais naturalizado. Até hoje, algumas pessoas acham que a existência trans se resume às travestis, não sabem que existem homens trans. Quando se trata da transmasculinidade é ainda mais importante incomodar para que as pessoas se atentem para a nossa importância e a gente conquiste cada vez mais espaço.

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