Biden adianta retirada americana do Afeganistão, e Rússia e China ocupam vácuo

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  17-06-2014 - O presidente americano Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 17-06-2014 - O presidente americano Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Temendo o aumento da instabilidade com o risco de uma guerra civil generalizada no Afeganistão, Rússia e China trabalham para ocupar o vácuo deixado pela retirada norte-americana do país do sul asiático.

Potências regionais, Turquia e Irã também buscam estabelecer mais influência. Nesta quinta (8), o presidente americano Joe Biden anunciou o "fim da missão" no país em 31 de agosto, dez dias antes do previsto anteriormente.

Na semana passada, as forças americanas desocuparam após 20 anos a base aérea de Bagram, a principal do país.

Os EUA invadiram o Afeganistão em 2001 para derrubar o grupo fundamentalista Taleban, que governava desde 1996 a maior parte do país e deu guarida à rede Al Qaeda, responsável pelos ataques do 11 de setembro daquele ano contra Nova York e Washington.

Com a decisão do presidente Joe Biden de encerrar a presença no país, o Taleban, que nunca deixou de existir e vinha ganhando força, está próximo de reconquistar o poder, à força ou por acordos, uma vez que participou das negociações para a retirada ocidental.

Segundo o governo afegão, 15 das 34 capitais regionais do país estão sob risco de serem tomadas. A atividade em torno de uma delas, Mazar-i-Sharif, trouxe Moscou para o tabuleiro afegão 32 anos depois de fazer sua própria retirada --os soviéticos ocuparam o país por dez anos.

No fim de semana, forças afegãs tiveram de recuar de ataques talebans perto da fronteira do Tadjiquistão, país vizinho e principal aliado de Vladimir Putin na Ásia Central. Cerca de mil soldados entraram e saíram de território tadjique várias vezes.

Nesta quarta (8), Moscou respondeu. "Se o Tadjiquistão for atacado, nós vamos honrar nossos compromissos", disse o chanceler Serguei Lavrov. No caso, o de defesa territorial do aliado, sob os termos da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, entidade eurasiana comandada pelo Kremlin.

Ele confirmou que a Rússia deverá ativar uma base na fronteira afegã-tadjique para reforçar a segurança local. Moscou tem 6.000 soldados baseados na ex-república soviética.

São dois fatores a mover Lavrov. Primeiro, a oportunidade política de sugerir a estabilização de uma região e culpar os rivais Estados Unidos e Otan (aliança militar ocidental), cujos membros também estão deixando o Afeganistão, pela confusão.

Segundo, a necessidade real de ver o Tadjiquistão estável, já que integra uma fronteira vital no xadrez da Ásia Central, uma das áreas que garantem profundidade estratégica a Moscou ante a China e elementos radicais islâmicos.

Também nesta quinta, o Reino Unido completou sua retirada de forças do Afeganistão, onde perdeu 457 soldados nos 20 anos de presença militar -ante 2.300 americanas (mais 4.000 mercenários) e um cômputo total de 160 mil pessoas ao todo, segundo a Universidade Brown (EUA).

Mais relevante, contudo, foi a fala de Nick Carter, o chefe do Estado-Maior da Defesa britânica, que apontou o risco óbvio de uma guerra civil. Segundo ele, "as forças de segurança podem se fragmentar em linhas étnicas e tribais", como ocorreu no conflito após a saída soviética, que desaguou na ascensão do Taleban.

A consideração é especialmente dura para os EUA, que investiram milhões para treinar e equipar as Forças Armadas afegãs, que contam até com aviões de ataque brasileiro Super Tucano doados pelos americanos.

Isso tudo fora o temor da volta das práticas medievais de opressão a mulheres e minorias que marcou o regime taleban encerrado em 2001.

Além da Rússia, outras potências com interesses na região se mobilizam. Nesta quinta, a China afirmou que a crise afegã é um problema que merece sua atenção em conjunto com o Paquistão, o vizinho que ajudou a organizar o Taleban nos anos 1990 porque via a oportunidade de ter um aliado a oeste contra a rival Índia.

"[China e Paquistão] Devem defender a paz regional juntos. Os problemas no Afeganistão são problemas práticos que enfrentamos. A China, assim como o Paquistão, busca apoiar os partidos afegãos para encontrar uma solução por meio do diálogo", afirmou o chanceler Wang Yi.

Com a saída americana, a crise afegã preocupa a ditadura comunista por ser um fator de instabilidade numa região em que ela tem expandido sua influência econômica, por meio da iniciativa Cinturão e Estrada.

O Paquistão é um cliente de Pequim, tendo substituído Washington com principal fornecedor de armas e integrado o vizinho a um corredor econômico no oceano Índico. Já os EUA se aproximaram mais da Índia, que tem contencioso graves com os chineses, tendo ido às vias de fato numa escaramuça em 2020.

O Taleban resiste aos chineses, que já desenharam planos para absorver o Afeganistão à sua esfera de influência, prometendo inclusive uma rodovia moderna ligando Cabul a Peshawar, a capital das regiões tribais paquistanesas onde o grupo fundamentalista brotou.

Não são são só grandes potências de olho no país. A Turquia, em linha com a política expansionista de Recep Tayyip Erdogan, negocia para ser o responsável pela segurança do aeroporto de Cabul. Empresas turcas já têm forte presença por lá.

E o Irã, que divide a língua com o segundo principal grupo étnico afegão, os tadjiques, mantém forte influência naquela comunidade, dominante na região noroeste do país.

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