Bessora, Carol Bensimon e Prisca Augustoni debatem desterro, exílio e pertencimento na Flip 2022

Liberdade, tema que atravessa a 20ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), voltou a ocupar espaço de destaque na Mesa 3, "A literatura em que habito". A conferência, que este ano homenageia Maria Firmina dos Reis, recebeu nesta quinta-feira três autoras marcadas por vidas em trânsito em diferentes países: Bessora (França, Gabão e Suíça), Prisca Augustoni (Suíça e Brasil) e Carol Bensimon (EUA e Brasil).

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Questões como desterro, exílio e pertencimento, que transbordam em suas obras, foram discutidas na Tenda da Matriz. O encontro, o primeiro da tarde, foi mediado pela escritora e professora Noemi Jaffe.

– Minha mãe nasceu em Alexandria, no Egito, e foi expulsa com outros judeus sefarditas pelo governo Nasser para um país desconhecido. Sou produto do exílio e isso tem várias consequências: inclusive na minha escolha de ir para os EUA – afirmou Carol, autora de "Diorama" (Cia. das Letras).

A crise de refugiados na Europa, que se intensificou no início dos anos 2010 e perdura até os dias de hoje, inspirou Prisca Augustoni a produzir os poemas de "O mundo mutilado" (Quelônio), foi debatida pelas autoras em diversos pontos da mesa – inclusive a partir de perguntas do público.

– Quando me propus a refletir sobre a condição dos refugiados, quis pensar sobre a fuga. Quis pensar em todos que almejam salvação – contou Prisca.

Autora prolífica, que produz em média um livro por ano, Bessora contou o processo criativo de seu romance mais recente "Os Órfãos" (Relicário Edições). Ela viajou para a África do Sul para investigar histórias de crianças traficadas em um conluio internacional que envolveu os regimes nazistas e do apartheid.

– Não escolhi ser desterrada. Nasci na Bélgica, filha de um gabanês e de uma suíça. Caí nisso tudo quando era pequena. Não sei se isso me deu liberdade total, mas como escritora pude exercer empatia e liberdade de expressão. Pude viver e sentir experiências de pessoas que não sou. Não sou órfã nem descendente de nazistas, mas viajei até a África do Sul para conseguir contar essa história.