Biden e Xi buscam acalmar tensões da Guerra Fria 2.0 em 1º encontro presencial

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - O presidente dos EUA, Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF - O presidente dos EUA, Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o dirigente chinês, Xi Jinping, se reuniram presencialmente pela primeira vez desde a eleição do democrata nesta segunda-feira (14), em Bali, na Indonésia —antes, eles só se haviam se falado por videoconferência.

O encontro durou cerca de três horas. Nele, os líderes reforçaram o compromisso de manter aberta uma linha de comunicação direta entre si, em um esforço para diminuir as tensões crescentes entre suas respectivas nações nos últimos anos, e discutiram desafios globais como a crise climática e a Guerra da Ucrânia.

O tom da conversa ficou claro após declaração de Biden na saída da reunião. "Eu absolutamente acredito que não precisa haver uma nova guerra fria", disse.

Do outro lado, Xi disse ao americano, segundo o governo chinês, que "o estado atual das relações China-EUA não responde ao interesse fundamental dos dois países e povos e não é o que a comunidade internacional espera". Segundo Pequim, o líder do regime teria dito que é preciso ter "responsabilidade com a história, o mundo e os povos" para melhorar as relações e colocar as duas nações "no caminho saudável e estável em benefício dos dois países e do mundo como um todo."

O encontro entre os líderes das duas maiores economias globais acontece em meio a um contexto de crescente antagonismo entre os dois países, seja nas relações comerciais, na Guerra da Ucrânia e em ameaças militares dos dois lados.

Tanto Xi quanto Biden chegam à reunião fortalecidos internamente. Biden acaba de ter uma vitória expressiva nas eleições legislativas americanas, ao manter maioria no Senado, ao contrário das expectativas nas últimas semanas. Do outro lado, Xi também acaba de conquistar um inédito terceiro mandato no comando da China, consolidando-se como figura mais forte no país desde Deng Xiaoping.

Os dois líderes já haviam se encontrado em algumas ocasiões anteriores, sobretudo quando Biden era vice-presidente de Barack Obama (2009-2017), mas este foi o primeiro encontro com o americano no comando dos Estados Unidos.

Antes da reunião a portas fechadas, os dois posaram para a imprensa com um caloroso aperto de mão. Biden afirmou que as duas principais potências globais têm a responsabilidade de mostrar ao mundo que são capazes de lidar com as próprias diferenças, impedindo que a competição entre elas se transforme em um conflito. Ele acrescentou que espera colaborar com a nação asiática para solucionar questões globais urgentes, como as mudanças climáticas e a insegurança alimentar.

Xi, por sua vez, concordou que a relação entre os dois países não estava à altura das expectativas e que seu curso precisava ser corrigido por meio de um trabalho em conjunto entre os dois governantes. "O mundo espera que a China e os EUA lidem da maneira certa com essa relação", disse.

A reunião, que pôs frente a frente os responsáveis pelas duas principais potências globais, antagonistas do que alguns chamam de uma espécie de nova Guerra Fria, serviu como uma prévia da cúpula do G20 que começa nesta terça (15) no Sudeste Asiático.

O interesse pelo evento foi potencializado pela elevação, nos últimos meses, das tensões diplomáticas entre Pequim e Washington, que perpassam diferentes temas.

Nota da Casa Branca marcou território ao fazer questão de claro que "Biden explicou que os EUA continuarão a competir vigorosamente com a China". Por outro lado, o texto diz que o presidente "reiterou que essa competição não deve resultar em conflito" e que os dois países "devem administrar a competição com responsabilidade e manter linhas de comunicação abertas."

Segundo a Casa Branca, Biden afirmou que os dois países devem trabalhar juntos para enfrentar desafios mundiais como crise climática, estabilidade macroeconômica global, alívio da dívida e segurança sanitária e alimentar. Os dois líderes teriam concordado em aprofundar esforços nessas e outras áreas, diz a Casa Branca.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da China, os dois líderes "trocaram pontos de vista de maneira franca e profunda sobre questões de importância estratégica nas relações China-EUA e sobre as principais questões globais e regionais."

O governo americano afirma que Biden "levantou preocupações sobre as práticas da China em Xinjiang, Tibete e Hong Kong e direitos humanos de forma mais ampla". Este é um dos pontos mais delicados nas relações entre os dois países e um dos quais a China é mais firme ao não aceitar qualquer crítica que possa ser vista como interferência estrangeira. EUA e entidades internacionais acusam o regime chinês de violar direitos humanos da minoria étnica muçulmana uigur na região de Xinjiang, no oeste do país, em campos de reeducação e até de trabalho forçado —o que o governo chinês nega.

O Tibete é outro ponto polêmico, mas cujo debate internacional está adormecido ao menos desde 2008. A região conquistou autonomia do império chinês no começo do século passado, mas foi reanexada por Pequim em 1951 após a revolução comunista, que dissolveu ao longo das últimas décadas qualquer dissidência. Hoje até tem um "governo do exílio" baseado na Índia, sem qualquer representatividade.

Por fim, Hong Kong figura como o exemplo mais recente do braço forte de Pequim. Devolvida pelo Reino Unido há 25 anos, o regime comunista não respeitou o acordo que daria autonomia à região por cinco décadas e sufocou dissidentes políticos.

Biden também teria exposto preocupação com a estabilidade em Taiwan, território que na prática tem autonomia na prática desde que nacionalistas fugiram para lá durante a revolução comunista, com governo e moedas próprios, mas que Pequim considera uma província rebelde e promete reanexar. "Ele levantou objeções dos EUA às ações coercitivas e cada vez mais agressivas da China em relação a Taiwan, que prejudicam a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan e na região mais ampla e comprometem a prosperidade global", diz o comunicado da Casa Branca.

Esse ponto, porém, é inflexível para o regime de Xi. Isso porque os comunistas assumiram o poder com uma expectativa de reunificar o país, dividido desde o século anterior, sob o comando central de Pequim, e assim o fizeram recuperando áreas ocupadas como Hong Kong e Macau. Taiwan seria a fronteira final dessa missão para os chineses, e Xi deixou isso claro no encontro com Biden, afirmando que esta é uma "linha vermelha" que não deve ser cruzada pelo governo americano.

"É a aspiração comum do povo e nação chineses realizar a reunificação nacional e salvaguardar a integridade territorial. Qualquer um que pretenda separar Taiwan da China estará violando os interesses fundamentais da nação chinesa; o povo chinês absolutamente não vai deixar isso acontecer!", diz nota do regime chinês.

Segundo o governo americano, Biden também teria questionado "as práticas econômicas não comerciais da China, que prejudicam trabalhadores e famílias americanas e trabalhadores e famílias em todo o mundo", em referência a subsídios oferecidos pelo regime chinês e barreiras alfandegárias a produtos do exterior. O governo Biden manteve as barreiras tarifárias impostas por seu antecessor, Donald Trump, no episódio que escancarou a guerra comercial entre os dois países. A secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, acompanhou a reunião ao lado de Biden.

A versão do encontro divulgada à imprensa pelo regime chinês foi menos confrontativa. "Os sucessos da China e dos Estados Unidos são oportunidades, não desafios, um para o outro. O mundo é grande o suficiente para os dois países se desenvolverem e prosperarem juntos", diz Pequim.

A boa notícia é que os dois líderes "reiteraram seu acordo de que uma guerra nuclear nunca deve ser travada" e ambos concordaram que armas do tipo não podem ser usadas na Guerra da Ucrânia. Xi tem se mostrado um aliado de primeira hora do russo Vladimir Putin, enquanto Biden lidera os esforços de apoio a Kiev —ainda que venha fazendo acenos ao Kremlin, pedindo nos bastidores para que Volodimir Zelenski aceite a ideia de uma negociação.

Segundo Pequim, Xi deixou claro que o país "permanece firme na busca de uma política externa independente de paz, sempre decide sua posição e atitude com base no mérito das questões e defende a resolução pacífica de disputas por meio do diálogo e da consulta."

O líder do regime chinês ainda teria afirmado que "a liberdade, a democracia e os direitos humanos são a busca comum da humanidade e também a busca inabalável do Partido Comunista" e rejeitou as alegações de autoritarismo. "Assim como os EUA têm uma democracia no estilo americano, a China tem uma democracia no estilo chinês; ambos se encaixam em suas respectivas condições nacionais. Todo o processo de democracia popular praticada na China é baseado na realidade, história e cultura do país e reflete a vontade do povo. Temos muito orgulho disso. Nenhum país tem um sistema democrático perfeito, e sempre há necessidade de desenvolvimento e aperfeiçoamento."