Bicho 'hightech': bando usa aplicativos e tecnologia de ponta no controle de jogos de azar

A investigação que resultou na Operação Calígula, desencadeada nesta terça-feira, revelou detalhes da atuação da quadrilha comandada pelo bicheiro Rogério de Andrade. A denúncia do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) traz à tona, por exemplo, o uso de tecnologia de ponta para controlar os jogos de azar não só no Rio de Janeiro, mas também em outros estados. Além de mirar no próprio chefe do bando, que não foi localizado e é considerado foragido, a ação resultou na prisão dos delegados Marcos Cipriano e Adriana Belém, bem como de outros alvos do Ministério Público (MP-RJ).

De acordo com os promotores, a quadrilha possui um núcleo tecnológico, dedicado exclusivamente a desenvolver aplicativos e servidores próprios, depois repassados aos comparsas responsáveis por coordenar a operação em cada local. Os programas criados rodavam nas máquinas de caça-níquel, calculando automaticamente, segundo conversas captadas com autorização judicial, até mesmo a comissão a ser paga a cada envolvido na atividade ilegal. Esse mesmo grupo também era acionado quando essas ferramentas apresentavam algum problema ou não funcionavam corretamente, atuando como uma espécie de "suporte técnico".

Em um diálogo reproduzido na denúncia, um integrante do bando reclama ter ouvido de um aliado que "o programa ainda não está cem por cento pronto", sem especificar qual seria a falha constatada. O homem apontado como encarregado do aparato tecnológico responde: "Eu vi, o programa está cem por cento desenvolvido. Agora, se o cem por cento que está desenvolvido roda cem por cento na rua, aí é outra conversa, entendeu?" Ele continua: "O programa vai rodar, vai vender, vai vender jogo, vai receber o jogo, vai fazer a cobrança, tudo isso faz no programa. A comissão vai ser calculada". Por fim, o supervisor conclui: "Agora, diz assim... 'Ah, mas a logomarca pra sessão um é tal, e a logomarca para a sessão dois é outra'. Aí isso tem que ser feito, entendeu?"

O homem orienta, então, que a instalação do programa se dê aos poucos — "uma sessão pequena, dez pontos, cinco pontos", aconselha. "Instala neles e vai vendo o resultado. Aí depois você vai crescendo", diz em seguida. "Vai aparecendo os erros, e a gente vai consertando", pondera o chefe do núcleo tecnológico.

Em outra ocasião, com outros envolvidos, a queixa era que "o link que os caras estão disponibilizando não está funcionando, simplesmente assim". O responsável pelo grupo de desenvolvedores lamenta por ser "dia 4, início de mês, onde mais vende" e arremata: "Tem que ver as filas nos pontos pra jogo, e não tem ninguém jogando".

A denúncia do Gaeco aponta que o núcleo tecnológico era formado por dois segmentos, "um focado nas redes de tecnologia, em especial links e conexões necessários para hospedagem de toda a infraestrutura", e o outro "mais voltado ao funcionamento operacional direto dos sistemas e máquinas utilizadas em cada banca de apostas". A interlocução desses grupos com a alta cúpula da quadrilha era feita, ainda segundo os promotores, por Márcio Garcia da Silva, conhecido como Mug, um dos alvos da Operação Calígula.

A investigação identificou que o aparato tecnológico chegou a ser disponibilizado para comparsas do grupo em pelo menos cinco estados, além do Rio de Janeiro. As cidades de Fortaleza, no Ceará, e Florianópolis, em Santa Catarina, são citadas por integrantes do bando nas conversas captadas pelos agentes. Já um material obtido pela Divisão Especial de Inteligência Cibernética do MP-RJ em um site vinculado ao núcleo indica uma possível atuação no Pará, no Piauí e no Rio Grande do Sul.

O relatório elaborado por técnicos da Divisão, obtido pelo EXTRA, localizou, no mesmo endereço virtual, instaladores de "jogos de azar" para sistemas operacionais Android. Utilizando uma ferramenta de download maciço, foi possível baixar todo o conteúdo associado à página. Descobriu-se, então, que no site era possível obter aplicativos nomeados como "caça-níquel", "jogo do bicho" e "futebol", provavelmente associado a apostas esportivas.

"Em tese, a partir do código-fonte dos aplicativos encontrados no site mencionado acima, existe a possibilidade, com a devida autorização judicial, de monitorar o tráfego de dados e tirar do ar os servidores que armazenam as informações enviadas pelos aplicativos", pontuam os promotores do Gaeco na denúncia. O pedido foi aceito pela Justiça, que determinou que o sistema fosse tirado do ar em todo o país.

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