Biden ajuda a enterrar pacifismo imposto pelos EUA ao Japão

*ARQUIVO* *ABRASILIA, DF,  BRASIL,  17-06-2014, 10h00: O vice presidente americano Joe Biden durante declaração à imprensa na Embaixada Americana em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* *ABRASILIA, DF, BRASIL, 17-06-2014, 10h00: O vice presidente americano Joe Biden durante declaração à imprensa na Embaixada Americana em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A visita do primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, ao presidente americano, Joe Biden, nesta sexta-feira (13), coroa um processo de reversão histórica com ampla repercussão geopolítica.

O Japão está deixando de forma acelerada sua tradição pacifista do pós-guerra, abraçando políticas militaristas que podem tornar a ilha um proverbial porta-aviões da liga ocidental que vê com temor a ascensão da China de Xi Jinping.

Tóquio, contudo, tem sua própria agenda, e Kishida deixou isso claro ao visitar outros líderes do G7, o clube dos ricos, antes de se encontrar com Biden. Sua escalada bélica inclui gastos recordes no setor, um acordo de cooperação militar com os britânicos e o primeiro projeto de defesa multinacional, a construção de um caça avançado com Reino Unido e Itália, que dispensou os americanos.

Isso não tira, claro, a primazia de Washington quando o assunto é a inserção japonesa no mundo. Como disse à Folha o chanceler Yoshimasa Hayashi, "a aliança Japão-EUA continua a ser o fundamento da política externa e de segurança nacional" de seu país.

Tudo por cortesia do turbulento século 20, que começou com o expansionismo militarista do Império Japonês, a China de sua época no contexto da Ásia-Pacífico e sem as mesuras dos dias que correm: Tóquio ocupava brutalmente seus vizinhos, como a Manchúria chinesa ou a península coreana.

O processo desaguou na Segunda Guerra Mundial, em que o império foi desossado, 2,5 milhões de japoneses morreram e o país assistiu a duas explosões atômicas americanas. A vitória dos Aliados levou à reorganização da vida política do país por meio de ocupação.

À frente estava o general americano Douglas MacArthur, que desenhou os três princípios que os EUA queriam ver impostos na nova Constituição japonesa: o fim do poder absoluto do imperador e da nobreza, a implantação de um parlamentarismo à britânica e, mais importante, a incapacitação militar do país.

Com efeito, a Carta de 1947 é chamada de Constituição MacArthur, o que não agradou nenhum nacionalista nas décadas seguintes, durante as quais ela nunca foi emendada. Em 1954, as Forças de Autodefesa do Japão foram criadas com o intuito em seu nome, em parceria com os americanos.

O pacifismo imposto por Washington substituiu o militarismo do império, mas ganhou espaço na vida japonesa: o sofrimento pelo bombardeamento do arquipélago foi incomensurável. Os monumentos na reconstruída Hiroshima são um lembrete poderoso disso, assim como as "pagodas da paz" espalhadas pelo mundo por obra do monge budista Nichidatsu Fujii (1885-1985). Mas a reação foi igualmente forte, como os movimentos ultranacionalistas provam -o suicídio ritual do escritor Yukio Mishima em 1970, após tentar um quixotesco golpe para restaurar os poderes imperiais, é um notório símbolo dessa tensão.

Em anos mais recentes, na prática as Forças Armadas já driblavam suas limitações aos poucos, como na transformação de porta-helicópteros em porta-aviões na prática, ao comprar caças de decolagem vertical F-35B americanos. Sob o influente Shinzo Abe, primeiro-ministro mais duradouro do pós-guerra que renunciou por motivos de saúde em 2020 e acabou assassinado no ano passado, o debate ganhou outro patamar com a percepção relatada pelo chanceler Hayashi de que a China é "o maior desafio estratégico, sem precedentes, à garantia da paz e segurança do Japão e do mundo".

Kishida está levando a cabo a reação, com o cuidado de não colocar todos os ovos na cesta americana, escaldado pelo descompromisso de Washington quando Donald Trump era presidente. Até uma aliança mais consistente com a Coreia do Sul, rival histórico, está sendo considerada para a contenção da ditadura nuclear de Kim Jong-un na metade norte da península.

Os países também estão preocupados com a crescente ação conjunta de forças da China e da Rússia na região, ocorrida na esteira da pressão ocidental sobre Moscou devido à Guerra da Ucrânia.

Assim, o Japão anunciou o maior pacote militar de sua história do pós-guerra, prevendo dobrar seu gasto com defesa para 2% do PIB em cinco anos. Instalou mísseis de defesa costeira em Okinawa, o conjunto de ilhas mais próximo da China -e de Taiwan, a ilha autônoma que Pequim promete tomar para si.

Nesta semana, revelou que os EUA terão uma nova base dos Fuzileiros Navais, com capacidades avançadas de inteligência e equipada com mísseis antinavio. Cereja do bolo, há um movimento para mudar a Constituição, liberando os militares para ações ofensivas e enterrando a doutrina MacArthur.

Assim, a bênção de Biden ao esforço de defesa japonês encerra um ciclo iniciado pelos americanos em 1945. O presidente já havia começado esse processo ao dar peso ao Quad, grupo que une EUA, Japão, Índia e Austrália para encarar a China. Além da musculatura militar que um gigante econômico pode dar, Biden também está de olho em atrair Tóquio para um aspecto importante da Guerra Fria 2.0: a disputa sobre os chips. Desde outubro, os EUA impõem um draconiano regime de veto à exportação de semicondutores aos chineses, visando atrasar sua indústria e área militar.

O Japão é simpático à medida, mas procura não se envolver, porque é um ator importante do setor, com 27% do mercado de equipamentos para a forja dos chips, e a China é o destino de 25% de suas exportações. Mesmo que não seja bem-sucedido nisso, o presidente americano de todo modo já conseguiu o principal em termos geopolíticos com a remilitarização do Japão.