Betty Milan, escritora e psicanalista eleita para a Academia Paulista de Letras, tem posse marcada para 31 de março

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“Tendo em vista que só há quatro mulheres na Academia e nenhum psicanalista, trata-se de uma conquista”. É assim que a escritora e psicanalista Betty Milan, autora de romances, crônicas, ensaios e peças de teatro publicados no Brasil e no exterior, fala de sua chegada à Academia Paulista de Letras, para a qual foi eleita dia 9 de dezembro (com votos de 36 dos 38 membros). Nascida numa família de libaneses no centro de São Paulo, Betty iniciou a carreira literária com a publicação do romance “O Sexophuro” (1981), saudado pela crítica paulista. Agora passa a integrar, ao lado de Lygia Fagundes Telles, Maria Adelaide Amaral e Ruth Rocha, o seleto grupo de acadêmicas da entidade.

— Gilberto Freyre dizia ser um escritor de formação sociológica sistemática e eu sou uma escritora de formação psicanalítica sistemática. Acredito que tenha sido eleita pela obra literária e pela importância da psicanálise no mundo contemporâneo — comenta a autora de 27 livros, cuja posse está marcada para o dia 31 de março. — A Academia defende valores humanistas nos quais me reconheço. Preconiza o respeito pelo próximo e a harmonia entre os integrantes, “requisito básico para a sua sobrevivência”, como dizia o historiador Célio Debes, cuja cadeira, a número 4, passarei a ocupar.

Antes de estrear nas letras, Betty graduou-se pela Faculdade de Medicina da USP e formou-se em psicanálise em Paris, orientada por Jacques Lacan, de quem foi assistente. Sobre este período, publicou em 2021 “Lacan ainda” (Zahar), livro em que dá um testemunho da análise que fez com o Doutor, entre 1973 e 1978.

— A análise com Lacan não me curou da angústia, mas mudou a minha vida. Permitiu-me aceitar as minhas origens, o meu sexo biológico e me tornar mãe — reflete a escritora, que desempenhou importante papel na difusão da teoria lacaniana no Brasil.

Para ela, o encontro com o mestre foi um marco decisivo em sua carreira literária e influenciou a publicação de um de seus maiores sucessos, o romance “O papagaio e o doutor” (1991), que narra a saga da imigração libanesa no Brasil, traduzido em diversos países. Em sua obra são recorrentes temas como o amor, paixão, erotismo, a diáspora, Paris e a cultura francesa — em duas ocasiões, foi convidada de honra do Salão do Livro de Paris. Em sua autobiografia “Carta ao filho” (2013), ela reflete sobre estes temas sem filtros nem autoindulgência.

Betty trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado em Estrasburgo. A partir da década de 1990, colaborou com os principais veículos da imprensa brasileira, perseguindo o objetivo de levar a psicanálise ao conhecimento do grande público.

Como ensaísta dedica-se à cultura popular, escrevendo sobre o futebol, o carnaval e a “cultura do brincar” na sociedade brasileira. Publicou séries de entrevistas com escritores, artistas e pensadores como Nathalie Sarraute, Octavio Paz, Michel Serres, Jacques Derrida e Françoise Sagan.

Entre seus livros de crônicas destacam-se “Paris não acaba nunca” (1996) e “Quando Paris cintila” (2008). Entre os romances estão os títulos “A paixão de Lia” (1994), “O clarão” (2001), “Consolação” (2008), “A mãe eterna” (2016) e “Baal” (2019).

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