Biden planeja enviar assessor para defender transição em caso de vitória de Lula

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo dos Estados Unidos planeja organizar a visita ao Brasil de um alto funcionário da Casa Branca para defender diante de autoridades brasileiras a realização de uma transição dentro da normalidade em caso de vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL).

A administração Joe Biden chegou a programar a viagem ao país, na semana logo após a realização do segundo turno, do conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan.

A agenda, no entanto, foi cancelada e deve ser remarcada caso Lula saia vitorioso neste domingo (30). Segundo uma pessoa com conhecimento dos preparativos, que falou à Folha de S.Paulo sob condição de anonimato, o objetivo dos americanos é destacar com autoridades do governo Bolsonaro a confiança da Casa Branca numa transição de poder dentro da normalidade.

Se for confirmada, a viagem de Sullivan ao Brasil será a segunda do assessor ao país. Em agosto do ano passado, ele liderou uma comitiva a Brasília para tratar de temas de segurança, cooperação militar e também sobre o sistema eleitoral brasileiro. Em reunião com Bolsonaro à época, transmitiu a mensagem de que o governo Biden via as instituições brasileiras com a capacidade de conduzir eleições livres e justas --o presidente já liderava uma cruzada contra as urnas e o sistema de votação, lançando acusações infundadas de fraude.

A escalada de declarações de teor golpista desde então tem gerado apreensão em Washington. Os americanos avaliam que o líder brasileiro adota um receituário trumpista, preparando-se para questionar os resultados em caso de derrota. Nos EUA, o então presidente Donald Trump não aceitou a vitória de Biden em 2020 e, em janeiro de 2021, insuflou apoiadores que mais tarde invadiram o Congresso numa tentativa de impedir a certificação do pleito.

Outra preocupação dos democratas é que um movimento de questionamento das urnas possa gerar um processo caótico de transição, nos moldes do que a própria equipe de Biden enfrentou. Sem reconhecer a derrota, o adversário republicano só autorizou o início formal do processo de transição 16 dias após o resultado do pleito.

A percepção de que Bolsonaro usa uma estratégia espelhada na de Trump aumentou nesta semana, quando a campanha do PL apresentou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) uma denúncia sobre supostas fraudes na veiculação de inserções eleitorais da coligação em rádios no Nordeste.

A argumentação frágil apresentada, porém, foi contestada pelas próprias emissoras citadas. O presidente do TSE, Alexandre de Moraes, então, rejeitou a ação e determinou o envio do caso para o inquérito das milícias digitais, relatado por ele no STF (Supremo Tribunal Federal). Depois, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, disse se arrepender de entrevista que deu sobre o assunto, reconhecendo que "a falha era do partido, que percebeu o problema tardiamente, não da corte".

Um alto funcionário da administração Biden disse à Folha de S.Paulo reservadamente que a visão em Washington é de que a retórica de Bolsonaro contra o sistema eleitoral e a lisura das eleições visa a reduzir a confiança da população no resultado do pleito.

Com a aproximação das eleições, o governo americano enviou diferentes mensagens a autoridades brasileiras para tentar se contrapor à estratégia do líder brasileiro de minar a confiança nas urnas eletrônicas.

Na mais forte delas, após Bolsonaro chamar dezenas de embaixadores para uma apresentação repleta de mentiras e ataques contra o TSE, a missão diplomática dos EUA em Brasília divulgou uma nota garantindo seu respaldo às instituições. "As eleições no Brasil são para os brasileiros decidirem. Os EUA confiam na força das instituições democráticas brasileiras. O país tem um forte histórico de eleições livres e justas, com transparência e altos níveis de participação", disse a representação na ocasião.

Em outro recado, o secretário de Defesa Lloyd Austin, em visita ao país, afirmou ao ministro Paulo Sérgio Nogueira (Defesa) que a Casa Branca esperava que o Brasil mantivesse a tradição de realizar um pleito justo e transparente neste ano.

A agência Reuters noticiou que diplomatas americanos também informaram a Lula, em reunião em setembro, que os EUA planejam reconhecer rapidamente o vencedor das eleições no Brasil. Dias depois, a embaixada emitiu um comunicado dizendo que "o eventual reconhecimento dos EUA virá ao candidato que vencer a eleição como resultado da nossa determinação sobre a integridade do processo eleitoral liderado pelo Tribunal Superior Eleitoral, não de uma negociação com qualquer candidato ou partido".

Biden sofreu pressões internas para que os EUA se contraponham ao que a ala mais à esquerda de seu partido vê como uma possível tentativa de golpe. Antes do primeiro turno, congressistas escreveram mais de uma vez ao presidente americano pedindo que ele deixasse claro que o Brasil perderia o apoio para ingressar na OCDE e o status de aliado extra-Otan se Bolsonaro insistisse em atos de tom golpista.

Depois, o Senado ainda aprovou uma moção do senador Bernie Sanders em favor da democracia no Brasil. Movimentos semelhantes foram feitos no Parlamento Europeu e, nesta sexta (28), se repetiram em Washington às vésperas do segundo turno, com uma carta de congressistas e uma declaração da chancelaria.

O porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, voltou a afirmar que os EUA confiam em que a votação final será conduzida pelas autoridades brasileiras com "o mesmo profissionalismo e o mesmo espírito pacífico e de dever cívico" que a primeira rodada do pleito.