Biden dá guinada na diplomacia americana sobre guerra no Iêmen e Rússia

Sebastian Smith e Shaun Tandon
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O presidente americano, Joe Biden, encerrou nesta quinta-feira (4) o apoio à coalizão chefiada pela Arábia Saudita na guerra no Iêmen e congelou a retirada de tropas da Alemanha, enquanto afirmou que Washington não vai "se submeter" mais à Rússia, em uma ruptura com a diplomacia de Donald Trump.

Após duas semanas no poder, Biden e sua vice-presidente, Kamala Harris, foram até o Departamento de Estado para mostrar que o governo considera a diplomacia uma prioridade e para elaborar em um discurso os eixos de sua política externa.

O fim do apoio dos Estados Unidos à coalizão militar liderada pela Arábia Saudita que luta no Iêmen contra os rebeldes huthis reverte a política de Trump de dar assistência logística e vender enormes quantidades de armamento.

"Esta guerra deve acabar", disse Biden. "Para destacar nosso compromisso, estamos terminando com todo apoio americano às operações ofensivas na guerra no Iêmen, inclusive a venda de armas".

O conflito começou em 2014, quando os rebeldes huthis - alinhados ao Irã - se insurgiram contra o governo, iniciando uma guerra que resultou na pior crise humanitária do mundo.

Esta promessa de campanha de Biden é parte de uma revisão mais ampla da política americana no Oriente Médio.

Os huthis comemoraram esta mudança, que foi anunciada mais cedo pelo assessor de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, e afirmaram que esperam que seja "o primeiro passo de uma decisão para pôr fim à guerra".

O plano também revisará a inclusão dos huthis na lista de "organizações terroristas" dos Estados Unidos, outra medida tomada no apagar das luzes do governo Trump, mas criticada amplamente por ameaçar a entrega de ajuda ao Iêmen.

Após o discurso de Biden, a Arábia Saudita reiterou seu apoio a "uma solução política global" no Iêmen, segundo a agência estatal.

"O reino afirmou seu apoio a uma solução política global para a crise iemenita e saúda que os Estados Unidos deem importância aos esforços diplomáticos" para resolvê-la, informou a agência de notícias saudita.

Riade também aplaudiu o "compromisso [de Biden] de cooperar com o reino para defender sua soberania e fazer frente às ameaças contra ele", acrescentou.

O comunicado não mencionou, no entanto, a decisão americana de deixar de apoiar a coalizão militar.

Embora tenha anunciado a suspensão do apoio de Washington às ofensivas sauditas no Iêmen, Biden reconheceu que "a Arábia Saudita enfrenta ataques de mísseis e de outro tipo por parte de forças apoiadas pelo Irã em vários países".

"Ajudaremos a Arábia Saudita a defender seu território e seu povo", acrescentou.

Os rebeldes huthis do Iêmen têm atacado a Arábia Saudita em várias ocasiões com mísseis e drones.

A Arábia Saudita acusa o Irã, seu arquiinimigo regional, de apoiar os huthis, fornecendo-lhes armas, o que Teerã nega.

"Os Estados Unidos estão de volta. A diplomacia está de volta", afirmou o presidente democrata em seu discurso sobre prioridades estratégicas, no qual destacou que o país "não pode mais se permitir estar ausente do concerto mundial".

Cumprindo outra promessa de campanha, ele anunciou que a cota anual de refugiados admitidos sob o programa de reassentamento passará de 15.000 a 125.000.

- Enfrentar o "autoritarismo" da China e da Rússia -

Biden prometeu, ainda, que vai se opor ao "autoritarismo" tanto da China quanto da Rússia.

"Deixei claro ao presidente [russo Vladimir] Putin, de uma maneira muito diferente à do meu antecessor, que a época em que os Estados Unidos se submeteram aos atos agressivos da Rússia (...) acabou", acrescentou.

Washington - que culpa o Kremlin por um ataque cibernético maciço e o acusa de intromissão nas eleições presidenciais americanas - endureceu rapidamente sua postura com relação a Moscou.

Os Estados Unidos também denunciaram a prisão de Alexei Navalny, um dos poucos opositores que enfrentam o presidente russo, e Biden disse nesta quinta que ele deve ser libertado de forma "imediata".

Em outra reversão dos programas do seu antecessor, Biden confirmou que "congelará" o plano iniciado por Trump para reduzir a presença de tropas americanas na Alemanha, pedra angular da segurança da Otan desde o começo da Guerra Fria, como parte de "uma revisão global da situação" das forças mobilizadas no mundo.

Trump informou em junho que queria reduzir em grande medida o número de militares estacionados na Alemanha de 35.000 para 25.000. Essa decisão foi vinculada à sua tensa relação com Berlim e a União Europeia por questões comerciais, mas gerou preocupações de que estava debilitando a segurança dos países ocidentais diante de uma Rússia em ressurgimento.

- EUA pede à junta birmanesa que renuncie -

Depois do golpe de Estado desta semana em Mianmar contra o governo civil de Aung San Suu Kyi, Biden pediu aos militares para "renunciar ao poder que confiscaram" e lhes pediu que libertem ativistas e funcionários detidos, que suspendam as restrições às telecomunicações e se abstenham de recorrer à violência.

"Em uma democracia, não se pode usar a força contra a vontade do povo", afirmou o presidente, coincidindo com a ordem emitira pela junta birmanesa de bloquear o acesso ao Facebook.

Sullivan disse mais cedo que a Casa Branca avalia, por outro lado, adotar "sanções específicas" contra entidades que canalizam apoio financeiro aos militares do país asiático.

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