Bezerros resgatados em Cunha (SP) sofrem para se recuperar de maus-tratos

***ARQUIVO***CUNHA, SP, 05.05.2022 - Cerca de 300 bezerros que haviam sido encontrados totalmente abandonados, sem água e desnutridos, em uma fazendo na cidade de Cunha, no interior paulista. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO***CUNHA, SP, 05.05.2022 - Cerca de 300 bezerros que haviam sido encontrados totalmente abandonados, sem água e desnutridos, em uma fazendo na cidade de Cunha, no interior paulista. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os mais de 300 bezerros resgatados em Cunha, no interior de São Paulo, no início deste ano, ainda não conseguiram se recuperar dos maus-tratos sofridos em uma fazenda. Alguns dos animais já até ganharam peso, mas ainda estão longe do ideal, segundo seus novos tutores e veterinários que acompanhar os bovinos.

Diante do quadro, os bezerros e bezerras, que deveriam seguir para um santuário em Camanducaia, Minas Gerais, só devem ser transportados no final do ano, entre novembro e dezembro, minando a expectativa de deixarem o estado de São Paulo ainda no primeiro semestre.

"Quando eles estiverem totalmente recuperados e os machos, castrados, eles serão transportados. O transporte causa muito estresse para o animal. Vai para um ambiente novo, com cheiro novo, por isso é importante deixá-los bem", disse à Folha o médico-veterinário Maurice Gomes Vidal, 31, responsável técnico pelo cuidado dos bezerros.

"A gente resgatou eles pele, osso e carrapato. Dava agonia de ver. Tinham muitos mortos na lama", descreveu Maurice sobre o que viu durante o resgate.

Atualmente, 317 animais, sendo 187 machos e 130 fêmeas, a maior parte deles com idade média entre 9 a 12 meses, de acordo com os veterinários, vivem na Fazenda São Geraldo, na área rural de Cunha, uma pacata cidade do interior de São Paulo, que faz divisa com Paraty (RJ).

Os animais foram encontrados no dia 2 de fevereiro na fazenda Roça Grande, também em Cunha, "em meio à lama, sem comida, água ou abrigo, já em estado de desnutrição", segundo descrição da diligência feita pelo Escritório de Defesa Agropecuária de Guaratinguetá e da Polícia Militar Ambiental.

À época, a Justiça determinou o bloqueio de bens no valor de R$ 3 milhões da empresa Mashia Agropecuária. Ela é suspeita de submeter os bezerros a maus-tratos em uma fazenda de engorda de gado.

À Folha o proprietário da empresa, Tanagildo Aguiar Feres Junior, negou as denúncias, além de afirmar passar por dificuldades financeiras após o bloqueio dos bens, o que tem impedido a empresa de voltar a exercer suas atividades.

"Não havia animal em maus-tratos. Havia, sim, animais magros, doentes, que não excediam 10% do rebanho, e que não justificava a prática de todas as arbitrariedades que foram cometidas", disse.

Feres Junior culpou as condições climáticas pelo "prejuízo de infraestrutura".

A reportagem acompanhou a imunização dos animais contra aftosa e raiva na última quinta-feira (5), que também foi assistida pela Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo.

O que se pôde notar foram animais ainda magros, muitos ainda arredios à presença humana, mas que já podem correr por seus piquetes, além de receber suplementos alimentares e vermifugação contra parasitas.

Um dos responsáveis pela recuperação dos animais, Maurice celebrou o ganho de peso de até 30 kg pelos bezerros de menor porte e de até 60 kg pelos bovinos de tamanho grande. Mas ele ainda vê como distante uma vida totalmente saudável para todos.

Para que possam ganhar peso rapidamente, o especialista afirmou que, além do pasto, dieta natural dos bovinos, está sendo servido suplemento alimentar.

Ele apontou que a falta de alimentação no passado pode ser comprovada por meio de de exames. "Os animais que vieram a óbito foram levados para a USP, para necropsia. Na necropsia apareceu que passaram por um período de fome", explicou. A reportagem procurou a universidade, mas não recebeu resposta.

Após deixar a Fazenda Roça Grande, os bichos foram levados até um recinto de exposições da prefeitura, onde permaneceram por um mês, até que fossem transportados de caminhão à Fazenda São Geraldo, de cerca de 80 alqueires, destinada à ordenha de leite.

Segundo Vitor Favano, 59, fundador da ONG Santuário Vale da Rainha, com sede em Camanducaia, instituído pela Justiça como tutor dos animais, os custos com aluguel da fazenda, alimentação e medicação estão sendo bancados por meio de doações.

Foi montado um hospital de campanha, onde os bovinos mais debilitados recebem atendimento. Os cuidados estão sob a responsabilidade da médica-veterinária Katarina Souza, 29. "Muitos tiveram uma resposta bem positiva, mas [devido ao] período que passaram fome, o organismo ainda não responde rápido", disse. Atualmente, 12 animais estão sob supervisão direta.

Outro lado

O proprietário da Mashia Agropecuária, Tanagildo Aguiar Feres Junior, negou a falta de alimentos para os animais, que, segundo ele, foram removidos jovens e estavam iniciando um processo de recuperação.

"Eles recebiam um tipo de alimentação e, quando foram removidos da propriedade, eles passaram pelas mãos de, pelo menos, dois depositários fiéis diferentes, sendo que a mudança de alimento desses animais influiu muito no ganho de peso deles."

O pecuarista disse que, mesmo com balanças em sua propriedade, os ativistas que participaram do resgate teriam se recusado a pesar os animais, o que poderia mostrar se realmente estavam magros e se agora estão respondendo ao tratamento.

Feres Junior confirmou ter recebido uma multa de cerca de R$ 900 mil, além de ter tido seus bens bloqueados pelos possíveis maus-tratos aos animais. "A gente já entrou com recurso, a primeira proposta de acordo da Polícia Militar Ambiental foi em R$ 300 mil, o que ainda assim seria absurdo. A gente está recorrendo, usando todas as instâncias possíveis para poder corrigir esse absurdo."

Ele afirmou ter sido vítima de "armação". "Toda essa operação foi uma armação, e ela aconteceu no momento mais adequado, que era o momento onde a incidência de chuvas é maior, no momento em que havia um prejuízo de infraestrutura, que foi o que ocasionou todo esse caos, lamentavelmente."

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que o caso é investigado pela Delegacia de Cunha. "A equipe da unidade aguarda oitivas e laudo pericial para a conclusão do inquérito policial e encaminhamento à Justiça."

Búfalas de Brotas O possível maus-tratos aos bezerros em Cunha é semelhante ao episódio das búfalas e búfalos encontrados debilitados em uma fazenda em Brotas, também no interior de São Paulo. Inclusive, esses animais são tratados também pelo veterinário Maurice Gomes Vidal.

O caso foi descoberto em novembro do ano passado, quando cerca de mil animais foram encontrados na Fazenda Água Sumida.

"As búfalas ainda estão localizadas na fazenda que foi 'laudado' os maus-tratos, como é um rebanho muito grande, elas estavam e ainda estão debilitadas. Lá, o tempo estimado para a recuperação delas é de 2 a 5 anos", explicou Maurice.

O proprietário da Fazenda Água Sumida, o fazendeiro Luiz Augusto Pinheiro de Souza, continua preso, segundo seu advogado, José Luis Mendes de Oliveira Lima. "Está internado, porque o estado de saúde dele requer cuidados. Nós estamos recorrendo dessa decisão da detenção dele, pois entendemos que não há nenhum motivo, nenhum fato concreto, que justificasse essa medida extrema."

O advogado também disse que ingressou com recursos possíveis para garantir a proteção dos animais.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que o inquérito policial foi concluído e relatado ao Poder Judiciário.

Conforme o processo judicial, está agendado para o próximo dia 13, prova pericial particular nos animais.

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