Biden buscou diálogo sobre clima, e agora a bola está com Bolsonaro, diz ex-embaixador americano no Brasil

Janaina Figueiredo
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Houve uma primeira aproximação e foi possível iniciar conversas sobre políticas de combate ao aquecimento global entre os governos Joe Biden e Jair Bolsonaro, mas Estados Unidos e Brasil chegam em descompasso à Cúpula de Líderes sobre o Clima, que começa nesta quinta-feira.

Os compromissos assumidos até agora pelo Brasil são considerados insuficientes e qualquer ajuda econômica — como pretende o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles — está condicionada a resultados rápidos, sobretudo, em matéria de redução do desmatamento.

Em função do interesse mundial pela situação na Amazônia e seu impacto no continente, existe grande expectativa sobre o discurso de Bolsonaro e o posicionamento do Brasil na cúpula. Em palavras do embaixador americano Thomas Shannon, ex-subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental e ex-embaixador no Brasil (2009-2013), "os EUA deixaram claro seu interesse em trabalhar com o Brasil, agora a bola está do lado dos brasileiros".

— A recente visita do enviado climático do governo americano, John Kerry, à China mostra que Biden quer trabalhar com todos. Por que não com Bolsonaro? A predisposição existe, mas só ficará claro se isso será realmente possível depois da cúpula — afirma Shannon.

Os EUA, amplia o veterano diplomata americano, "querem exibir compromissos ambiciosos, querem traçar resultados que possam ser alcançados e que superem o Acordo de Paris". A pressão é grande sobre todos os países que participam do encontro, e no caso do Brasil, opina Rogério Studart, ex-diretor do Brasil no Banco Mundial e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), existem dúvidas sobre o real comprometimento do governo Bolsonaro.

— O governo americano está fazendo uma real transição para uma economia sem carbono com políticas de Estado, e hoje o Brasil não tem um plano de desenvolvimento sustentável — amplia Studart, que é economista associado ao World Resources Institute (WRI) um think tank sobre desenvolvimento sustentável, com sede em Washington.

Ele destaca o lançamento esta semana de uma estratégia política sobre mudanças climáticas por parte do Tesouro americano, que prevê, entre outras iniciativas, mobilizar fontes de financiamento para investimentos sustentáveis no país e no exterior. A novidade foi vista pelo especialista como a confirmação de que o presidente americano está decidido a engajar todo o seu governo na cruzada por uma retomada verde da economia global.

Na cúpula (virtual), que contará com a participação de 40 países, a Casa Branca quer ter clareza sobre que governos estão dispostos a assumir compromissos ambiciosos, indo, em alguns casos, além do Acordo de Paris, e, em contrapartida, tornar-se potenciais parceiros. Studart ressalta a expressão "mobilizar recursos" no comunicado do Tesouro americano, já que "não se trata apenas de financiar e sim de usar mecanismos disponíveis para ampliar recursos".

No Brasil, o especialista vê movimentos positivos no Ministério da Economia e no Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), onde equipes já trabalham com conceitos de sustentabilidade, por exemplo, em áreas de infraestrutura. Não se trata de falta de técnicos capazes, amplia o economista, mas sim de falta de política de Estado, de rumo institucional.

— Falta uma visão de que esse é um caminho bom para o Brasil, que é inclusive um bom negócio. Primeiro se parte do Estado, do governo e agências econômicas. Depois surgem as parcerias com o setor privado — explica Studart.

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Se o assunto fosse futebol, o Brasil teria um bom time, mas faltaria uma estratégia para ganhar o campeonato. Já o governo Biden, diz o especialista, "está correndo, tem time, tem treinador e quer ser campeão".

Em trabalho publicado no ano passado, o WRI estimou que se o Brasil adotasse o desenvolvimento sustentável como política de Estado, o PIB do país poderia crescer em US$ 500 bilhões até 2030. No mesmo período, poderiam ser criados mais de 2 milhões de empregos. Somente em investimentos para reflorestar a Amazônia, projetou o instituto, os recursos que seriam injetados gerariam muitos postos de trabalho.

— O Brasil montou a agenda climática global desde os anos 70, mas hoje o país transmite a imagem de estar à deriva. A esperança que existe é de que a cúpula faça o governo Bolsonaro acordar e perceber o quanto pode ficar isolado — afirma o especialista.

As conversas — de forma alguma negociações — iniciadas há algumas semanas entre os governos Biden e Bolsonaro ocorrem num clima de cordialidade, confirmam fontes de ambos os lados. Mas as divergências são evidentes e tornam inviável, no curto ou médio prazo, qualquer tipo de acordo de ajuda financeira, como pretende Salles. O compromisso de zerar o desmatamento até 2030 não convenceu. A demanda é mostrar uma queda expressiva já em 2021.

Somente declarações de boas intenções não bastam, espera-se mais ousadia e comprometimento de Bolsonaro e Salles no âmbito da cúpula.

— Hoje não vejo tensão, houve uma mudança de narrativa por parte do Brasil. Agora, o que realmente vai ser executado é outra história. É preciso anunciar uma política clara de combate aos atos ilícitos na Amazônia — afirma o embaixador Rubens Barbosa, que chefiou a embaixada brasileira em Washington entre 1999 e 2004.

Para o diplomata, "dependendo das medidas que forem adotadas pelo Brasil e dos resultados obtidos, poderá eventualmente haver uma negociação e uma contrapartida americana".

Até agora, ambas as partes acreditam que o tom das conversas tem sido construtivo e amistoso. Mas, do lado brasileiro, algumas fontes que acompanham de perto o embrionário diálogo admitem que a sensação que predomina em Brasília é de que enquanto Bolsonaro for presidente pouco se avançará, pela má imagem do governo brasileiro nos EUA.

O Brasil pode fazer mais, é o lema do momento. Até agora, abriu-se apenas espaço para pensar numa hipotética colaboração do governo americano com esforços do Brasil em matéria de preservação do meio ambiente. Nada acontecerá enquanto o governo Bolsonaro não entregar resultados.