BH terá esquema de corujão na saúde e contraturno nas escolas, diz novo prefeito

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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Foco na saúde e na educação, sem pensar na disputa eleitoral de 2022. Assim pretende governar o novo prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD), que assumiu a capital mineiro no último dia 29.

Ele substitui Alexandre Kalil (PSD) que deixou o comando da cidade para se dedicar à pré-campanha ao governo de Minas Gerais, hoje comandado por Romeu Zema (Novo).

Fuad afirma que a pandemia atrasou a cidade em dois anos, e que os principais gargalos estão na saúde, com 30 mil cirurgias eletivas represadas, e na educação, com defasagem no aprendizado dos alunos.

O prefeito declarou apoio a Kalil nas eleições de 2022, mas afirma que não faz campanha para ninguém. "Participo deste governo desde o primeiro momento. Se eu achar ruim, a culpa é minha", dise Fuad à Folha, na prefeitura, na última segunda-feira (18).

PERGUNTA - O senhor acha que assumiu a cidade em um momento que poderia ser pior, pós pandemia?

FUAD NOMAN - Vencida, se Deus quiser, a pandemia, a gente tem que voltar os projetos em que estávamos. Foram dois anos em que gastamos tudo o que tínhamos no tratamento da pandemia. Não diria que esse é o momento melhor ou pior. Melhor do que a pandemia em qualquer situação, é. Estamos retomando 2019 com os problemas gerados pela pandemia.

O problema das escolas. Os alunos estão defasados em dois anos. Eu vou ter que fazer um projeto todo especial para recuperar essas crianças. Dar um contraturno, dar outro tipo de aula. Em síntese, temos hoje 50 mil crianças para fazer isso. Qualquer movimento de duplicar carga horária de 50 mil crianças é um problema grave.

P. - O que pretende fazer?

FN - O grande objetivo é colocar no contraturno pelo menos aulas de português e matemática, que são as mais necessárias nessa faixa etária. No caso da saúde é a mesma coisa. Nós tínhamos uma demanda de cirurgias eletivas até 2019, e que já vinha com um algum atraso por uma série de motivos, e que, com a pandemia, parou completamente. E hoje nós temos uma fila imensa de pessoas que têm necessidade de cirurgias e que não fizeram. Por uma série de razões mas, principalmente, porque não tinha vaga em UTI.

P. - E qual seria a saída?

FN - Aqui vamos contratar hospitais particulares. Fazer parcerias com esses hospitais no sentido de fazer cirurgias à noite, fazer um corujão, encontrar horários em que os hospitais tenham uma ociosidade, e preencher essa ociosidade. São mais de 30 mil cirurgias que precisam ser feitas.

P. - Quando serão suspensas as últimas medidas de combate ao vírus em BH?

FN - Para os adultos, temos quase que 100% da população vacinada com duas ou três doses. Entre as crianças temos só 30% com duas doses. Isso é um perigo para nós, com essas crianças na escola. Então isso está atrapalhando um pouco de liberar a questão da máscara.

Todas as vezes que falo com a imprensa faço isso. Preciso insistir com os pais. Levem as crianças para vacinar. A vacina é segura, a vacina é boa. Quem está ficando internado é quem não vacinou. Mas vai chegar um momento que não dá mais. Não posso sacrificar a população toda por um grupo de pais que não querem vacinar os filhos. Eles têm que assumir a responsabilidade.

P. - Como o senhor avalia a administração do ex-prefeito Alexandre Kalil (PSD)?

FN - Participei dela toda. Se eu achar ruim, a culpa é minha. Acho que o Kalil fez um belo trabalho. As pessoas criticam muito o Kalil porque fechou o comércio. Fechou o comércio para salvar vidas.

P. - O senhor se aproximou de inimigos declarados do ex-prefeito, como Zema e a presidente da Câmara dos Vereadores, Nely Aquino. Isso pode te afastar de Kalil?

FN - Não. Em primeiro lugar, é o seguinte: o problema do Kalil com o governador e com a Câmara era meramente político. É problema de campanha. Os dois [Zema e Kalil] concorrem no mesmo processo e nós estamos aqui. Não sou candidato a nada.

P. - No caso da Câmara também tem a ver com eleição?

FN - Também tem. Se você olhar, mais da metade dos vereadores são candidatos a deputado federal ou estadual. São pessoas de outros partidos que estão lutando pelo seu espaço político, o que é legítimo. O Kalil não tem nada de pessoal contra ninguém. Tenho certeza disso, mas naquele momento acaba tendo conflitos. Eu vou no governador? Claro que vou.

O senhor e o governador tiveram um encontro há dez dias na Cidade Administrativa. Ele te convidou? Ele me convidou para tomar um café. Nenhum município do Brasil, por mais rico que seja, sobrevive sem apoio do estado e do governo federal. Não tem jeito. As contas não fecham.

Qual o principal defeito do ex-prefeito Kalil?

É um grande administrador. É uma pessoa que tem um coração gigante. Às vezes tem um estopim menor que poderia ter. É um gerente. Tem uma inteligência grande e percebe claramente os caminhos que precisa fazer.

O senhor vai fazer campanha para o Kalil? Campanha não faço para ninguém. O prefeito de Belo Horizonte não faz campanha. O máximo que eu vou fazer para o Kalil é votar nele.

E se fosse para o senhor fazer campanha para um candidato à Presidência da República, quem escolheria? Não faço campanha para presidente da República. Prefeito não faz campanha. Você tem que entender isso.

P. - O senhor vai se candidatar à reeleiçâo?

FN - Isso não está em cogitação nesse momento. Não discuto isso. Meu propósito é arrumar a cidade, trabalhar pela cidade. Se chegar lá na frente, tiver saúde, tiver ânimo, vou pensar. Quero ter o direito de escolher, se fico ou não. Mas lá, agora não.

P. - Qual a situação financeira da prefeitura?

FN - A prefeitura entrou na pandemia com a despensa cheia. Nós assumimos a prefeitura (em 2017) com um déficit de R$ 600 milhões em dívidas para pagar. Tivemos que pagar essas dívidas todas. No segundo ano de governo, o governador parou de transferir o dinheiro do ICMS, do Fundeb e do IPVA. Ficamos com um buraco grande aqui em 2018.

Em 2019 começamos a tentar recuperar. Então, se nós não tivéssemos com a nossa administração financeira equilibrada, nós tínhamos sucumbido. Hoje não temos dívida nenhuma.

Em 2020 o governo federal fez bons aportes aos municípios. E aquilo resolveu, apesar de 2020 ter sido o ano mais difícil que vivemos. Em 2021 não deu mais nenhum recurso, mas como já tínhamos montado a estrutura praticamente toda (de combate à pandemia) nosso custo foi suportado diretamente pelos nossos recursos. E vamos chegar ao final do ano com um pequeno superávit.

P. - O senhor tem formação na área da economia, foi secretário de Fazenda, e tem passagem pela literatura. De onde tirará inspiração para governar?

FN - Dos números ou da literatura? É claro que é dos números. Nossa senhora! Se eu for sonhar aqui com a literatura... na literatura você tem uma vantagem. Você manda no personagem. Personagem encheu o saco, você mata ele. Acabou, resolveu o problema dele. Personagem precisa de alguma coisa, você dá um emprego bom para ele, melhora a vida dele, ganha na loteria.

Tem partes aí que poderiam até estarem relacionadas ao ato de governar. O problema é que na vida real, é vida real. Você não comanda o personagem. Ali (ao governar) não é um personagem, é uma pessoa. Então, é diferente.

Raio-X Fuad Noman, 74

Formado em ciências econômicas, nasceu na própria capital mineira e no primeiro mandato de Alexandre Kalil (2017 a 2020) foi secretário de Fazenda de Belo Horizonte. Também é escritor --um de seus livros, "O Amargo e o Doce", fala sobre o povo mineiro na figura do personagem Cadim.

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