Biden, 77, branco e moderado, vira ponte a futuro democrata

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Os democratas já entenderam: Joe Biden, 77, é velho. Mais do que 94% dos 329 milhões de americanos que deseja liderar. Quando nasceu, o mundo passava pela Segunda Guerra. Quando chegou ao Senado, a mãe de uma das estrelas da juventude do partido, Alexandria Ocasio-Cortez, ainda era uma criança. Se eleito, chegará à Casa Branca com três meses a mais do que tinha o republicano Ronald Reagan, o mais velho no cargo, quando deixou a Presidência americana, após dois mandatos nos anos 1980. "Biden era adolescente antes de televisores na sala de casa serem algo comum. Estava no Senado uma década antes de os primeiros computadores entrarem nos escritórios e quase 25 anos antes do email. Instagram provavelmente jamais será natural para ele", diz John Harris, cofundador do site Politico. Sua idade avançada tem implicações de ordem filosófica --por que pessoas tão idosas comandam a América?, questionou a revista Atlantic em março-- e também prática. De que futuro estamos falando para os democratas caso Biden derrote o republicano Donald Trump na terça (3)? Biden é dois anos mais novo do que Bernie Sanders, seu maior adversário na disputa interna para ser presidenciável. Presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, a democrata mais cacifada hoje, entrou neste ano no clube dos octogenários --mais do que o dobro da idade média do americano, 38 anos. Nos últimos anos, a gerontocracia no alto escalão do partido começou a ver fissuras. O pleito de 2018 nos EUA, que renovou os 435 assentos na Câmara e 35 dos 100 senadores, foi generoso com a nova geração. Seniores ainda são maioria no Congresso, mas é a agenda dos jovens, como a dos 14 democratas millennials --abaixo de 40 anos-- eleitos deputados, que chama a atenção. O Green New Deal de Alexandria Ocasio-Cortez, a AOC, 31, é uma amostra do discurso que tem muito mais apelo às gerações Z e millennial (19 a 39 anos). As mesmas que em dez anos formarão a maior fatia do eleitorado americano, de acordo com projeções. O pacote de propostas para uma economia ambientalmente sustentável não deixa de ser um contraponto a Amtrak Joe, apelido que Biden, grande aliado da malha ferroviária que tanto ajudou a velha guarda industrial americana, ganhou por ter o hábito de usar a companhia nacional de trens. "Sleepy Creepy" (sinistro adormecido). Slow Joe (Joe devagar). Essas outras alcunhas de Biden, bem menos lisonjeiras, escancaram outro nervo exposto do político. Foram-lhe concedidas por Donald Trump, apenas três anos mais novo, e zombam da senilidade que lhe é atribuída --ressalte-se que os médicos de ambos dizem que a dupla está com a capacidade mental nos trinques. Por meses, Trump martelou que o rival aproveitou a pandemia para se esconder, pois estaria gagá. "Eles vão colocá-lo no asilo, e outras pessoas vão comandar o país", afirmou em março o candidato à reeleição. Na última segunda-feira (26), voltou à carga. "Joe Biden me chamou de George ontem. Não conseguia lembrar meu nome", disse o presidente em um post no Twitter. Num evento, o democrata a certa altura diz que é preciso evitar "mais quatro anos de, uh, George, uh, George, uh". Os republicanos passaram a sustentar que Biden teria confundido Trump com George Bush, não se sabe se o pai ou o filho. O candidato deu, sim, uma titubeada na fala, mas ele pode ter se referido a seu entrevistador, George Lopez. Certo é que o próprio Biden se reconhece como uma figura de transição, uma "ponte", como ele mesmo se definiu, um democrata à moda antiga que passará o bastão para uma mocidade democrata. "Supondo que os democratas ganhem, haverá uma batalha em 2024 pela indicação para disputar a Presidência, a não ser que Kamala Harris [a candidata a vice de Biden] vire presidente antes do fim do mandato dele", afirma à reportagem o cientista político Paul Peterson, da Universidade Harvard. Moderados usam como trunfo o argumento de que só eles têm chance de vencer um republicano num país tão polarizado. Nesse quinhão democrata se enquadram Biden, Kamala, 56, e o casal Clinton, Bill, 74, e Hillary, 73, visto internamente como página virada. "Mas candidatos à esquerda terão vantagem, dada a composição dos elementos mais ativos do partido", diz Peterson. Para William Galston, do instituto de pesquisa Brookings, a segunda noite da convenção democrata sinalizou para onde a legenda caminha. Clinton encarnou o passado, Biden, o presente, e AOC, o futuro. "De forma reveladora, Ocasio-Cortez não falou do partido, mas do movimento que ela ajuda a liderar para criar uma agenda progressista do século 21 --verde, descaradamente multiétnica, focada na justiça econômica, social, racial e ambiental. E do desejo de movê-la para o centro da vida pública da América." É uma geração que não tem medo de se dizer socialista na nação que pariu a Coca-Cola e o McDonald's e que por décadas tratou o termo como bicho-papão. "Em seus 30 ou 40 anos, são mais diversos que seus antecessores e impacientes para assumir o comando", diz Galston, que trabalhou no governo Clinton. "Talvez seja a oposição a Trump que esteja conseguindo reunificar democratas, mas daqui para frente não está claro quem ou como essa potencial divisão pode ser superada", afirma à reportagem Jeffrey Green, teórico político da Universidade da Pensilvânia. "Biden é naturalmente parte do lado centrista, capitalista e mainstream dos democratas, mas tem sido capaz de apelar para a política identitária mais comumente enfatizada pelo outro lado do partido", continua ele. "É popular entre afroamericanos, e escolher como colega de chapa Harris [uma mulher negra] aponta para alguns --embora não todos-- compromissos adicionais com a diversidade." "Com a construção cuidadosa da ponte por Joe Biden, o Partido Democrata voltou a se unir após as profundas divisões de quatro anos atrás", concorda Galston, com uma ressalva. "A unidade de hoje é mais uma trégua do que uma paz final."