Biden mantém 'posição de irracionalidade' sobre Venezuela, diz chanceler

Javier TOVAR, Patrick FORT
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Jorge Arreaza, em entrevista à AFP, em 7 de abril

O presidente americano, Joe Biden, "optou por manter uma posição de irracionalidade", ao desconhecer o governo venezuelano de Nicolás Maduro - afirmou o chanceler Jorge Arreaza, que, ainda assim, tentou restabelecer o contato com a nova Casa Branca.

Os Estados Unidos lideram a pressão contra o presidente socialista com uma avalanche de sanções que se intensificaram no governo anterior do republicano Donald Trump, e que inclui um embargo de petróleo desde 2019.

Ministro das Relações Exteriores desde 2017, Arreaza garantiu em entrevista à AFP que o país está "aprendendo a conviver, superar, contornar, driblar as sanções", que "têm causado muito dano".

Ele disse que Maduro está aberto para normalizar as relações com Washington. Observou, no entanto, que o novo governo "optou por manter uma posição de irracionalidade", ao considerar como presidente da Venezuela o líder da oposição Juan Guaidó, após a reeleição de Maduro em 2018. Os críticos do herdeiro político de Hugo Chávez alegam que as eleições foram fraudulentas.

"Enviamos mensagens", disse o chanceler na entrevista concedida à AFP em seu gabinete em Caracas.

"Não tivemos contato, ou resposta positiva, à mão estendida pelo presidente Maduro, mas notamos menos agressividade", na comparação com o governo Trump.

Arreaza se lembrou de uma conversa com Elliott Abrams, o principal diplomata da gestão Trump para assuntos venezuelanos. Nela, foi advertido de que, após o fracasso da estratégia de um golpe de Estado, Washington exerceria "pressão máxima" para conseguir a queda de Maduro no longo prazo.

"Me disse 'vão ficar sem petróleo, sem gasolina, sem eletricidade, sem comida, até que, no fim, o povo não aguente e vocês deixem o poder'", relatou Arreaza.

Ao que ele disse ter respondido: "Você me fala de uma maratona, vamos ver quem é melhor, porque os venezuelanos são os melhores maratonistas da história da independência, e o presidente Nicolás Maduro vai escapar do pelotão".

- "Uma guerrilha no mar" -

Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal cliente do petróleo venezuelano, que teve de ser redirecionado para outros países, após as sanções.

Mas até isso é um problema, explicou Arreaza, já que muitas empresas temem ser punidas pelo governo americano por fazerem negócios com a Venezuela.

"Perseguem os navios, você tem que, praticamente, fazer uma tática irregular, uma guerrilha no mar para poder fazer o petróleo chegar aos seus legítimos compradores".

"Tivemos que fazer as coisas sem levantar suspeitas", reconheceu Arreaza, acrescentando: "Mas é isso que faz quem compra petróleo venezuelano".

Antes da intensificação das sanções, a Venezuela já atravessava uma severa crise econômica atribuída pelos especialistas às políticas do chavismo e a uma colossal corrupção.

Aliados como Rússia e China foram essenciais para manter o governo respirando, o qual, segundo o chanceler, não adquiriu uma dívida que "comprometa as finanças do país".

"O que deixamos de perceber nestes anos se perde de vista. Posso falar em 200 bilhões de dólares e ainda fico passo longe", avaliou o chanceler.

Ele exigiu a liberação de fundos no exterior, bloqueados pelas sanções e postos a serviço de Guaidó, cujo poder definiu como uma "ficção".

"Quando um país da Europa quer falar sobre a Venezuela e seu povo, eles me ligam", diz ele. "Na Venezuela tem um Estado, um governo, e não há dúvida de quem governa".

- "Vizinho incômodo" -

Arreaza garantiu que a Colômbia é o "vizinho mais incômodo do mundo", em meio a novas tensões pelos confrontos na fronteira comum entre as Forças Armadas venezuelanas e grupos irregulares, que deixaram 17 mortos entre soldados e "terroristas".

Dissidência das Farc?

"Há cerca de 20 grupos, incluindo este que se diz resíduos dissidentes, mas que cumprem o mesmo papel de um grupo paramilitar, ou de um grupo direto do narcotráfico", disse o chanceler, que solicitou à ONU "ajuda imediata" para "desativar os campos minados" no território venezuelano.

Ele também pediu apoio para um canal de comunicação entre Caracas e Bogotá, cujo governo não reconhece Maduro.

"Não há comunicação entre o presidente, entre chanceleres, entre as Forças Armadas. É algo internacional sem sentido... Um absurdo", lamentou.

Sobre a decisão de expulsar o embaixador da União Europeia na Venezuela em resposta a novas sanções do bloco contra autoridades chavistas, Arreaza considerou que foi uma medida "leve".

"Eles aplicaram esta política (...) de imitar os Estados Unidos com sanções", avaliou, esclarecendo que "canais de diálogo" foram abertos com encontros com representantes diplomáticos espanhóis e que vão "retomar contato com Josep Borrell", o chefe da diplomacia europeia.

"Espero que possamos regularizar, mas com respeito", frisou.

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