BID visa a se capitalizar e fomentar o investimento na América Latina em 2022

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Mauricio Claver-Carone, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), fala em um evento na Califórnia, em 19 de outubro de 2021 (AFP/Patrick T. FALLON)

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) encerra o ano com quase 20 bilhões de dólares de novo financiamento para a América Latina e o Caribe e de olho em se capitalizar e fomentar o investimento estrangeiro direto na região.

Para o presidente do BID, Mauricio Claver-Carone, estas metas são essenciais para ajudar a superar a crise causada pela covid-19, que provocou uma contração de 7% do PIB regional em 2020, mais de três pontos percentuais acima da média mundial.

"Posso dizer com certeza que não vamos ter uma década perdida em termos macroeconômicos. O PIB está se recuperando", disse à AFP.

"Mas, vamos ter uma década de oportunidades perdidas?", questionou-se.

O grande desafio é fechar as "enormes brechas socioeconômicas" que fazem da América Latina e do Caribe a região mais desigual do planeta, acrescentou.

"Não é uma coincidência que seja a região mais afetada pela covid-19. Representa 8% da população mundial, mas acumula 35% das mortes no mundo. Por que? Devido às enormes disparidades" que tem, afirmou.

Para poder apoiar um crescimento "sustentável e inclusivo", o titular do BID defende um novo aumento de capital do banco, o décimo desde sua fundação em 1959.

Os Estados Unidos, que com 30% das ações é o principal acionista do BID, "tem uma oportunidade única de fortalecer esta instituição", assegurou Claver-Carone.

O primeiro presidente não latino-americano do BID saudou um projeto de lei que avança no Congresso americano com apoio bipartidário, que autoriza até 80 bilhões de dólares para capitalizar a entidade de fomento regional.

- Lítio e call centers -

A capitalização do BID, que Claver-Carone comparou meses atrás a "um Plano Marshall para a região", em alusão ao programa americano para reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial, permitiria também aos Estados Unidos ganhar terreno perante a China, que se tornou nos últimos anos o primeiro parceiro comercial de quase todos os países sul-americanos.

Para o presidente do BID, nos últimos 20 a 30 anos, a América Latina e o Caribe perderam grandes oportunidades de desenvolvimento porque o mundo se voltou para a China. Mas os problemas de abastecimento provocados pela pandemia criam uma oportunidade histórica para reverter esta situação.

"Dois terços do lítio do mundo estão na América do Sul. A China compra lítio para fabricar baterias que depois vende aos Estados Unidos. Por que não exportar lítio diretamente da América do Sul para o México, fazer as baterias no México e depois enviá-las aos Estados Unidos?", destacou.

Isto reduziria não só os preços, mas também as emissões nocivas ao meio ambiente. E criaria muitos postos de trabalho na região, argumentou.

O 'nearshoring', como se denomina o fenômeno de relocalizar mais perto dos clientes os processos de produção que as empresas tinham levado para longe para baratear os custos, também inclui os serviços.

"Há toda uma população de fala inglesa no Caribe. Microsoft e Google, sozinhas, podem empregar metade da Jamaica se transferirem algumas das suas instalações da Índia para o Caribe", explicou Claver-Carone.

O BID aprovou este ano 2,3 bilhões de dólares para fortalecer as cadeias de abastecimento regionais. E trabalhou com 16 países para identificar as vantagens do 'nearshoring', no setor de semicondutores e têxtil, entre outros.

"Fizemos coisas geniais na Costa Rica, República Dominicana, Colômbia, Uruguai, Equador", contou o titular do BID.

- "Romper os estereótipos" -

Atrair investimentos que gerem empregos e desenvolvimento na América Latina e no Caribe é um dos maiores desafios para o presidente do BID.

"A pergunta é: todos os países da região estão implementando as políticas adequadas para atrair este investimento estrangeiro direto? Não", disse. "Então, nosso trabalho é ajudá-los".

O BID fez quatro fóruns de promoção de investimentos este ano (em Belize, Brasil, Equador e Miami), que geraram uma previsão de 55 bilhões de dólares em acordos de negócios. E prevê uma nova rodada em 2022 em Panamá, Paraguai e Jamaica.

Mas as preferências ideológicas em alguns países podem impulsionar a saída de capitais.

Para mitigar isso, Claver-Carone visa a trabalhar com todos os governos "para ajudar a diminuir a preocupação dos investidores", como o Peru já está fazendo com o presidente Pedro Castillo, e como espera fazer com o presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, ambos de esquerda.

"Meu objetivo é ajudar a romper os estereótipos", afirmou.

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