Biden celebra 'bom dia para a democracia', enquanto onda republicana se dissipa

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, descreveu nesta quarta-feira (9) as eleições de meio de mandato como um "bom dia para a democracia", em que os democratas resistiram melhor do que o previsto a uma "onda vermelha" republicana, que aparentemente se reduz a uma pequena maioria em apenas uma câmara do Congresso.

Biden reconheceu a frustração dos eleitores, mas disse que a "esmagadora maioria" dos americanos apoiou sua agenda econômica na eleição de terça-feira, apesar dos republicanos culparem a inflação alta.

"Acho que foi um bom dia para a democracia. E acho que foi um bom dia para os Estados Unidos", afirmou ele em coletiva de imprensa na Casa Branca. "A imprensa e os especialistas previram uma gigantesca onda vermelha, mas não aconteceu".

Para seu antecessor republicano, Donald Trump, foi uma noite decepcionante. Ele contava com um resultado espetacular que impulsionaria uma possível candidatura à reconquista da Casa Branca em 2024, após prometer que em 15 de novembro “fará um grande anúncio”.

"Embora de certa forma a eleição de ontem tenha sido um pouco decepcionante, do meu ponto de vista pessoal foi uma grande vitória: 219 vitórias e 16 derrotas", resumiu Trump em referência aos candidatos que ele apoiou pessoalmente. "Quem fez melhor do que isso?", perguntou o ex-presidente de 76 anos em sua plataforma Truth Social.

Trump ainda foi testemunha do triunfo contundente de Ron DeSantis, o grande vencedor das "midterms", que garantiu mais uma mandato como governador da Flórida e é apontado como principal adversário do magnata na disputa pela indicação presidencial pelo Partido Republicano.

DeSantis, de 44 anos, um crítico das restrições impostas na pandemia e dos direitos das pessoas transgênero, venceu por quase 20 pontos percentuais. "Estou apenas começando a lutar", alertou o governador reeleito em seu discurso da vitória.

Nestas eleições de meio de mandato, que costumam punir o partido no poder, são renovados toda a Câmara dos Representantes e um terço dos assentos do Senado, além de vários postos de governador e de legislativos locais.

Como esperado, o duelo pelo controle do Senado é implacável. Com três assentos ainda em disputa, a Câmara alta parece indicar que permanecerá sob controle democrata, mas isso poderia depender de um segundo turno na Geórgia em dezembro, já que nenhum dos candidatos superou os 50% dos votos neste estado do sul dos Estados Unidos.

Para castigar Biden, os republicanos precisavam de apenas um assento a mais para tomar o controle do Senado, atualmente dividido.

No entanto, a única cadeira que mudou de mãos foi para os democratas na Pensilvânia, onde John Fetterman, um defensor das políticas econômicas progressistas, derrotou o midiático médico Mehmet Oz, apoiado por Trump.

O senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, um dos principais aliados de Trump, admitiu sem rodeios que as eleições "não foram uma onda republicana, isso é certo".

Na Câmara dos Representantes, porém, a história é outra. Apesar da aposta em uma onda vermelha nas urnas que não se concretizou, os republicanos aparecem como prováveis vencedores e deverão ter uma maioria na Câmara baixa de 435 membros pela primeira vez desde 2018.

O líder do partido na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, que chegou a prever 60 assentos de vantagem sobre os democratas, preferiu olhar para o resultado com otimismo. "Está muito claro que vamos retomar a Câmara", disse.

Em uma madrugada eleitoral tensa, mais de 100 republicanos que propagam - sem provas - que as eleições presidenciais de 2020, vencidas por Biden, foram roubadas, conquistaram alguns dos cargos em disputa.

Mas alguns candidatos que Trump apoiou claramente tiveram uma noite amarga "e custaram ao partido a oportunidade de conquistar assentos que deveriam ter conquistado", disse à AFP Jon Rogowski, professor de ciência política da Universidade de Chicago.

"Os eleitores não apenas rejeitaram muitos dos candidatos de Trump, mas também suas políticas", afirmou Rogowski, citando o aborto, por exemplo.

Em referendos realizados em cinco estados, os eleitores apoiaram o direito ao aborto, rejeitando um veredicto da Suprema Corte, dominada pelos conservadores, que deixava para as autoridades locais a decisão sobre a permissão à interrupção da gestação. O caso do Kentucky, muito conservador e majoritariamente republicano, chama a atenção.

"Os eleitores falaram claramente sobre suas preocupações", disse Biden. “Ainda há muita gente ferida.” “Eles enviaram uma mensagem clara e inequívoca de que querem preservar nossa democracia e proteger o direito de escolha neste país”, declarou.

O presidente está satisfeito com o resultado, apesar do fato de que uma Câmara baixa controlada pelos republicanos, ainda que estreitamente, poderia inviabilizar sua agenda, abrindo investigações, frustrando suas ambições sobre a mudança climática e questionando os bilhões de dólares americanos gastos para ajudar a Ucrânia a lutar contra a Rússia.

Mas, dado o retrospecto negativo do partido no poder - seja qual for - nas eleições de meio de mandato, consideradas um referendo sobre a gestão do atual governo, e que os índices de popularidade de Biden atingiram o fundo do poço, os especialistas previam uma derrota.

E uma derrota acachapante teria levantado dúvidas sobre se o presidente mais velho da história dos EUA, que completa 80 anos este mês, deveria disputar a reeleição. Nesta quarta, repetiu sua intenção de concorrer, mas confirmará "no início do ano que vem".

Na realidade, Biden se saiu muito melhor do que qualquer um de seus predecessores democratas, Barack Obama ou Bill Clinton, nas "midterms".

As divisões políticas nos Estados Unidos são um fato desde antes das eleições presidenciais de 2020, mas se agravaram desde então em um clima de extrema tensão, com acusações entre os dois campos.

E o dia da eleição não foi diferente.

Trump afirmou que houve irregularidades no Arizona, devido a problemas com as urnas. Autoridades de Maricopa reconheceram que alguns locais de votação passaram por dificuldades, mas afirmaram que todos os eleitores tiveram a oportunidade de votar.

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