BID vê grande oportunidade para mercado de carbono no Brasil, mas destaca gargalos

Em meados de outubro, o hotel Copacabana Palace, no Rio, foi palco do evento Latin America Climate Summit (LACS), organizado pela International Emissions Trading Association (IETA) e pela International Carbon Action Partnership (ICAP). O tema deste ano não poderia ser outro: mercado de carbono.

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Durante três dias, centenas de participantes percorreram os corredores das salas de convenção, trocando cartões, firmando acordos nos cafés, aprendendo com os palestrantes que se revezavam no inglês, espanhol e português.

Morgan Doyle, representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil, um dos patrocinadores do evento, em entrevista exclusiva ao Prática ESG, reforçou o assunto comum entre os painéis: o potencial do Brasil em liderar o mercado de carbono na região.

- A gente enxerga uma enorme oportunidade para o Brasil - disse ao citar um estudo da consultoria McKinsey que aponta que o país pode ser o sexto maior mercado de créditos de carbono do mundo.

Ele acrescenta:

- É uma oportunidade fantástica para aproveitar uma série de fluxos [de demanda, financeiros] e poder colocar para rodar projetos com impacto e desenvolvimento [social e econômico], muito alinhados com a nossa razão de ser.

Entre os “ativos ímpares que o Brasil tem”, na opinião de Doyle, está a criatividade dos profissionais em desenvolver ideias. Outro atrativo é o pujante setor privado, que busca cada vez mais negócios com impacto positivo e ligados à descarbonização. O interesse do mundo pela pauta aqui no Brasil, lembra, se dá especialmente pela ampla cobertura vegetal e energia limpa.

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Maria Netto, especialista em financiamento sustentável no BID, complementa destacando algumas vias de oportunidade de geração de crédito de carbono, sendo uma a proteção da floresta amazônica.

- Além disso, o Brasil tem um potencial único de competitividade com as commodities verdes, a possibilidade de recuperar áreas degradadas e a possibilidade de promover investimentos em tecnologias limpas. A gente tem a possibilidade de inovação tecnológica muito alta”, afirma a executiva.

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Cita como exemplo de tecnologia para armazenamento de energia eólica, especialmente em alto mar. Vê ainda frentes na economia circular e a na redução de emissões poluentes pela indústria - um desafio mundial e que o Brasil, por ter fontes alternativas e mais limpas de energia e combustível, pode sair na frente:

- Há uma concentração de imagem de créditos em torno da Amazônia, o que é certo, já que a gente uma obrigação de preservação da floresta. Mas também há muitas outras oportunidades de investimentos verdes.

Gargalos

- A nossa estratégia de incentivar o mercado de créditos de carbono passa por criar consciência, ajudar a determinar certos padrões, a trabalhar na questão da integridade do mercado e na parte regulatória - comentou.

Para o executivo, a regulação da atividade é primordial para criar uma estrutura de mercado que dê mais transparência e visibilidade aos projetos e, assim, coloque o Brasil no mercado internacional dos créditos.

Até mesmo para o mercado voluntário decolar é preciso mais organização e padronização. Os gargalos estão sob dois aspectos, de acordo com representantes do BID no país: na infraestrutura de mercado, que envolve mecanismos que garantam rastreabilidade, transparência e a integridade dos projetos e seus créditos; e, em paralelo e intrinsecamente ligado ao primeiro, o melhor endereçamento de riscos, para destravar investimentos.

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- Existem riscos associados a não ter a infraestrutura de mercado correto, em ter alta volatilidade dos preços do crédito de carbono, de não saber qual o futuro desse mercado, de ter projetos florestais que não conseguem coibir o desmatamento e ainda se os créditos de redução de desmatamento e de conservação vão ser reconhecidos como compensação de emissão ou não - elenca Maria Netto.

Um problema que preocupa, na opinião da executiva, é a fungibilidade do carbono, ou seja, a possibilidade de ele ser usado é trocado pelo mercado, o que forma a base para o mercado secundário de créditos.

-Se eu for vender um crédito de carbono brasileiro para os Estados Unidos, por exemplo, é necessário um reconhecimento conjunto dos dois países sobre o que é aquele ativo, do ponto de vista jurídico. Uma tonelada de carbono tem que ser reconhecida como uma tonelada de carbono em qualquer lugar - explica.

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E diz que firmar acordos bilaterais ou multilaterais que compartilhem metodologias e parâmetros pode ser uma saída.

A expectativa é que, futuramente, os projetos sejam enquadrados em níveis de qualidade que gerem mais ou menos créditos de carbono. Essa métrica deve variar conforme a adicionalidade, ou seja, o benefício adicional à humanidade e ao meio ambiente, medida a partir da comparação sobre a situação dos stakeholders e do ambiente afetados após terem sido expostos ao projeto de carbono e como estariam se não tivessem sido impactados.

- Eu posso considerar mais barata uma tonelada de redução de carbono que veio de um projeto que talvez tem alguns riscos, que pode ter metodologia usada questionada, por exemplo. E eu posso ter uma tonelada de carbono com preço ‘prime’ porque ele teve um impacto social ou um impacto adicional econômico.

E reitera:

- O que a gente não pode é ter uma confusão como a gente tá tendo hoje de não ter essa classificação.

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Hoje não há uma metodologia única e clara sobre a geração de crédito. Há certificadoras internacionais que tentam apresentar balizadores. Mas faltam ainda detalhes que permitam a comparabilidade no mercado.

Além disso, há discussões ainda mais básicas que precisam ser feitas, como o que é um crédito de carbono: uma commodity, um ativo financeiro, um ativo não financeiro, ou outro instrumento.

Uma das frentes que poderia avançar mais rápido, na opinião da executiva, é a de divulgação das negociações de crédito de carbono, de modo a ser criado um banco de dados que desse mais transparência para os preços de hoje.

- A volatilidade dos preços em parte é por falta de transparência a partir de uma obrigação de quem compra e quem vende, por qual preço e em que lugar. Esse não é um problema só brasileiro, mas global, relacionado ao rápido crescimento do mercado - comenta Netto.

Até para destravar investimentos e capital de risco, de bancos, essas questões são pertinentes.

- Como os bancos vão financiar algo com base num preço futuro esperado se não conhecem nem o preço hoje? - exemplifica o problema.

Para ajudar a desenvolver a área no Brasil, o BID está discutindo com a sociedade civil, setor privado e bancos públicos e privados as soluções possíveis, seja em conversas individuais, em eventos como o LACS ou no âmbito do Laboratório de Inovação Financeira (LAB), do qual é cofundador junto com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE).

- Entendo que é um processo, mas ficamos muito felizes em ver um enorme interesse, dos bancos públicos, do governo do Estado do Rio, do setor privado que está aqui [no encontro] ativamente discutindo, compartilhando lições, além de uma série de parcerias que estão saindo dos cafés; acho muito positivo - finaliza.