Caso da bike do Leblon deu ao país um espelho do racismo estrutural

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Imagens das câmeras de vigilância mostram o real autor do furto da bicicleta no Leblon
Imagens das câmeras de vigilância mostram o real autor do furto da bicicleta no Leblon

Não fosse um cadeado e um celular para registrar a acusação injusta, o instrutor de surfe Matheus Ribeiro poderia ter problemas sérios com a justiça. A das ruas e a oficial, caso o episódio chegasse até lá.

Matheus foi abordado por um casal branco no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, que tivera a bicicleta furtada perto dali.

Gravada pelo celular, a cena mostra a violência diante de uma suspeita a priori: um jovem negro com uma bicicleta similar à sua só podia ser um ladrão.

Alterado, o namorado só “retirou” a acusação, com um pedido envergonhado de desculpas, após testar invasivamente a chave do cadeado na bicicleta alheia.

A revolta do jovem negro correu as redes.

Dias depois, um vídeo divulgado pela Polícia Civil do Rio mostrou quem foi o real autor do furto. Não era um dos estranhos suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho descritos na música “As caravelas” de Chico Buarque, morador do Leblon a homenagear a gente ordeira e virtuosa da vizinhança.

O ladrão era morador de Botafogo, outro bairro da zona sul, que guardava em seu apartamento uma parafernália para furtos do tipo. O rapaz branco, portanto acima de qualquer suspeita a priori, é observado nos registros das câmeras de segurança onde aconteceu o crime, que levou menos de dois minutos.

Em seu relatório de vida pregressa há 28 passagens pela polícia, 14 delas por furto.

Diante da repercussão, deve estar uma hora dessas com os dias de impunidade contados. Que seja formalmente acusado e julgado com amplo direito de defesa.

Como deve ser.

E como certamente não aconteceria com Matheus Ribeiro caso não conseguisse provar que não, não era culpado até provar o contrário. Sim, a incompatibilidade do cadeado provava que a bicicleta era dele. Mas a história poderia acabar diferente —ou melhor, igual tantas outras.

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Não fosse o aparelho ou o celular para registrar a acusação injusta, é possível que o casal branco só retirasse o falso testemunho após pancadaria sem direito a defesa, com ajuda dos transeuntes, sempre dispostos a bancar o justiceiro (aliás, que fim levou o Batman do Leblon?) e proclamar ali, em “sua rua”, a sentença com o próprio verbo e as próprias mãos.

Matheus Ribeiro teria se transformado então em um dos muitos suspeitos a priori levados em camburões para uma volta até confessar o crime que não cometeu. Seria uma entre tantas vítimas de chacinas como as da Candelária, do Jacarezinho, das balas perdidas que só encontram corpos negros.

Se não voltasse pra casa, os falsos acusadores teriam a seu lado não a culpa, mas o silêncio e o sorriso satisfeito de um país que primeiro atira, depois pergunta e em seguida condena: era tudo bandido, não é mesmo?

Instrumento de defesa, a câmera ali se tornou espelho de um país fundado e ainda orientado pelo racismo estrutural.

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