Bia Figueiredo quer mais mulheres acelerando no automobilismo

Bia Figueiredo (Foto: Rafael Gagliano)
Bia Figueiredo, 37, é um nome respeitado no automobilismo brasileiro, primeira brasileira a pilotar na tradicional Fórmula Indy (Foto: Rafael Gagliano)

Bia Figueiredo, 37, é um nome respeitado no automobilismo brasileiro, primeira brasileira a pilotar na tradicional Fórmula Indy, primeira mulher do mundo vencedora na Firestone Indy Lights, única a vencer na Fórmula Renault, segue sendo a única a conquistar uma pole position na Fórmula 3. Além destas marcas é também a primeira brasileira que participou no grid e disputou as 500 Milhas de Indianópolis e um campeonato completo de Fórmula Indy.

Para obter tal currículo, Figueiredo começou sua carreira aos oito anos de idade e no momento segue competindo no Stock Car. Sabendo de como é difícil o acesso de garotas no automobilismo, em especial as vindas de classes mais baixas, segue trabalhando para tornar o esporte mais acessível para tal setor da sociedade.

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Em 2020, fez uma pausa para a maternidade e se viu vítima de mensagens de ódio para ela e seu bebê em decorrência da polarização e crises políticas que assolam o Brasil. Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, Figueiredo fala de sua trajetória nas pistas, os planos para inserir jovens talentos femininos no esporte, como lidou com a negatividade nas redes sociais e cuidados para sua saúde mental.

Yahoo Esportes: Como surgiu a ideia de incentivar a participação feminina no kart brasileiro?

Bia Figueiredo: Em 2013, enquanto estava na Formula Indy, entrei para um projeto chamado “Red Shoe Movement” nos EUA. Ele une mulheres com o propósito de elas se ajudarem em suas carreiras. Isso me deu um click, pois se eu não ajudasse novas meninas a entrarem para o automobilismo, ninguém iria ajudar.

Você iniciou no kart aos oito anos. Quais as diferenças que denota do seu início para as garotas que começam hoje?

Quando iniciei no kart em 1994, o ambiente era ainda mais hostil para mulheres. As pessoas me olhavam com um olhar preconceituoso, tipo: “o que essa menina está fazendo aqui?!”.

Acredito que hoje seja mais aberto, pois eu e outras pilotos mulheres já criamos uma referência. Hoje, elas sabem que é possível!

Mas ainda acredito que as garotas tenham dificuldade na pista, pois ninguém quer perder, e muito menos querem perder para elas.

As dificuldades que enfrentou nos tempos de kart foram encontradas em outros estágios da sua própria carreira? Elas persistem?

Se você estiver falando do preconceito, enquanto estava correndo no Brasil, eu tive sim. Do Kart, na Formula Renault até a Formula 3 convivia com muitas fechadas, toques evitáveis, e etc... Na Stock Car, um pouco, mas é uma categoria que os toques são frequentes com todo mundo, e nessa categoria eu já carregava uma história de muito respeito e conquistas. Então foram pesos diferentes.

Nos EUA o mundo é outro. Os pilotos homens não estão nem aí se você é mulher. O tratamento é igual.

O que posso dizer é que a maior dificuldade para mim e qualquer piloto sendo homem ou mulher é a parte financeira. O esporte é caríssimo, pois os carros são caros. Então esse é o limitador em qualquer fase da carreira até você ter seus patrocinadores e ser um piloto contratado.

Você chegou à Fórmula Indy, uma das mais tradicionais instituições do automobilismo mundial. Como foi sua jornada para alcançar este sucesso em sua carreira?

Foi uma jornada de muito trabalho e dedicação. Desde os oito anos, quando comecei a correr, sabia que era isso que queria fazer da minha vida. Isso é um privilégio. Quando criança, eu não imaginava as centenas de dificuldades que teria que enfrentar. Quantas vezes achei que seria minha última corrida, mas aí algum anjo aparecia e abria uma nova porta. Foram nove anos no Kart onde conquistei uma série de vitórias e títulos. Fui para a Fórmula Renault, disputei o título em 2005, e fui a primeira mulher no mundo a vencer na categoria. Igual na Indy Lights, em que venci duas corridas e disputei o título em 2008. Isso me deu a oportunidade de chegar ao meu objetivo, meu sonho de correr em uma categoria top mundial, no caso foi a Formula Indy. Nunca uma brasileira chegou a esse nível.

Em todos esses 16 anos do início até a Indy me dediquei 100% ao automobilismo, abri mão de uma vida normal de jovem, pois tinha esse grande objetivo, e sou muito grata e orgulhosa de todas essas conquistas.

Outro momento em sua carreira veio em 2014 ao se tornar a primeira mulher a disputar uma temporada da Stock Car, principal categoria do automobilismo brasileiro. Qual o significado da sua entrada na Stock Car aos seus olhos?

Após alguns anos fazendo algumas corridas na Indy, o meu patrocinador na época me sugeriu correr na Stock Car. Seria a minha primeira experiência em carros de turismo na maior categoria nacional com grandes pilotos de várias gerações. Esperava lutar por vitórias, mas a minha adaptação foi difícil. A maioria dos pilotos que vem do Fórmula tem essa dificuldade na Stock. Só olhar quanto tempo alguns pilotos de Fórmula demoraram para ter bons resultados na categoria para entender o nível de competitividade. Fizemos 3 tops 5, e consegui um 4º lugar em Londrina, em 2019. Pela competitividade que a categoria tem eu entendo como resultados expressivos.

Hoje muito se é debatida a questão da saúde mental dos atletas. O que considera sobre este assunto?

Por ter sido uma mulher correndo só com homens, e carregar essa responsabilidade da representatividade, eu aprendi a não demonstrar sentimentos e a não chorar em público. Eu queria que as pessoas vissem como uma mulher é forte, como pode pilotar, como é profissional. Eu sabia o peso que carregava. Se chorasse, é porque era fraca para o esporte. Se saísse esperneando, seria considerada desequilibrada demais. Tudo teria um peso diferente dos homens. Pela primeira vez, vi pilotos e atletas deixando de competir, pois não estavam bem psicologicamente. Isso é uma grande mudança. Na minha época isso era impensável. Se estava se sentindo mal ou com medo, tinha que ir com medo mesmo. Mesmo tendo problemas gigantescos, nunca deixei de competir.

Outra questão atual que inclusive afeta a saúde mental é o assédio que atletas sofrem, inclusive mensagens de ódio e em alguns casos contendo matizes de preconceitos. Como lida com isto?

As mídias sociais criaram um patamar de comunicação. Um piloto nos anos 90 era inacessível. Só por carta ou indo nas corridas e ter a sorte de conseguir um autógrafo. Hoje você pode ter uma reposta muito mais fácil nas mídias sociais, porém assim como chegam mensagem de apoio, chegam mensagens negativas de cunho preconceituoso ou até de ódio.

Eu sempre tive ótimo relacionamento com fãs e raramente recebia mensagens negativas. Porém, em 2020, quando citaram meu nome em uma investigação sobre a família do meu esposo, eu senti o terror de ser ameaçada de morte e de me chamarem de adjetivos que nunca pensei em receber. A exposição midiática do caso, sem ninguém nunca ter sido questionado de absolutamente nada, virou minha vida de cabeça para baixo. Naquele momento, eu estava entrando no meu nono mês de gravidez. Tive que sair das mídias para focar no meu bebê e na minha saúde mental. Poucas mídias fizeram questão de falar a verdade, de que eu não era parte do processo. Não faço e nunca fiz parte de qualquer processo criminal em minha vida e nunca fui, até hoje, questionada pela justiça sobre os fatos absurdos expostos.

Porém, essa experiência terrível só me fortaleceu. Quando recebo alguma mensagem desrespeitosa ou negativa eu só bloqueio e não ligo. Quero só boas energias em minha vida.

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