Biden reconhece o genocídio armênio, para o desgosto da Turquia

Jerome CARTILLIER
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O presidente americano Joe Biden, em 23 de abril de 2021

Joe Biden reconheceu neste sábado (24) o genocídio armênio, tornando-se o primeiro presidente dos Estados Unidos a qualificar assim a morte de 1,5 milhão de armênios massacrados pelo Império Otomano a partir de 1915.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan reagiu imediatamente denunciando "a politização por terceiros" deste debate.

A Turquia "não tem nenhuma lição a receber de ninguém sobre sua história", declarou por sua vez o ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu.

Já o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, considerou que o reconhecimento do genocídio por Biden representa um "grande passo", no 106º aniversário dos massacres entre 1915 e 1917 pelo Império Otomano.

Em uma mensagem em sua conta no Facebook, Pashinyan agradeceu Biden "pelo grande passo em direção à justiça e o apoio inestimável aos descendentes das vítimas do genocídio armênio".

O genocídio armênio é reconhecido por mais de vinte países e muitos historiadores, mas é vigorosamente contestado pela Turquia.

"Os americanos honram todos os armênios que morreram no genocídio que começou há 106 anos", escreveu Joe Biden em um comunicado.

"Estamos afirmando a história. Não estamos fazendo isso para atacar ninguém, mas para garantir que o que aconteceu nunca se repita", acrescentou.

O presidente democrata, que havia prometido durante sua campanha eleitoral tomar a iniciativa nesta questão, informou na sexta-feira seu colega turco sobre sua decisão durante uma conversa por telefone.

Os dois líderes concordaram em se reunir em junho, à margem da cúpula da Otan em Bruxelas.

Ao telefone com o presidente turco, o inquilino da Casa Branca manifestou o desejo de construir uma "relação bilateral construtiva", segundo o breve relatório americano que evoca a necessidade de uma "gestão eficaz dos desacordos".

- "Honrar as vítimas" -

Trata-se de "honrar as vítimas, não atacar ninguém", insistiu uma autoridade americana, que pediu anonimato.

"Continuamos a considerar a Turquia como um aliado crucial dentro da Otan", acrescentou.

Sem citar os Estados Unidos, o presidente turco enviou uma advertência velada a Washington na quinta-feira.

Durante um encontro com conselheiros, ele alertou que continuará a "defender a verdade contra aqueles que apoiam a mentira do chamado 'genocídio armênio' (...) para fins políticos".

Apesar de anos de pressão da comunidade armênia nos Estados Unidos, nenhum presidente americano havia ousado irritar Ancara.

O Congresso dos Estados Unidos reconheceu o genocídio armênio em dezembro de 2019 em uma votação simbólica, mas o presidente Donald Trump, que tinha um relacionamento bastante próximo com Erdogan, se recusou a usar tal palavra, falando apenas de "uma das piores atrocidades em massa do século XX".

Os armênios estimam que um milhão e meio dos seus foram sistematicamente mortos durante a Primeira Guerra Mundial por tropas do Império Otomano, então aliado da Alemanha e da Áustria-Hungria. Eles recordam esse genocídio todos os anos em 24 de abril.

A Turquia, resultante do desmantelamento do Império Otomano em 1920, reconhece massacres, mas rejeita o termo genocídio, evocando uma guerra civil na Anatolia, associada a uma fome, na qual entre 300.000 e 500.000 armênios e turcos morreram.

"Nunca devemos esquecer ou calar sobre esta horrível e sistemática campanha de extermínio", sublinhou Joe Biden durante a sua campanha.

"Se não reconhecermos plenamente o genocídio, se não o recordarmos, se não o ensinarmos, as palavras 'nunca mais' não significarão nada", acrescentou.

O anúncio de Biden não tem significado jurídico, mas pode piorar as tensões com a Turquia, que o secretário de Estado americano Antony Blinken chamou de "suposto parceiro estratégico" que "em muitos aspectos não se comporta como um aliado".

O presidente democrata afirma querer colocar a defesa dos direitos humanos no centro de sua política externa. Seu governo confirmou a acusação de "genocídio" feita nos últimos dias da presidência de Donald Trump contra a China pela repressão aos muçulmanos uigures.

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