Bicampeonato: entenda o sucesso da Ferroviária na Libertadores Feminina

Carol Knoploch
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Trabalho longevo, suporte e ousadia. Esse tripé, segundo Carolina Valim de Melo, coordenadora de futebol da Ferroviária, ajuda a explicar o sucesso do time feminino que na noite de domingo conquistou o bicampeonato da Libertadores. A Ferroviária venceu o América de Cali, da Colômbia, por 2 a 1, em jogo sofrido, no José Amalfitani, em Buenos Aires. A equipe de Araraquara (277 km de São Paulo) já havia levantado a taça em 2015. Em 2019, chegou à final, mas foi derrota pelo Corinthians, o qual havia vencido na decisão do Brasileirão da mesma temporada. A equipe chegará no interior de São Paulo na noite desta segunda-feira.

— A Ferroviária não tem medo de investir em mulheres. Somos um dos clubes que mais forma atletas e profissionais do futebol feminino. Estamos sempre à frente — avalia Carolina, ao enumerar iniciativas pioneiras como a profissionalização das jogadoras e a opção por contratos longos, com carteira assinada — Esse é um trabalho longevo, que começou há vinte anos, que investe na base e que recebe muito suporte. Tanto do clube quanto da cidade de Araraquara.

Carolina é uma das integrantes da comissão técnica majoritariamente formada por mulheres e que que acaba de consagrar Lindsay Camila, a primeira técnica a ganhar o título da Libertadores (o time também entrou para a história com Tatiele Silveira, primeira treinadora mulher a ganhar um Brasileiro, em 2019). Aos 38 anos, Lindsay assumiu a equipe em janeiro, após longa passagem pelo futebol francês e também pela seleção brasileira de base como auxiliar.

Além dela e da coordenadora Carolina, a Ferroviária tem supervisora, auxiliar técnica, preparadora física e preparadora de goleiras. Apenas o fisioterapeuta e o estatístico são homens. As jogadoras tem ainda psicóloga e assistente social. Nove, sendo sete deste time campeão, defenderam a seleção brasileira.

Se não contava com o melhor time da Libertadores, o mesmo não se pode falar sobre o projeto do futebol feminino. A Ferroviária, clube empresa, gerido pela MS Sport e que tem entre seus acionistas o grupo do poderoso empresário Giuliano Bertolucci, investe no futebol feminino desde 2001.

Tradicional no interior de São Paulo, a Ferroviária não tem obrigatoriedade de sustentar o naipe feminino, uma vez que o time masculino está na Série D do Brasileirão (a obrigatoriedade é para a Série A), e não disputa a Libertadores (a obrigatoriedade é para todos os times masculinos). Neste caso, o carro-chefe do clube, ao menos dentro das quatro linhas, é o feminino.

— O clube entendeu as oportunidades que o feminino tem e que talvez o masculino não tenha. E no final das contas, o clube é valorizado como um todo — analisou Aline Pellegrino, coordenadora de competições femininas da Confederação Brasileira de Futebol — A Ferroviária tem um projeto de longo prazo que continuou mesmo quando não teve resultados. Investe no futebol feminino há duas décadas, ou seja, metade do período que a gente tem com a modalidade regulamentada.

Segundo Carolina, o futebol feminino tem tratamento igual ao masculino, algo raro na modalidade. As jogadoras atuam no mesmo estádio que os jogadores para mandar suas partidas, o Fonte Luminosa. Elas usam o mesmo vestiário que os homens, tem departamento médico integrado, assim como o marketing e o atendimento para a imprensa. Ambos os naipes almoçam no clube, no mesmo refeitório, e têm o mesmo cardápio.

— É um clube que não há distinção e por isso somos um diferencial na modalidade — conclui a coordenadora.

A Ferroviária é bicampeã brasileira (2014 e 2019), campeã da Copa do Brasil (2014) e tetracampeã paulista (2002, 2004, 2005 e 2013). Sua equipe principal é abastecida pela base, outro ponto forte do projeto feminino. O clube participou de todas as edições dos Brasileiros sub-16 e sub-18. Do time campeão em Buenos Aires, oito foram reveladas em Araraquara. A Ferroviária é a atual vice-campeã paulista no sub-17 e teve cinco atletas convocadas para a seleção de base, em fevereiro.

Entre suas jogadoras, três tem mais de 200 jogos pelo time, e quatro jogaram mais de 100 vezes, caso da goleira Luciana, que pegou três pênaltis contra o Universidade de Chile, levando a Ferroviária à decisão.

— Me sinto privilegiada por ter um time deste tamanho na minha cidade. E por ter passado pelas categorias de base, chegando ao profissional. Fui formada na minha cidade e isso é muito difícil. Sempre pareceu um sonho distante jogar na Ferroviária — declara a volante Nicoly, de 23 anos, natural de Araraquara, que começou a jogar aos 7 anos em escolinhas da cidade com os meninos.

Nicoly entrou na base do clube aos 13 anos. Estava no Palmeiras em 2019 e 2020 e voltou para a Ferroviária nesta temporada.

Libertadores

Esse é o nono título brasileiro na Libertadores Feminina. O São José ganhou em 2011, 2013 e 2014. O Santos foi campeão em 2009 e 2010, e o Corinthians em 2017 e 2019 — os outros são do Colo-Colo-CHI (2012), Sportivo Limpeño-PAR (2016) e Atlético Huila (2018). Com esta nova conquista, a equipe garantiu vaga na próxima edição da competição continental, prevista para acontecer no fim do ano, no Chile. Os outros dois representantes brasileiros serão definidos pelo Brasileirão feminino.

Suspensa no ano passado devido à pandemia do novo coronavírus, a Libertadores disputada na Argentina é referente ao calendário da temporada 2020 do futebol feminino. Na Argentina, a entidade organizou a chamada "bolha", na qual as delegações dos 16 times foram testadas e previamente isoladas para evitar a disseminação da Covid-19.

A Ferroviária chegou desacreditada à Libertadores, classificou à segunda fase pelo saldo de gols e acabou conquistando uma vaga à final após um jogo dramático decidido nos pênaltis, na última quinta-feira, quando venceram o Universidad de Chile-CH por 7 a 6 (após empate sem gols). Na estreia no torneio, o time paulista sofreu goleada por 4 a 0 para o Desportivo Limpeño-PAR.

— Somos guerreiras grenás até o final — disse Nicoly, em referência ao apelido das atletas — Tanto o primeiro título quanto esse agora, foram em momentos que éramos desacreditadas. Não éramos favoritas. Mas fizemos o nosso trabalho e acreditamos até o final, mesmo quando poucos acreditavam. A gente sabe o que tem de fazer e trabalhou muito. Confiamos na comissão, em um clube e em uma cidade inteira.

Agora, a Ferroviária só volta a jogar no dia 18 de abril, quando estreia no Campeonato Brasileiro diante do Palmeiras. A CBF adiou o início do torneio, passando a primeira rodada de 28 de março para 17 de abril.