Biólogo pró-cloroquina é cotado para assumir comissão que avalia tratamentos do SUS

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 19.10.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) durante cerimônia de assinatura de atos após encontro com o presidente colombiano, Iván Duque, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 19.10.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) durante cerimônia de assinatura de atos após encontro com o presidente colombiano, Iván Duque, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em novo movimento para minar diretrizes contrárias ao uso do kit Covid no SUS, o governo Jair Bolsonaro (PL) estuda nomear o biólogo Regis Bruni Andriolo para comandar a Conitec, órgão ligado ao Ministério da Saúde que avalia tratamentos da rede pública.

O pedido de troca no comando do colegiado foi feito pelo secretário Hélio Angotti Neto, subordinado do ministro Marcelo Queiroga.

Se confirmada, a mudança ocorre no momento em que o ministério trava a publicação de pareceres que contraindicam o uso de medicamentos sem eficácia para a Covid, como a hidroxicloroquina.

Esses textos foram aprovados em junho e dezembro de 2021 pela Conitec, mas a publicação das diretrizes está sendo postergada pela Secretaria de Ciência e Tecnologia da pasta, comandada por Angotti, para evitar uma mancha às bandeiras negacionistas do governo Bolsonaro.

A comissão hoje é chefiada pela servidora Vania Cristina Canuto, que votou a favor dos textos anti-kit Covid. Como reação, Angotti já pediu a exoneração dela do cargo de diretora do DGITIS (Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde), área que comanda a Conitec.

Queiroga sinalizou a colegas que não demitiria Canuto, mas auxiliares do ministro avaliam que a saída da servidora ganhou força após ele e Angotti gravarem um vídeo juntos no último dia 7. O secretário de Ciência e Tecnologia é médico, defensor das bandeiras bolsonaristas, como o kit Covid, e seguidor do escritor Olavo de Carvalho.

Procurado, o ministério não respondeu sobre a indicação de Andriolo e disse apenas que Canuto comanda hoje a Conitec.

Além de apoiar o tratamento com medicamentos como a hidroxicloroquina, Andriolo assinou nota contrária à vacinação obrigatória contra a Covid-19. Ainda aconselha o governo em discussões sobre a vacinação, inclusive de crianças, segundo autoridades que acompanham o assunto.

O biólogo é professor do Departamento de Saúde Comunitária da UEPA (Universidade do Estado do Pará).

Andriolo foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Ele é próximo da secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro, conhecida como "capitã cloroquina", e de Angotti. Em maio de 2021, ajudou Pinheiro a se preparar para a CPI da Covid.

Num vídeo que a reportagem teve acesso, ela pede a Andriolo que prepare algumas perguntas para que ela possa enviar para os senadores fazerem para ela.

Pinheiro perguntou ao pesquisador se havia estudo que serviria de "bala de prata" para provar à CPI a eficácia da hidroxicloroquina e da ivermectina.

Em resposta, no vídeo, Andriolo respondeu: "Pois é. Cade o estudo precoce, né? Esse é o problema. Não tem. Então, não tem esse estudo".

Andriolo, Pinheiro e Angotti participaram da conversa que antecedeu a ida da secretária à CPI. Na mesma ocasião, ela sugeriu que poderia arrumar um cargo para biólogo na Saúde, mesmo ele não tendo sinalizado se tinha ou não interesse em trabalhar na pasta.

Segundo integrantes do governo, Andriolo faz parte de um grupo de pesquisadores pró-tratamento precoce que aconselha o Ministério da Saúde. Ele também elaborou pareceres ao Ministério Público a favor do uso destes medicamentos.

O biólogo chegou a fazer parte de discussões do grupo de trabalho que produziu o parecer à Conitec que contraindica o kit Covid, mas pediu para deixar este debate após a divulgação do vídeo orientando a "capitã cloroquina".

Também participou de uma audiência pública realizada na Conitec para ouvir especialistas sobre o tratamento ambulatorial da Covid.

O debate ocorreu mesmo depois de o colegiado ter rejeitado o uso do "kit Covid" para pacientes com suspeita ou diagnóstico de Covid. Os medicamentos, como cloroquina e ivermectina, não têm eficácia contra a doença.

"Os estudos atuais, que são os melhores, ainda têm problemas. Todos eles desfavorecem a hidroxicloroquina", disse Andriolo na audiência.

A diretriz sobre tratamento hospitalar foi aprovada em junho na Conitec. Já o parecer sobre o manejo ambulatorial, ou seja, de casos leves, foi aceito em dezembro, após impasse e tentativa do governo de implodir o debate.

Autoridades que acompanham o trabalho da Conitec avaliam que a troca de comando é mais um movimento do governo para esvaziar as discussões que contraindicam o kit Covid.

Estas mesmas fontes avaliam que o grupo pró-cloroquina pode refazer a votação no colegiado e tentar virar o placar sobre o parecer da diretriz de tratamento da Covid no SUS.

Em dezembro, a votação que rejeitou o kit Covid teve placar apertado, de 7 a 6. O placar poderia se inverter com a retirada de Canuto e nomeação de nome alinhado ao governo.

Outro caminho seria rejeitar o parecer da Conitec. A primeira decisão deste tipo pode ser tomada por Angotti, que comanda a área de Ciência e Tecnologia. Neste caso, se houver recurso, a decisão final é do ministro Marcelo Queiroga.

No comando da Conitec, o biólogo também teria poder de pedir a avaliação de tecnologias ao SUS. Estas análises são feitas por núcleos técnicos ligados a universidades.

As manobras podem ter efeito limitado, dizem integrantes do governo, pois o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), deu até o fim de janeiro para o Ministério da Saúde apresentar diretriz e protocolo de tratamento da Covid, em ação apresentada pelo partido MDB

Além de postergar a publicação das diretrizes, Angotti acionou a CEP (Comissão de Ética Pública), órgão ligado à Presidência da República, para investigar parecer aprovado no colegiado.

Ao assumir o Ministério da Saúde, em março de 2020, Queiroga anunciou que promoveria o debate na Conitec para encerrar a discussão sobre o uso do kit Covid.

Ele indicou o médico e professor da USP Carlos Carvalho, contrário aos fármacos ineficazes, para organizar um grupo que iria elaborar os pareceres.

Queiroga, porém, modulou o discurso e tem investido na pauta bolsonarista para se agarrar ao cargo. Ele passou a evitar o tema do kit Covid, ainda que admita a colegas que não vê benefícios no uso destes medicamentos.

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